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19/09/2016 - 07:00hs
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Em busca do turista perdido

Desde 2011 o Egito sofre com a queda no número de visitantes, o que se agravou do final do ano passado para cá. País aposta na promoção internacional e oferta de novos pontos turísticos para voltar a atrair estrangeiros.



Cairo – O turismo no Egito teve em 2010 seu melhor ano, foram quase 15 milhões de visitantes estrangeiros e um faturamento de US$ 12,5 bilhões. De lá para cá, porém, houve a Primavera Árabe, com a instabilidade política e social que se seguiu, e a queda dos aviões da russa Metrojet, no Sinai em outubro de 2015, e da Egyptair, no Mediterrâneo em maio último. Isso teve efeitos negativos profundos na atividade e na economia egípcia em geral.

Alexandre Rocha/ANBA

Mahmoud: turismo chegou a representar 11% do PIB

No ano passado, 9,3 milhões de pessoas visitaram o país e geraram receitas de US$ 6,1 bilhões, ou seja, menos da metade do valor registrado em 2010. E a tendência de baixa continua. No primeiro semestre de 2016, o número de turistas caiu 50% em comparação com o mesmo período de 2015, e a expectativa para o volume total de receitas no ano varia de US$ 4 bilhões a US$ 4,5 bilhões.

“O turismo ainda está sofrendo [os efeitos dos acontecimentos dos últimos anos]”, disse o presidente da Egyptian Tourism Authority, agência de promoção do turismo egípcio, Samy Mahmoud. “A atividade é muito importante para a economia, representa 11,3% do PIB e 4 milhões de empregos diretos e indiretos” acrescentou. A porcentagem do Produto Interno Bruto diz respeito ao momento de auge do setor.

Segundo Mahmoud, o turismo é responsável por 20% do ingresso de moeda estrangeira no país. A redução do número de visitantes, aliada ao recuo das remessas de dinheiro de egípcios que vivem no exterior e a estagnação do comércio mundial, que afeta as receitas do Canal de Suez, fez com que o déficit em conta corrente crescesse de forma significativa, e o governo teve de recorrer a financiamentos externos. No mês passado, por exemplo, os egípcios firmaram um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) que prevê o repasse de US$ 12 bilhões em três anos.

A falta de dólares no mercado levou à desvalorização da libra egípcia, o que pressiona a inflação, outro problema da economia. A taxa anual de inflação chegou a 15,5% em agosto, maior patamar em sete anos. No mercado de câmbio, há grande diferença, enquanto a taxa oficial é de 8,88 libras por dólar, no paralelo a moeda norte-americana chega a custar mais de 12 libras.

Alexandre Rocha/ANBA

Pirâmide em degraus de Saqqara: poucos visitantes

Isso não quer dizer que a economia egípcia esteja de joelhos. O país recebeu nos últimos anos ajuda financeira de nações do Golfo como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Kuwait, e o governo procura promover as exportações e atrair investimentos estrangeiros diretos. O presidente Abdel Fattah El-Sisi tem viajado para “vender” o Egito aos estrangeiros. Recentemente, por exemplo, ele participou como convidado do encontro do G20 na China.

Ações de promoção ocorrem em diversos países, inclusive no Brasil, que deverá receber em novembro uma conferência da Autoridade Geral de Investimentos e Zonas Francas do Egito (Gafi, na sigla em inglês). “Eu recebo com frequência consultas de empresas brasileiras interessadas no Egito”, contou o embaixador brasileiro no Cairo, Ruy Amaral.

O FMI estima que o PIB egípcio vai crescer 3,3% este ano e 4,3% no próximo. “A economia está melhor do que há dois ou três anos, está mais estável e os investimentos estão vindo”, destacou o professor de Economia da Universidade 6 de Outubro, localizada na região metropolitana do Cairo, Ali Al-Idrissi.

Além de controlar o déficit externo, o Egito tem outros desafios para lidar, como combater o desemprego e a pobreza, e ajustar as contas públicas. Nesta seara, o turismo tem também um papel importante a desempenhar. “A economia está crescendo num ritmo bastante respeitável, mas o Egito tem grandes problemas de solução complexa”, afirmou Ruy Amaral. “E eu não vejo solução de curto prazo que não seja a recuperação do turismo”, destacou.

Medidas

Alexandre Rocha/ANBA

Ministro do Turismo: Egito é destino seguro

Nesse sentido, os egípcios estão adotando uma série de medidas para atrair de volta os visitantes, como negociações com países que suspenderam voos após a explosão do jato da Metrojet, especialmente a Rússia, que na época era o maior emissor de turistas ao Egito. O ministro do Turismo, Yehia Rashed, disse à ANBA que espera em breve a liberação das viagens pelos russos e também a suspensão de um embargo do Reino Unido sobre os voos ao balneário de Sharm El-Sheikh. “O Egito é um destino seguro e temos mais potencial do que outros destinos” declarou o ministro.

