São Paulo – No Brasil, quase 70% da energia gerada provém de grandes usinas hidrelétricas. Outras fontes de energia, como a eólica, por exemplo, ainda representam uma contribuição pequena ao Sistema Interligado Nacional (SIN), o sistema de produção e transmissão de energia elétrica do país. Mas esse cenário vem mudando, e vai mudar ainda mais com os investimentos atuais e futuros no setor.
Atualmente, o Brasil tem uma capacidade instalada de energia eólica de 927 megawatts (MW), ou cerca de 0,6% de tudo o que o país produz de eletricidade. Em 2013, este número deve ser mais de cinco vezes maior, chegando a 3,5% e, em uma década, o salto será muito maior. “Até 2022, deve alcançar 20% da energia brasileira”, prevê Ricardo Simões, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica).
O avanço da geração eólica começou com a criação do Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), em 2004, pelo governo federal. O programa é reconhecido pelos principais empresários do setor como o primeiro passo para o aumento da participação da energia eólica no Brasil.
“O Proinfa foi muito importante, porque foi o primeiro esforço para introduzir a energia eólica no Brasil. Por outro lado, era uma programa subsidiado. A Eletrobras comprava a energia com uma preço muito acima do mercado”, conta Roberto Honczar, diretor Administrativo-Financeiro e de Relações com Investidores da Renova Energia.
“Quando começamos no Brasil, não havia contratos específicos para a venda de energia. Não havia definição de tarifa, de quanto se pagava pela energia eólica”, relata Eduardo Lopes, diretor comercial da Wobben Windpower, uma das grandes fabricantes de aerogeradores (turbinas eólicas) do país.
Somente em 2009, o país teve o primeiro leilão para a oferta de energia eólica pelas geradoras e que regulou o preço do megawatt vendido. No total, foram três grandes leilões até agora, dois para a contratação de energia de reserva, em 2009 e 2010, e um para a oferta de energia de fontes alternativas, em 2010. Juntos, os três leilões contrataram quase 5.250 MW de energia eólica para serem implantados até 2013. O preço médio pago pelo governo às geradoras de energia eólica nos leilões foi de R$ 141 por MW/hora.
“O Proinfa deu uma tarifa para a eólica e um contrato de compra de energia de 20 anos”, explica Lopes. Nos leilões, foi contratada ainda energia proveniente de biomassa e de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs).
Os investimentos
Hoje, o Brasil conta com 50 parques eólicos instalados, e tem mais 19 a serem construídos. A maior parte do financiamento vem do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Entre 2003 e 2010, dos R$ 4,3 bilhões de investimentos feitos pelo setor, R$ 2,7 bilhões foram financiados pelo banco. “O investimento do Banco tem sido em torno de 70% do que é investido pelos empresários”, diz Antônio Tovar, chefe do Departamento de Fontes Alternativas de Energia do BNDES. Os financiamentos do setor chegam a durar 18 anos, mas as empresas não pagam nada até que as usinas entrem em funcionamento. O pagamento começa, em média, seis meses após o início da operação do parque.
Segundo Tovar, o BNDES tem outros 35 projetos já enquadrados (que atendem as condições de financiamento do banco, mas que ainda serão analisados para aprovação efetiva). “Existem boas perspectivas de que sejam financiados”, adianta o executivo, explicando as expectativas da instituição quanto aos novos parques. “Esperamos aprovar todos os projetos ainda este ano. [Se todos forem financiados] este será o ano em que o Banco aprovará o maior número de projetos e também o maior valor financiado. Se compararmos com 2009 e 2010, triplicaria o que já foi financiado.”
O último grande financiamento do Banco foi aprovado no início desde ano, para a Renova Energia. A empresa construirá 14 parques eólicos, com capacidade para produzir 294 MW, o suficiente para abastecer cerca de 100 mil famílias.
Os parques, que devem entrar em operação em julho de 2012, representam um investimento de R$ 1,17 bilhão, dos quais R$ 588 milhões vêm do BNDES, R$ 315 milhões do Banco do Nordeste e o restante de recursos da própria empresa. A Renova tem autorização para a construção de outros seis parques eólicos, que irão fornecer 163 MW de energia e começarão a operar em 2013. Hoje, a receita da companhia provém de três PCHs instaladas no sul da Bahia.
