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22/12/2015 - 07:00hs
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Um ano para superar a crise

Economistas avaliam que o Brasil terá um ano difícil em 2016, com recessão, juros altos e commodities baratas. Exportações deverão se manter e superar as importações e o câmbio continuará favorável ao exportador.



São Paulo - Na economia, 2016 não será um ano fácil nem de lucros elevados. Ao contrário. As expectativas dos economistas são de um ano com juros altos, commodities baratas e vendas ao exterior estáveis. A recessão deverá prevalecer, assim como os efeitos da operação Lava Jato, da Polícia Federal, deverão continuar a contaminar o ambiente produtivo. Na avaliação de especialistas entrevistados pela ANBA, a situação só não será pior porque a inflação deverá voltar para patamares próximos da meta, as importações vão cair e o câmbio continuará favorável a quem vende para o exterior.

Valter Campanato/Agência Brasil

Tombini: presidente do Banco Central prevê inflação dentro da meta

Professor de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e sócio-diretor da AC Lacerda Consultores, Antonio Correa de Lacerda afirma que a inflação oficial medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deverá voltar a patamares próximos do centro da meta estabelecida pelo Banco Central. Isso deverá ocorrer principalmente porque os preços administrados pelo governo, como os de energia elétrica e de combustíveis, deverão subir menos do que neste ano. 

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, já afirmou que a inflação deverá encerrar 2016 dentro do limite estabelecido pela autoridade monetária. A meta oficial é de 4,5% de inflação ao ano com variação de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Ou seja, na avaliação de Tombini, o IPCA termina o ano que vem em até 6,5%. Já as instituições financeiras estimaram em 14 de dezembro que o IPCA de 2016 será de 6,8%. Mesmo essa avaliação está longe dos 10,61% previstos pelo setor financeiro para este ano.

“A inflação deve voltar para o patamar de 6% a 6,5%, e por isso os juros não deveriam ser elevados, ao contrário do que o Banco Central sinalizou que irá fazer. O Banco Central poderia aproveitar essa inflação menor para reduzir os juros (e assim estimular a atividade produtiva). A recessão no ano que vem vai ser forte, e (sua intensidade) também depende do clima político. Se elevarem os juros, a recessão será ainda mais forte”, afirmou Lacerda à ANBA. A taxa básica de juros atual é de 14,25% ao ano.

Lacerda se refere ao clima político porque a operação Lava Jato, desencadeada ainda em março de 2014 pela Polícia Federal, continua a investigar políticos e empresários acusados de desvios de recursos públicos e corrupção. Os desdobramentos da operação, como os prejuízos da Petrobras e a prisão dos presidentes das maiores empreiteiras e de um dos principais bancos do País, paralisou parte dos negócios em curso e suspendeu projetos.

Documentos apreendidos na operação Lava-Jato: clima político tenso e empresários presos

Lacerda afirma que é difícil “fazer previsões mais profundas” para a economia em 2016, porém afirma: “Não vejo grandes mudanças”. Ele observa que apesar do momento difícil, um aspecto positivo para o setor produtivo é o câmbio elevado. Ainda segundo as estimativas das instituições financeiras, o dólar deve encerrar 2015 cotado a R$ 3,90 e chegar a R$ 4,20 em 2016, o que é bom para os exportadores.

Investir nas exportações não é a única oportunidade para o próximo ano. A outra está no mercado financeiro. “É provável que cresça o volume de fusões e aquisições. Mesmo neste ano, o Brasil está recebendo um volume elevado de Investimento Estrangeiro Direto (IED). Além disso, o real desvalorizado e a difícil situação de algumas companhias fortalecem o processo de fusões e aquisições”, avalia.

O câmbio deverá gerar efeitos positivos em outro setor da economia: a balança comercial. O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, afirmou que o volume dos produtos exportados deverá se manter estável em comparação com 2015. Por outro lado, as importações vão cair ainda mais, o que deverá elevar o superávit da balança comercial ao dobro que se espera obter neste ano, que são US$ 15 bilhões.

“Esperamos um superávit muito maior, quase o dobro do que teremos neste ano, devido, principalmente, à queda nas importações. Com uma situação econômica difícil, as pessoas consomem menos, o que reduz demanda de produtos e insumos. As exportações, de uma forma geral, devem se manter. Esperamos uma queda nas (receitas com) exportações por causa da queda nas cotações (das commodities) e um aumento muito pequeno nas exportações de manufaturados”, afirmou Castro.

