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31/05/2016 - 17:30hs
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Chance de medalha para o Rio

Jogos Olímpicos começam em agosto com gastos de mais de R$ 39 bilhões e questionamentos sobre seu legado. Serão quase 15 mil atletas Olímpicos e Paralímpicos na briga por medalhas.



São Paulo - Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio de Janeiro começarão em 05 de agosto após investimentos de mais de R$ 39 bilhões, tanto em áreas diretamente relacionadas à prática dos esportes como na infraestrutura para receber o evento. Parte do legado já é conhecida: uma nova linha de metrô que liga a Zona Sul da cidade à região da Barra da Tijuca, na Zona Oeste, onde será realizada a maior parte das competições. A revitalização da região portuária e a inauguração do Museu de Arte do Rio (MAR) e do Museu do Amanhã constituem outras heranças dos Jogos mesmo antes das competições.

Divulgação

Museu do Amanhã: herança que a população já aproveita

Quando a pira Olímpica for acesa, R$ 39,1 bilhões terão sido investidos. De acordo com a Autoridade Pública Olímpica (APO), empresa que coordena as ações dos governos na organização dos Jogos, os custos são dividos em três orçamentos. O primeiro deles se refere ao gasto exclusivo nas competições, como a compra de equipamentos para as provas. A projeção é gastar R$ 7 bilhões, provenientes de recursos privados, repasses do Comitê Olímpico Internacional (COI) e vendas de ingressos. 

Outro orçamento, a matriz de responsabilidades, compreende a infraestrutura para receber os jogos, como a construção das arenas de competição, o fornecimento de energia para as instalações olímpicas e a Vila Olímpica. Desse total, 60% provêm de recursos privados e 40%, de verba pública.

O terceiro orçamento inclui os investimentos em infraestrutura na cidade-sede. Nele, estão incluídos a construção da linha de metrô, a revitalização do Porto Maravilha, a ciclovia Tim Maia, três corredores de ônibus conhecidos como BRT e um veículo leve sobre trilhos (VLT), em um total de 27 de projetos. O montante investido nesta etapa é de R$ 24,6 bilhões e, desse total, 57% provêm de recursos públicos e 43% do setor privado. A maior parte do dinheiro público é repassada pela prefeitura do Rio. Governo federal e estado também contribuem.

Quando foi escolhido para sediar os Jogos em 2009, o Rio de Janeiro desbancou concorrentes como Madri, Chicago e Tóquio, que receberá os Jogos em 2020. Na ocasião, um dos apelos dos organizadores do evento era usar o exemplo de Barcelona, na Espanha, para promover uma mudança no planejamento urbano que resultasse em mais qualidade de vida para a população. Há, porém, questionamentos sobre os êxitos do Rio neste objetivo.

Em seu livro Circus maximus, o economista especialista em competições como Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, Andrew Zimbalist, afirma que geralmente eventos como estes ficam mais caros do que o planejado e cita dois locais em que as Olimpíadas deixaram um legado positivo. Um deles foi Los Angeles, nos Estados Unidos, que sediou os jogos em 1984. Gastou pouco, não construiu vila olímpica e abrigou os atletas nas universidades locais. Obteve lucro.

André Motta/brasil2016

Parque Olímpico na Barra da Tjuca: chance de desenvolver zona oeste da cidade

O outro caso é o de Barcelona. A cidade espanhola utilizou os jogos olímpicos para se reinventar. Zimbalist observa, contudo, que Barcelona começou a repensar sua estrutura como cidade antes dos Jogos. À ANBA, ele criticou a organização dos Jogos. Afirmou que muitos dos benefícios que são apresentados como legado poderiam ser obtidos com menos dinheiro. Ele observou também que cidades de países em desenvolvimento precisam gastar mais dinheiro para criar a infraestrutura para os Jogos do que aquelas de países desenvolvidos.