“Nosso faturamento de 2010 fechou em R$ 37 milhões. Se os 14 parques tivessem operando hoje, daria uma receita de quase R$ 170 milhões. Já os outros seis parques dariam uma receita contratada de quase R$ 70 milhões”, revela Honczar.
Os caminhos
Com um potencial para a instalação de até 300 mil MW, o Brasil ainda tem um longo caminho para utilizar toda a força que seus ventos podem fornecer. A maior parte dos parques do país está instalada nas regiões Nordeste e Sul. A Renova, por exemplo, fará a construção de todos os seus parques no estado da Bahia. “Quando se tem muitos projetos na mesma região, você pode compartilhar os investimentos, como os estudos de acesso, que trazem ganhos de eficiência, o custo de mobilização de guindaste para a montagem de turbinas, além de poder usar a mesma linha de transmissão para diferentes projetos”, detalha o diretor da companhia.
É possível, porém, que novas áreas comecem a ser utilizadas para a geração de energia eólica. “O atlas eólico do Brasil foi feito há quase uma década. Agora, ele está sendo revisado e novas regiões devem surgir”, destaca Simões, da ABEEólica. Lopes, da Wobben, completa: “Com a nova medição com torres acima de 100 metros (antes, usava-se torres de 50 metros), estima-se que se chegue até três a quatro vezes a capacidade de geração de energia elétrica no país.”
Os benefícios
Além de tratar-se de uma fonte limpa e renovável, no Brasil, o fornecimento de energia eólica funciona de modo complementar à geração de eletricidade das usinas hidrelétricas. “No Brasil, há ventos muito fortes justamente nos períodos mais secos, o que faz com que a energia eólica seja irmã siamesa do sistema hidrelétrico, porque quando falta água, a energia eólica complementa. Com a instalação de usinas eólicas, você constrói reservatórios virtuais de água”, aponta o presidente da ABEEólica.
Simões destaca ainda outros fatores que impulsionam o desenvolvimento da energia eólica no país. “A gente entende que existe uma preocupação mundial com a geração de energia elétrica. Isto inclui segurança no suprimento, independência dos preços externos de petróleo e gás natural e a emissão reduzida de CO2 por conta das mudanças climáticas.”
O crescimento do setor tem também gerado empregos, além de impulsionar o desenvolvimento de todas as empresas envolvidas na cadeia produtiva.
A Renova Energia tem apenas 70 funcionários diretos, mas os novos projetos devem gerar um bom número de empregos indiretos. Para a implantação de seus 14 parques, a companhia contratou cinco empresas para o fornecimento de turbinas, da construção civil e dos equipamentos eletromecânicos. “Estas empresas devem empregar cerca de 700 pessoas. Nossos projetos geram um volume de empregos bastante expressivo”, afirma Honczar.
Entre as empresas que fornecem os equipamentos para os parques eólicos, os benefícios do avanço do setor também são bastante significativos. “Considerando só as usinas que temos para instalar agora, somente a Wobben vai instalar mais de um gigawatt até 2013, só com o que a gente já tem contratado”, ressalta Lopes. “Vamos chegar, em 2013, a 45 usinas, isso se não acontecer mais nada.”
Para fomentar esse crescimento, as linhas de financiamento do BNDES também estão disponíveis para as companhias que produzem os equipamentos para os parques. “Temos mais de sete fabricantes de aerogeradores no Brasil, todos cadastrados no BNDES com conteúdo nacional [suficiente] que permite ao banco financiar a produção destes equipamentos”, conta Tovar.
Entre todos os benefícios possíveis, a geração de energia eólica ajuda ainda a fomentar a economia das regiões onde os parques são instalados, já que os donos das propriedades nos quais os parques são construídos recebem uma parte do faturamento da usina. “É uma energia socialmente justa, pois gera renda em comunidades carentes”, destaca Simões. Cada usina eólica rende ao produtor de 20 a 30 anos de recebimento de royalties, que variam entre 0,5% e 1% da receita líquida gerada.
O futuro
Com todo o potencial de desenvolvimento e de geração de lucro que o setor oferece, os especialistas olham para um crescimento exponencial da energia eólica no país. Tovar conta, por exemplo, que a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), já autorizou a implementação de mais 2,7 mil MW, que agora só dependem da obtenção de licenciamento ambiental.
“Nos próximos anos, o Brasil deve crescer acima da média mundial. Isso significa dobrar a capacidade instalada a cada três anos”, diz o representante do BNDES.