Apesar dos acontecimentos recentes e ações de grupos armados em pontos isolados do país, geralmente viagens ao Egito são de fato seguras. As grandes cidades e os principais pontos turísticos não costumam ser palcos de violência urbana e são raros os assaltos. “Tenho viajado pelo Egito e me sinto perfeitamente seguro, mais do que na América Latina, e no Brasil em especial, e não hesito em recomendar o país aos meus amigos”, ressaltou o embaixador Amaral.

Não é só o diplomata que diz. Ex-jogador do Botafogo, do Santos e da Seleção Brasileira, Rildo Menezes atua há dois anos como coordenador das academias de base do Zamalek, um dos principais clubes egípcios, e conta que ele e a mulher, Teresa, andam pelas ruas do Cairo, às vezes tarde da noite, sem medo de serem molestados. “Além disso, eles gostam demais de brasileiros”, afirmou.

Alexandre Rocha/ANBA

Pátio interno do Museu Copta: atração do Cairo

Segundo Rashed, a estratégia de atração de turistas inclui campanhas de marketing digital, modernização de serviços e da infraestrutura do setor, apoio à abertura de mais voos ao país, busca por novos mercados, entre outras ações.

Na seara dos voos, Amaral informou que um acordo entre o Brasil e o Egito para evitar a bitributação de companhias aéreas está pronto para ser assinado, abrindo definitivamente caminho para a inauguração e uma rota direta. “Nós tentamos pressionar a Egyptair [para criar o voo], mas eles não têm aviões suficientes no momento”, observou Samy Mahmoud, da Egyptian Tourism Authority.

Mesmo sem o voo, a agência pretende promover o destino no Brasil. Em março, por exemplo, o órgão trouxe empresas egípcias de turismo para participar da feira World Travel Market Latin America, feira do ramo em São Paulo. “Começamos a trabalhar a América Latina, especialmente Brasil, Argentina e México”, disse Mahmoud. No ano passado, segundo ele, o Egito recebeu 33 mil turistas brasileiros, 21 mil argentinos e 16 mil mexicanos. De janeiro a julho de 2016, porém, o número de visitantes destes países caiu em comparação com o mesmo período de 2015, acompanhando a tendência geral.

A reportagem esteve em pontos turísticos tradicionais do Cairo e arredores na segunda semana de setembro, como a necrópole faraônica de Saqqara, o Cairo Antigo (bairro cristão copta) e o Cairo Islâmico (parte medieval da cidade), e constatou presença de estrangeiros muito menor do que no passado, embora ainda seja baixa temporada. Esta situação faz com que os preços na capital estejam baixos. Há muitas ofertas.

Capacidade para receber muito mais o país tem. “Se fizermos mais atividades de promoção, relações públicas e propaganda, vamos ter sucesso”, declarou Samy Mahmoud.

Atrações

Fayed El-Geziry/Nur Photo/AFP

Ministro das Antiguidades (C) está otimista com o futuro

Os egípcios apostam também no aumento da oferta de atrações, como é o caso da Pirâmide de Unas, em Saqqara, um importante marco do Egito Antigo (leia mais na seção de Turismo) que foi reaberto à visitação após 20 anos. Outras medidas anunciadas são as reaberturas das tumbas da rainha Nefertari, no Vale das Rainhas, uma obra prima do período faraônico, e de Seti I, no Vale dos Reis, ambas em Luxor.

O ministro das Antiguidades, Khaled El Enany, destacou à ANBA as reaberturas do Museu de Arte Islâmica do Cairo, após dois anos fechado, e do Museu Malawi, na cidade de Minya, no Alto Egito, que foi saqueado em 2013; a abertura à noite do famoso Museu Egípcio do Cairo, a inauguração do Museu Nacional da Civilização Egípcia, e do Grande Museu Egípcio, em Gizé.

O pacote inclui também a criação de passes que dão direito a visitar várias atrações, ao invés do turista ter que comprar ingressos para cada uma delas, como ocorre em cidades europeias. A manutenção e restauração dos monumentos depende do turismo, pois a venda de entradas é uma importante fonte de recursos. “Temos um problema de orçamento, mas o governo está complementando o déficit para viabilizar a manutenção [dos museus e monumentos] e a realização de grandes projetos”, afirmou Enany. “Estamos otimistas em relação ao futuro próximo”, garantiu.

O país tem uma meta ambiciosa de chegar a 2020 recebendo 20 milhões de turistas, com receitas de US$ 25 bilhões. “Espero que consigamos, pois trabalhamos em tempos difíceis”, completou Samy Mahmoud.

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