“Alguns gastos são em modernização do porto e no metrô e constituem legados positivos. Mas o problema tem cinco faces: primeiro, seria possível modernizar a infraestrutura do Rio com uma fração desse custo e de forma mais benéfica aos cariocas. Segundo, o deslocamento de 60 mil favelados, destruindo suas comunidades e desorganizando suas vidas, é um legado vergonhoso. Terceiro, as Olimpíadas devem trazer US$ 4 bilhões em receita, na melhor das circunstâncias. Isso é uma fração dos custos e só serve para a falência fiscal da cidade e do estado. Quarto, o endêmico problema com a corrupção e a ineficiência com a burocracia são somente exacerbados com a experiência de sediar os Jogos, levando a uma situação política insustentável. Quinto, a reputação do Rio foi horrivelmente manchada (por eventos como a remoção de favelas)”, afirmou Zimbalist.

Um dos destaques negativos entre os legados olímpicos foi a queda de um trecho da Ciclovia Tim Maia no mar, em 21 de abril. Uma parte da estrutura não suportou a força das ondas, no trecho da via em São Conrado. Duas pessoas que passavam pelo local morreram. Laudos técnicos apontaram para erro no projeto, na licitação e na fiscalização da obra.  

Sócio da consultoria 4E, que atua na avaliação de cenários macroeconômicos, Juan Jensen afirmou que os Jogos Olímpicos irão trazer alguns legados positivos ao Rio de Janeiro, como novas linhas de transporte público. Além disso, mais turistas deverão visitar a cidade e o Brasil se os Jogos deixarem uma imagem positiva do País. No entanto, ele afirma que o evento não trará ganho financeiro, e observa: “É um evento organizado com dinheiro brasileiro para gerar benefícios a [apenas] uma cidade, o Rio de Janeiro”, disse. Jensen declarou, porém, que não é momento de criticar os gastos com os Jogos, no atual cenário de crise, pois o compromisso foi assumido numa época positiva para a economia brasileira.

Gabriel Helius/brasil2016

Arenas e centros esportivos poderão ser utilizados para treinamento de atletas após o evento

Em maio, a agência de classificação de riscos Moody’s divulgou um levantamento em que avalia os ganhos que o Brasil terá com a realização dos Jogos do Rio. O documento afirma que os benefícios em infraestrutura “já começaram”, porém, o impacto na receita das empresas e na economia do País é “limitado”.

Barcelona, Atlanta, Montreal, Londres. Todas estas cidades receberam Jogos Olímpicos e todas estouraram o orçamento. Com o Rio não é diferente. Em 2008, quando lançou sua proposta, previa gastar R$ 28,8 bilhões. Já ultrapassou aquele valor em aproximadamente 27%. Em janeiro, a APO atualizou o orçamento para os atuais R$ 39,1 bilhões. A revisão anterior previa gastar R$ 38,2 bilhões. Os Jogos do Rio não são os mais caros, se for analisado o seu custo nominal. Nesta comparação, Pequim custou mais, ultrapassando US$ 40 bilhões. A russa Sochi, que recebeu os Jogos de Inverno de 2014, ultrapassou os US$ 50 bilhões.

O COI informou à ANBA que sediar os Jogos Olímpicos é uma iniciativa custosa. Por esse motivo, a entidade aprovou em 2014 um documento, a Agenda 2020, com diversas normas para cidades candidatas, assim como regras para premiar atletas que herdarem medalhas dos competidores flagrados em doping, entre outras medidas. O COI afirmou que o Comitê Organizador dos Jogos Rio 2016 está “trabalhando duro” para garantir que o legado do evento “seja sentido não apenas na cidade do Rio de Janeiro, mas também ao redor do País”.

Divulgação/Prefeitura Rio

Parque Aquático Maria Lenk vai poder ser usado após os Jogos

“A reta final é sempre a mais difícil. Durante a fase operacional, na qual estamos entrando, há milhares de detalhes a serem gerenciados, e sua solução em tempo oportuno faz a diferença entre Jogos e grandes Jogos. O time Rio 2016 está pronto para enfrentar este desafio e promover os Jogos Olímpicos e Paralímpicos que irão refletir o calor dos brasileiros, hospitalidade e paixão por esportes. Acreditamos que a Rio 2016 deixará a nação sede orgulhosa”, afirma o COI.

O Comitê Internacional informou ainda que os custos são divididos entre a operação dos Jogos e a infraestrutura que uma cidade decide criar para recebê-los. A organização observou ainda que repassa US$ 1,5 bilhão para cobrir custos operacionais.

