Isaura Daniel
São Paulo – Ele come pouco e ganha peso rápido, tem peito, coxa e sobrecoxa grandes, é resistente a doenças, possui um coração, pulmão e esqueleto fortes, se desenvolve bem em ambiente rústico e morre só na hora do abate. Para completar, quando vai para a panela, é saboroso. Esse é o modelo de frango que a avicultura brasileira trabalha para ter dentro dos seus aviários e colocar na mesa dos consumidores.
O Brasil é hoje o segundo maior produtor de carne de frango, o maior exportador e encosta na Europa e nos Estados Unidos quando o assunto é tecnologia de produção, área na qual os dois concorrentes são mestres. A corrida pelo frango perfeito se acentuou no país com a abertura de mercados internacionais e hoje envolve desde programas de melhoria genética até a construção de aviários de alta tecnologia e a aplicação de vacinas mais eficientes.
"A nossa tecnologia em frango é semelhante às melhores do mundo", diz o pesquisador da área de economia rural da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Suínos e Aves, Dirceu Talamini. O fato pode ser comprovado em uma rápida visita pelos aviários nacionais. Pintinhos correndo soltos entre sujeira, comida e umidade, em galpões de madeira improvisados, são coisas de um passado bem remoto para a avicultura nacional.
Hoje ser frango no Brasil significa ter direito a ambiente climatizado. A maioria das granjas nacionais tem sistemas de climatização, que mantêm a temperatura ideal dentro do aviário de acordo com a idade dos animais. O controle é feito automaticamente pelo sistema informatizado. Na C. Vale, cooperativa agropecuária do Paraná que abateu 42 milhões de aves em 2005, de acordo com dados da União Brasileira de Avicultura (UBA), a climatização começou a ser implantada em 1997.
"O objetivo é manter o conforto da ave para que ela não tenha stress, coma e beba melhor. Se a ave está confortável, processa melhor a alimentação e cresce mais rápido", afirma o médico veterinário da C.Vale, Jânio Luiz Cassol Argenta. O sistema implantado na cooperativa também colabora para criar um ambiente mais puro no aviário. O ar entra por painéis de celulose umedecidos e sai por um exaustor, levando gases e impurezas para fora.
Também é automatizado, dentro de grande parte dos aviários do Brasil, o fornecimento de ração e de água. A C.Vale, por exemplo, usa um sistema pelo qual o próprio pintinho – quem diria – controla o bebedouro. O frango "high tech" pressiona, com o bico, um botão, que faz escorrer a quantidade de água necessária. Além de economia, o sistema gera mais segurança alimentar para a ave, já que a água não fica exposta ou parada no aviário.
O Brasil também usa desde a última década aviários escuros para criação das matrizes, galinhas reprodutoras que geram os frangos de corte. Na Aurora, cooperativa que abateu 91,6 milhões de frangos no ano passado, elas são mantidas em granjas escuras desde os seus primeiros dias de vida até a 22ª semana. A iluminação, artificial, é controlada para que a ave não tenha sua maturidade sexual estimulada, o que é feito pela luz. Se chegar à maturidade sexual mais tarde, quando for transferida para unidade de produção, onde vai cruzar e colocar ovos, ela já estará mais forte e vai ser reproduzir melhor.
Nascimento imunizado
Atualmente 90% das matrizes do Brasil nascem com o sistema imunológico reforçado. Elas são vacinadas ainda quando embriões, dentro do próprio ovo. Entre 30% e 35% dos frangos de corte também são vacinados em ovo, segundo dados da Embrex, principal fornecedora da tecnologia de vacinação em ovos no país.
Além do sistema de vacinação, o mercado nacional também está usando vacinas mais evoluídas. Neste ano a Merial Saúde Animal, empresa que desenvolve produtos veterinários, lançou uma vacina que elimina a necessidade de dar aos frangos duas doses para combater o Gumboro, doença que ataca o sistema imunológico das aves (leia mais sobre o assunto abaixo).
A proteção dos frangos contra doenças é quase uma obsessão dentro dos aviários brasileiros, que querem manter bem longe a gripe aviária, doença que começou a se espalhar no mundo a partir da Ásia, mas que não chegou no Brasil. Não há hoje empresa do setor aviário brasileiro que não tenha na ponta da língua a palavra "biossegurança". A preocupação em manter o frango longe de enfermidades é grande dentro das granjas de frango de corte e maior ainda entre as que trabalham com animais reprodutores.
A Aurora implantou um programa de integração ou terceirização na produção de matrizes. Um dos motivos: biossegurança, diz o gerente de produção de aves na área de matrizes e incubatório da empresa, Leocádio Ulir Júnior. A empresa compra as matrizes com um dia e as transfere para que sejam criadas e se reproduzam em aviários de produtores rurais. Ou seja, em vez de tê-las todas concentradas em um mesmo local, elas estão espalhadas em várias pequenas unidades. Se houver algum problema sanitário, as perdas serão menores.
Agroceres Ross
A Agroceres Ross, que trabalha com melhoramento genético de frangos, tem um sistema reforçado de biossegurança em suas granjas de pedigrees. A empresa faz a melhoria genética em linhagens puras e vende para o mercado as matrizes, que geram os pintos de corte, ou as avós, das quais nascem as matrizes. As duas granjas da Agroceres Ross são mantidas no Vale do Paraíba, onde não há produção comercial de frangos. Além da tecnologia normalmente usada em granjas de aves, como a climatização e a distribuição automática de ração, há outros cuidados especiais.
Os funcionários precisam tomar banho e trocar de roupa antes de entrar nas granjas. Cada empregado cuida apenas de uma unidade, para não haver risco de transmissão de um local para outro em caso de problema sanitário. A maravalha, conhecida como cama de frango, que é usada para cobrir o chão das granjas e absorver umidade, passa por um processo de desinfecção antes de ser usada. A ração é tratada termicamente e quimicamente com ácido orgânico antes de chegar aos animais.
"A ração é aquecida a temperaturas que patógenos possam ser destruídos", explica gerente de pesquisa da Agroceres Ross, Tércio Michelan Filho. Os caminhões que transportam a ração não entram na granja, deixam o produto na entrada da propriedade. Antes de chegar no prato dos frangos, a ração é testada em laboratório. O mesmo ocorre com a água. "Trabalhamos para que as aves não se contaminem com bactérias ou vírus que possam ser transmitidos para os seus filhos, para que eles não tenham que ser tratados no futuro, o que geraria custos para as empresas produtoras", explica Michelan.
Frango bom
A Agroceres Ross é uma joint-venture entre a Agroceres, empresa brasileira que detém 51% do seu capital, e a escocesa Aviagen, que tem 49% do capital e é líder mundial em melhoramento genético de aves. A Agroceres Ross é parceira dos aviários brasileiros na busca por frangos melhores. Até o ano passado, ela oferecia ao mercado dois tipos de aves: uma com peitos reforçados e outra multiuso, para aproveitamento da carcaça até a sobrecoxa. No ano passado, a Agroceres Ross passou a comercializar também uma ave com outras características, que cresce rápido, tem boa conversão alimentar e morre menos.
Morrer menos é hoje essencial para os frangos. As pesquisas genéticas para chegar ao frango ideal estão apontadas para as partes de metabolismo e fisiológica das aves. As granjas já chegaram a um frango que cresce rápido e agora a grande pergunta é como chegar a um frango cujo coração, esqueleto e pulmão acompanhem o corpo super desenvolvido. "As pesquisas estão voltadas para essa parte de sustentação do frango", explica Michelan. A Embrapa trabalha com pesquisas nesta área (leia mais sobre o tema abaixo).

