ANBA na mídia
Governo precisa tratar fertilizantes como a pré-sal
Brasil importa, anualmente, entre 14 e 16 milhões de toneladas de fertilizantes
O Brasil importa, anualmente, entre 14 e 16 milhões de toneladas de fertilizantes. Para se ter uma idéia, o país é o quarto maior consumidor mundial de nutrientes para a formulação de fertilizantes.
De acordo com o ministro, existe um desafio central que se desdobra em um conjunto de medidas que deveriam ser tomadas pelo governo para reduzir a dependência do país de fornecedores internacionais. O desafio é elaborar uma política de exploração mineral para a produção de fertilizantes.
Vargas defende também a formação de parcerias com países como Rússia, China e Índia, que possuem tecnologia na exploração e produção nas jazidas. Nações árabes como Argélia, Marrocos e Arábia Saudita também poderiam ser parceiros do Brasil. Com isso, país poderá acelerar a exploração de suas reservas minerais. Veja a entrevista.
ANBA: O Brasil conseguirá reduzir sua dependência externa de fertilizantes?
Vargas: Existe um desafio central que se desdobra em um conjunto de medidas que deveriam ser tomadas pelo governo. O desafio é elaborar uma política definida para a exploração mineral para a produção de fertilizantes. Do mesmo modo que nós temos uma política definida para a pré-sal, temos também que tratar da mesma maneira a questão da exploração de minérios que tenham como destino a produção de fertilizantes. Existem três vetores que devem ser considerados na elaboração dessa política.
Quais são eles?
O primeiro deles diz respeito à produção de nitrogenados, o segundo de fosfatados e o terceiro de potássio, que são os insumos básicos para a produção de fertilizantes. Com relação aos nitrogenados, a nossa situação é mais confortável. É que não só descobrimos recentemente gás natural, de onde provem o nitrogênio, matéria-prima para a produção desses fertilizantes, mas temos também contrato de importação com a Bolívia, que nos fornece essa matéria-prima.
Aliadas a isso existem experiências realizadas pela Embrapa, que conseguem fixar o nitrogênio do ar no solo e, ao fazer isso, cria uma espécie de preparo natural do próprio solo para o plantio. A partir desse gás natural, o governo brasileiro teria que criar um conjunto de incentivos para que se aumentasse a produção de nitrogenados no Brasil.
E os fosfatados?
Em relação aos fosfatados, não temos problemas de fundo porque existem, na região de Patos de Minas e Patrocínio, diversas minas identificadas, que poderiam ser exploradas para a produção desses fertilizantes. Para que isso ocorra é preciso criar estímulos necessários para orientar o mercado a entrar nesse setor. E, por fim, esta a produção de fertilizantes derivados do potássio. Esse sim sempre foi um gargalo mais delicado e sensível para a agricultura brasileira.
Por que?
Durante muito tempo nós achávamos que não tínhamos essa matéria-prima e que, por isso, estaríamos fadados a importar fertilizantes eternamente. Mas, recentemente, identificamos uma jazida de potássio próxima a Manaus, no Amazonas. Segundo especialistas, é uma das maiores reservas do mundo. Identificamos também no litoral, próximo a Sergipe, outra jazida que poderia ser explorada.
Identificados os problemas e os gargalos existentes no setor de fertilizantes do país o que, na sua opinião, deve ser feito para mudar esse quadro?
Existem aqui dois desafios são fundamentais: o econômico e o tecnológico. O econômico é mais evidente. O mercado, por alguma razão, não tem visto este setor, a exploração de minas, como economicamente viável e, por isso, não tem mostrado interesse direto em explorar essas minas e jazidas. Quando isso acontece, o estado tem um papel a cumprir.
E que papel seria esse?
Diante desse quadro, cabe ao Estado resolver esse gargalo econômico entrando, portanto, na exploração das minas e em sua produção. Poderia fazer isso em parceria com o setor privado, sinalizando para o mercado que está determinado a garantir condições para o desenvolvimento deste segmento. Setor este que é estratégico para o desenvolvimento do Brasil. Se quisermos nos tornar uma potência agrícola, e temos condições de nos tornarmos o maior produtor e exportador mundial de alimentos, precisamos reduzir substancialmente a dependência da importação de fertilizantes.
O senhor fez referência também ao gargalo tecnológico. A tecnologia é um problema para o Brasil?
De fato, ainda resta um segundo problema, até mais importante do que o econômico. A tecnologia para a produção de fertilizantes é complexa e não se produz do dia para a noite. Existe dificuldade no curto prazo para o Brasil produzir tecnologia própria para explorar essas jazidas.
Como resolver esse impasse?
Para solucionar esse problema defendo que o Brasil forme parcerias estratégicas com países que tenham tecnologia na exploração e produção nas jazidas. Com isso, o país conseguirá acelerar esse processo de produção.
E quais são esses países?
A Rússia, por exemplo, já manifestou, no passado, um interesse em conversar sobre esse tema com o Brasil, dentro de um espírito muito simples: nós estamos determinados a produzir nossos fertilizantes e eles (os russos) podem ser nossos concorrentes ou parceiros. Se forem nossos parceiros, poderão participar, mediante condições a serem estabelecidas, dessa exploração das jazidas de potássio. E nós, ao mesmo tempo, poderíamos celebrar com os russos contratos de longo prazo de vendas de alimentos, que é algo do interesse deles. A autossuficiência em fertilizantes é fundamental para o nosso futuro e fundamental para o nosso desenvolvimento.
Como viabilizar essa parceria?
Se ambos os países têm interesses, que estão acima de um interesse específico comercial, e entendem que podem trabalhar juntos, há um espaço para essa colaboração estratégica. Citei a Rússia como exemplo, mas essa parceria pode ser feita também com a China e com a Índia. Ou mesmo com mais de um país. Ou seja, o Brasil não deveria olhar essa relação com outros países como uma necessidade, como um imperativo, mas como uma grande oportunidade, pois os outros países também podem ter interesse em participar disso conosco e nós só temos a ganhar com isso.
Em quanto tempo o senhor acha que o Brasil será autossuficiente em fertilizantes?
É cedo para dizer se temos condições de chegar à autossuficiência. Entendo que a discussão central não é sobre o fim, mas sobre o início desse processo. Ou seja, nós identificamos esse problema, o tratamos com prioridade e sabemos os caminhos que podemos adotar para tentar combatê-lo. Precisamos, portanto, trilhar esse caminho já. Quando conseguiremos a solução plena para o problema da importação de fertilizantes é algo que virá no tempo certo. O fundamental é que o governo trabalhe com a velocidade necessária para enfrentar e resolver o imbróglio.
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