Rumo ao oeste

São esperados para os Jogos 10,5 mil atletas olímpicos e 4.350 paralímpicos, que irão participar de competições em mais de 40 modalidades distribuídas por 32 arenas em quatro regiões: Barra da Tijuca e Deodoro, na Zona Oeste, Copacabana, na Zona Sul, e Maracanã, na Zona Norte. O “centro” das atividades e a Vila Olímpica estão na Barra da Tijuca, região que foi escolhida justamente para que se desenvolvesse um bairro afastado do Centro do Rio.

A prefeitura carioca vai tentar atrair a iniciativa privada para a administração futura destes espaços. O mesmo, porém, foi feito pela prefeitura de Londres, que sediou os Jogos em 2012, mas a capital britânica só encontrou um dono para o Estádio Olímpico este ano, o West Ham United, time de futebol da cidade.

Fernando Soutello/Rio 2016

A tocha olímpica viaja o Brasil: evento pode gerar imagem positiva e atrair turistas para o País mesmo depois das competições

 

Gerente internacional de mídia do Comitê Rio 2016, responsável pela organização dos Jogos, Phil Wilkinson afirmou que os organizadores dos Jogos do Brasil já estão trabalhando na forma como as arenas serão utilizadas depois da Olimpíada, e lembrou que o Estádio Olímpico de Londres recebeu eventos após os Jogos mesmo sem ter sido concedido à iniciativa privada.

A menos de 70 dias da cerimônia de abertura, as Olimpíadas e Paralimpíadas do Rio ainda não estão prontas. Obras de construção do velódromo ainda estão em andamento porque a construtora responsável pela execução do contrato foi substituída pela Prefeitura do Rio. A empresa entrou em recuperação judicial e não teria condições de concluir a obra.

Segundo Wilkinson, 88% do velódromo, para competições de ciclismo, foi concluído. Outro caso é o da Baía de Guanabara, que vai receber as competições de vela. Ali, o problema é a poluição. “O velódromo estará pronto para os Jogos. Quanto à Baía de Guanabara, 11% do seu esgoto era tratado em 2009. Agora, mais de 50% recebe tratamento. Esse percentual deverá crescer mesmo após os Jogos”, disse.

Para Wilkinson, os Jogos do Rio deixarão diversos legados. “Acredito que o principal será a transformação da rede de transportes. Além disso, 50 mil voluntários aprenderão novas tarefas profissionais, uma rede de fornecedores foi montada para atender à demanda e um milhão de pessoas aprenderá a falar uma segunda língua (o inglês) em pouco tempo.”

Presidente da APO, Marcelo Pedroso afirmou à ANBA que as Olimpíadas do Rio recebem uma porcentagem maior de investimentos privados do que aquelas que as antecederam. Observou também que eventos como este são a chance de reunir recursos para antigos projetos. É o caso do plano viário do ex-governador Carlos Lacerda, criado nos anos 1960, que previa a construção de vias expressas com nomes de cores. Desse projeto, surgiram as linhas Amarela e Vermelha. Os BRTs, diz Pedroso, são uma herança daquela época.

Divulgação/APO

Marcelo Pedroso: Jogos do Rio recebem mais investimento privado e têm a chance de colocar em prática projetos antigos

O presidente da APO citou ainda como legado o desenvolvimento do esporte no Brasil. O velódromo, o Parque Aquático Maria Lenk e o Centro Olímpico de Tênis poderão ser utilizados para que atletas de todo o País treinem e se aperfeiçoem para competições internacionais.

“Os Jogos reúnem e aceleram os investimentos. Com eles, a cidade consegue realizar projetos antigos em um curto período e benéficos ao Rio”, afirmou Pedroso. “Talvez essa seja a edição dos Jogos que trará mais benefícios à sua população”, disse. Ele acrescentou que o Brasil também ganha com a realização das Olimpíadas. “O retorno para o País pode ser medido na melhoria da sua imagem internacional e no aumento do número de turistas após a realização das competições. São ganhos que se distribuem não apenas para o Rio, mas para todo o País.”

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