Alexandre Rocha
alexandre.rocha@anba.com.br
São Paulo – A 12ª Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad 12) começa hoje (20) em Acra, capital de Gana, na África. Lideranças dos 193 países membros da organização terão uma série de temas quentes para discutir até o dia 25. Isso porque o evento ocorre num momento em que o mundo sofre os efeitos da crise financeira dos Estados Unidos e os altos preços das commodities resultam, por um lado, em maiores receitas para nações produtoras, e, por outro, na escalada da inflação dos alimentos e outros produtos ao redor do globo, atingindo especialmente as populações mais pobres.
Estes dois assuntos vão estar no centro das discussões, que terá como tema “Encarando as oportunidades e desafios da globalização para o desenvolvimento”. Vão estar presentes no encontro chefes de estado e de governo, ministros, diplomatas, representantes do setor privado e de organizações não governamentais, especialistas e artistas.
Um dos chefes do estado que vai marcar presença é o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. O país tem papel central nos grandes temas da conferência, como o impacto da crise financeira na economia mundial, já que até agora tem conseguido se manter quase ileso frente aos distúrbios iniciados nos EUA; o preço das commodities, uma vez que é grande produtor de produtos agrícolas e minérios; e a cooperação Sul-Sul, pois o governo brasileiro tem sido grande incentivador do comércio e das parcerias entre os países em desenvolvimento.
O Brasil é também grande produtor de biocombustíveis, segmento que tem sido taxado por alguns de vilão frente ao aumento dos preços dos alimentos. O governo do país, no entanto, defende internamente e no exterior que o modelo brasileiro, baseado na cultura da cana-de-açúcar, não causa impacto na produção de comida, já que não utiliza gêneros alimentícios como matéria-prima e não ocupa terras utilizadas por outras culturas. Na avaliação do Brasil, os vilões da história são os subsídios concedidos pelos governos dos EUA e da Europa aos seus produtores agrícolas, que acabam tirando a competitividade dos produtores de países mais pobres.
De acordo com a Unctad, entre janeiro de 2002 e janeiro de 2008 os preços das commodities minerais e metais aumentaram em 285%, sendo que o petróleo bateu a marca dos US$ 110 por barril; e os das commodities agrícolas cresceram em 133%. A entidade qualifica esse fenômeno com uma faca de dois gumes, uma vez que se por um lado os países em desenvolvimento exportadores desses produtos passaram a ter altos ganhos de receitas, por outro a inflação dos preços dos alimentos tem levado à insegurança alimentar, especialmente nas nações mais pobres. Esse problema ficou claro com a explosão de protestos populares contra a carestia dos alimentos em diferentes países.
Além disso, diz a Unctad, muitas vezes os lucros com as exportações de commodities não chegam às populações mais pobres dos países produtores, pois acabam ficando em boa parte nas mãos de empresas multinacionais ou em outros elos da cadeia produtiva, como a indústria de transformação. Segundo a entidade, no caso de algumas lavouras, a fatia dos lucros retida por pequenos agricultores diminuiu, mesmo com o aumento dos preços das mercadorias que produzem.
“Se o aumento da renda mundial na situação atual, que é muito positiva, não está chegando a muitos dos pobres do mundo, o que pode ser feito?”, questiona a entidade. Uma mesa redonda de ministros vai tentar responder essa pergunta no dia 23, sob o tema “A face em mutação das commodities no século 21”.
Mercado financeiro
Na seara do mercado financeiro, a Unctad diz que a ameaça de recessão nos EUA e de desempenho econômico mais fraco na Europa faz com que as perspectivas de avanço da economia mundial dependam da habilidade de países em desenvolvimento em continuar a ter altas taxas de crescimento. Nesse sentido, o foco das atenções deverá ser o dinamismo das economias de nações como a China, Brasil, Índia e África do Sul.
Além disso, a entidade alerta que as dificuldades criadas a partir da crise das hipotecas nos EUA deixam clara a necessidade urgente de uma maior coordenação de políticas macroeconômicas entre os principais países e de melhores regras a serem aplicadas ao mercado financeiro internacional. “Há uma clara incoerência entre o sistema de comércio internacional, que é regulado por uma série de regras, e o sistema monetário e financeiro internacional, que não é (regulado)”, diz nota da Unctad.
Embora o impacto da crise no setor financeiro de países em desenvolvimento tenha sido limitado até agora, o que demonstra que as instituições dessas nações estavam menos expostas a transações arriscadas, o aprofundamento da turbulência internacional pode resultar na queda da demanda pelas exportações desses países, aumento da aversão ao risco e, conseqüentemente, ampliação dos custos do capital externo, assim como levar maior volatilidade ao mercado de commodities.
A Unctad lembra que os Estados Unidos respondem sozinhos por 15% do comércio mundial, sendo que 50% de tudo o que o país importa vem de nações em desenvolvimento. A entidade alerta que a estagnação da economia norte-americana, sem ser compensada pelo menos em parte com o estímulo ao consumo na Europa Ocidental e no Japão, pode resultar em uma queda de 2 a 2,5 pontos percentuais no crescimento das economias em desenvolvimento.
Sul-Sul
Na questão do comércio Sul-Sul, a organização destaca que o fluxo triplicou entre 1996 e 2006, chegando a US$ 2 trilhões, mas responde somente por 17% do comércio mundial. Para a Unctad, o fomento à integração regional e internacional, que também será tema da conferência, diminui a dependência das nações em desenvolvimento em alguns poucos mercados, amplia o grau de industrialização, que resulta em lucros mais altos e mais empregos, e encoraja a criação e o crescimento de pequenas e médias empresas.
A África terá destaque especial nessa edição. Serão debatidas as medidas necessárias para fazer com que as nações do continente sejam mais beneficiadas pela globalização e o que a comunidade internacional pode fazer nesse sentido. O painel “Comércio e desenvolvimento para a prosperidade da África: ação e rumo” vai ser presidido pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e mediado pelo secretário-geral da Unctad, Supachai Panitchpakdi.
A Unctad é essencialmente uma reunião de ministros, diplomatas e técnicos, mas além de Lula vão estar presentes outros chefes de estado, como o anfitrião, o presidente de Gana, John Kofi Agyekum Kufuor, a presidente da Finlândia, Tarja Halonen, e o presidente da Turquia, Abdullah Gül. A última edição da Unctad ocorreu em 2004 em São Paulo.

