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12/07/2010 - 09:00

Macro

Construção puxa exportação à África

No rastro das construtoras brasileiras que atuam no continente, produtos nacionais de todos os tipos são comercializados. O principal entrave é a obtenção de financiamentos para os negócios.

Alexandre Rocha alexandre.rocha@anba.com.br
São Paulo – As exportações do Brasil para a África são fortemente influenciadas pelas obras tocadas por construtoras brasileiras no continente. No rastro das empreiteiras vão máquinas, equipamentos, veículos, material de construção e outros produtos que não são diretamente ligados ao setor, mas acabam encontrando as portas abertas.
Marcello Casal Jr./ABr. Marcello Casal Jr./ABr.

Exposição do Brasil na África do Sul durante a Copa do Mundo



De acordo com o secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Welber Barral, as obras são as principais motivadoras dos embarques de produtos industriais ao continente. “A exportação de serviços alavanca a venda de produtos como máquinas e material de construção”, disse ele à ANBA.

E os itens industrializados são maioria na pauta de exportações. No primeiro semestre deste ano, segundo informações do MDIC, as exportações do Brasil para a África renderam US$ 3,8 bilhões, uma redução de 8,7% em comparação com o mesmo período do ano passado.

Segundo Barral, esse impacto ocorreu justamente pela queda das vendas de mercadorias ligadas ao setor, como veículos pesados e peças, e também de aviões. Por outro lado, houve forte crescimento nos embarques de produtos agropecuários, como açúcar, frangos e carne bovina.

De 2003 a 2008, as exportações para África cresceram de forma constante, saindo de US$ 2,9 bilhões para US$ 10,2 bilhões, com redução para US$ 8,7 bilhões no ano passado, em função da crise financeira internacional.
Divulgação Divulgação

Obra da Andrade Gutierrez na Argélia



"A África cresceu muito na exportação de commodities e, naturalmente, isso fez aumentar o poder de compra, então [o continente] passou a comprar mais”, afirmou o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro. Alguns dos países africanos, como Argélia e Nigéria, são grandes fornecedores de petróleo ao Brasil.

Ele acrescentou que o continente tem um nível de industrialização menor, em comparação com outras regiões, o que explica a diversificação das vendas brasileiras para lá. Como Barral, Castro destacou que o trabalho das construtoras abriu caminho para a comercialização de diferentes produtos.

O executivo citou o exemplo da Guiné Equatorial, país visitado na semana passada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lá, a construtora ARG, de Minas Gerais, é responsável pela construção de rodovias, o que acabou abrindo um mercado até recentemente desconhecido para os empresários brasileiros.
Divulgação Divulgação

Estrada construída pela ARG na Guiné Equatorial



Só para dar uma ideia, as vendas para a Guiné saíram de US$ 3,6 milhões em 2004 para US$ 45,4 milhões no ano passado. Entre os itens embarcados estão carne de frango, lácteos, fumo e açúcar, além de máquinas, veículos, equipamentos e material de construção. “Mudou tudo só com a ida de uma empresa”, destacou Castro.

E este não é o único caso. Várias construtoras brasileiras estão presentes em território africano, como Andrade Gutierrez, Odebrecht, Queiroz Galvão e Camargo Corrêa. Esta última, por exemplo, tem, além de obras, investimentos na indústria de cimento do continente, e pretende ampliá-los, segundo reportagem publicada na quinta-feira (08) pelo jornal Folha e S. Paulo.

Política

Nos últimos anos, o governo tem se empenhado em ampliar a presença brasileira na África, sendo que o principal incentivador dessa política é o próprio Lula. Apesar do crescimento do comércio, a investida brasileira em direção às nações africanas e outros países em desenvolvimento geram críticas de alguns setores.
Ricardo Stuckert/PR Ricardo Stuckert/PR

Lula e o presidente de Zâmbia, Rupiah Banda, na última viagem à África



Castro, por exemplo, diz que o país abandonou as ações de promoção com seu principal parceiro comercial, os Estados Unidos. Para ele, a busca pela chamada “cooperação Sul-Sul” fez com que o governo colocasse os interesses políticos acima dos comerciais.

O governo nega e diz que atua em duas frentes, uma na direção das nações em desenvolvimento e outra direcionada para os países ricos, tendo como meta a diversificação dos mercados do Brasil.

Crédito

Opiniões à parte, o fato é que a ampliação dos negócios com países em desenvolvimento fez surgir novos desafios. Para quem exporta para a África, a principal dificuldade é o crédito, não pela falta de dinheiro, mas pela resistência dos bancos em aceitar garantias oferecidas pelos importadores. A exceção são as operações lastreadas em commodities.

“Em geral, o problema é o crédito. Só agora o Brasil está tendo a experiência de fazer negócios com outros países em desenvolvimento. Isso cria a necessidade de inovações, de usar a criatividade”, destacou o secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Michel Alaby, que há décadas trabalha na área.

Ele contou o caso de uma indústria brasileira que recentemente perdeu um grande contrato no Sudão por falta de financiamento. O negócio acabou ficando com uma empresa da Índia.

O problema do crédito acaba dando mais gás aos principais concorrentes do Brasil no mercado africano, especialmente a China. Ávidos pelas matérias-primas, os chineses têm, em seu país, crédito fácil para os negócios com a África. Alaby citou também forte concorrência da Índia e da Turquia.

Os profissionais do comércio exterior esperam que a criação do Exim Brasil, agência de crédito às exportações, subsidiária do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), vá diminuir a desvantagem brasileira nessa seara. O governo promete que a concessão de crédito terá um processo simplificado em comparação com outras operações do BNDES. Como ela ainda não está em operação, o setor exportador espera para ver se a promessa será cumprida. (Leia mais uma reportagem sobre negócios com a África amanhã (13) cedo na ANBA)

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