“Essa taxa (de câmbio) deve prevalecer ou mesmo subir, por dois motivos: o primeiro seria um aumento na taxa de juros dos Estados Unidos e segundo, uma queda no grau de investimento do Brasil provocado por duas agências (de classificação de riscos). Neste caso, haveria restrição de entrada de recursos estrangeiros no País e o dólar subiria. A expectativa é de um dólar cotado em torno de R$ 4,00, porém esse é o piso. O teto para o câmbio é aberto”, disse.

Em setembro, a agência de classificação de riscos Standard & Poor’s rebaixou a nota de classificação de risco para o que considera “grau especulativo”. Em dezembro, foi a vez de a Fitch tirar o selo de "grau de investimento do Brasil". Se duas das três grandes agências colocam o País em "grau especulativo", como agora ocorre, investidores ficam mais seletivos ao decidir aplicar seus recursos no Brasil. Além disso, há fundos de investimento que deixam de fazer aportes em países nesta condição. A outra grande agência de classificação de riscos, Moody's, já avisou que poderá rebaixar a nota brasileira. Menos moeda estrangeira eleva a cotação do dólar.

Com isso, se uma das outras duas grandes agências adotar a mesma classificação, seja ela a Moody’s ou a Fitch, fundos de investimento que atuam no Brasil são obrigados a retirar seus investimentos porque não podem, por suas próprias regras, investir em um país que não garante ser capaz de pagar suas obrigações. Se isso ocorrer com o Brasil, e existe esta chance, o dólar deverá subir. 


O novo presidente da Argentina, Mauricio Macri, deverá adotar medidas que poderão incrementar a relação comercial entre o vizinho sul-americano e o Brasil, o que pode ser bom para o País, segundo Castro.

Vanessa Fuzinatto/Embrapa

Lavoura de soja: expectativas de preços baixos

“Ele se comprometeu a reduzir tributos para milho, soja e sorgo, entre outros. Serão cerca de 20 milhões de toneladas de produtos agrícolas produzidos pela Argentina que voltarão a ser exportados. A Argentina deverá recompor o seu caixa. Macri também prometeu mexer no câmbio, o que deverá melhorar o fluxo comercial. Haverá um estímulo maior para o plantio e para a exportação e, então, uma relação econômica melhor com o Brasil”, afirmou Castro.

Macri anunciou o fim de impostos para a exportação de milho, trigo e sorgo e reduziu de 35% para 30% a taxa que incide sobre a venda internacional de soja.

O agronegócio foi o único setor da economia brasileira a ainda apresentar crescimento no decorrer de 2015, tendência que poderá ser interrompida em 2016, segundo o professor de Economia Rural da Universidade Federal da Paraná, Eugenio Stefanelo. Ele se refere ao desempenho das lavouras e da pecuária.

“Em 2014, o PIB brasileiro ficou estável, deveremos ter queda de 3,5% neste ano e de 2% a 2,5% no ano que vem. O único setor com desempenho positivo é o setor primário, com expansão de aproximadamente 2% neste ano e de 2% em 2016, se o clima não quebrar a safra. O agronegócio como um todo terá um desempenho neste ano de -1% a -1,5% e pode se estabilizar em 2016. O setor está sentindo a queda na venda de máquinas, de adubos e de implementos agrícolas”, afirmou Stefanelo.

Há uma expectativa de desequilíbrio das chuvas em razão do fenômeno El Niño. Porém se a mudança no regime de chuvas não resultar em quebras de safra, os preços das commodities deverão ser os menores dos últimos anos. A soja deverá ter preços entre US$ 8,50 e US$ 9 por bushel (medida que equivale a 27,2 quilogramas) e o milho deverá variar entre US$ 3,50 e US$ 4,20 por bushel (que corresponde a 25,4 kg). Os preços irão cair, diz Stefanelo, em razão da recuperação da oferta destes produtos no mercado internacional.

Outros setores, como o de carnes e o sucroalcooleiro, não deverão ter quedas de receitas no próximo ano. Essa expectativa é resultado da recuperação da demanda externa, no caso das carnes, e da recuperação do preço da gasolina no mercado nacional. “Os produtores de carne têm margem (de lucro) maior devido às exportações. O boi mais caro fortalece os preços dos suínos e do frango. É fundamental manter as exportações, para que atendam à produção. Senão, o mercado interno não absorve isso”, diz o economista.

“O setor sucroalcooleiro, pela primeira vez deverá ter déficit de produção de açúcar em cinco anos. Além disso, o aumento nos preços da gasolina trouxe um alento ao setor (pois a gasolina brasileira leva álcool anidro) e 2016 será um ano melhor para o setor”, afirma Stefanelo.

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