São Paulo – Maria Carolina Freire fez de um grão de café uma empreitada. Natural de Jacutinga, sul de Minas Gerais, ela já tinha sido produtora de moda em sua cidade, um conhecido polo de confecções de malhas e tricôs, trabalhado como arquiteta em São Paulo, profissão na qual se formou, quando, aos quase 40 anos, entendeu que precisava dar um outro rumo profissional em sua vida.
Filha de um grande cafeicultor jacuntiguense, Maria Carolina, que até então mal sabia como lidar com o grão, foi conversar com o pai, de quem ouviu: a única coisa que posso fazer por você é te dar café. Você quer café? “Quero!”, disse a filha. “Vou fazer disso um negócio!” Profecia feita, negócio realizado. Ela pegou os grãos, torrou, criou uma embalagem moderna (ter trabalhado com moda e arquitetura ajudou) deu um nome quatrocentão para o seu produto e foi bater em muitas portas para oferecer o que tinha em mãos. O Café da Condessa nasceu no dia 12 de fevereiro de 2012 – “minha empresa é aquariana”, brinca a empreendedora.

Como todo começo de negócio, o dela tampouco foi fácil. “Primeiro o pessoal na fazenda riu da minha cara porque eu não sabia nada de café. Daí eu fechei um grande contrato com o Carrefour e eles continuaram rindo: mas de nervoso”, conta Maria Carolina, entre gargalhadas. Se no início a produção era feita com apenas uma saca de café, com o primeiro grande contrato ela saltou para uma tonelada. Daí em diante, ganhou o país e o mundo: exportou para diversos países como Canadá e Chile, e até para a Arábia Saudita.
“Cheguei a dar uma entrevista para rádio na época, e me perguntaram: como você conseguiu fechar negócio com um saudita sendo mulher? E eu respondi: eles são ótimos de negociação. Ruins são os brasileiros!”, conta, sempre rindo, mas sem perder a chance de criticar o ambiente de negócios no Brasil, em especial em relação aos impostos e às dificuldades para exportar.
A verdade é que ela já começou o negócio pensando em vender fora do país. Não se conformava quando viajava e via os cafés colombianos e todo o seu marketing ganhar mais território enquanto o Brasil seguia – e segue – exportando apenas o grão cru, como o pai dela ainda faz. Ele, aliás, é a oitava geração da família naquelas terras de Jacutinga. O bisavô de Maria Carolina, Eduardo Roberto de Lima, foi um conhecido cafeicultor do começo do século 20. “Quando houve o crash da bolsa de NY, em 1929, ele saiu país afora comprando fazendas de café que estavam quebradas. Chegou a produzir em três estados”, conta.
Café especial todo mundo tem, mas eu tenho a história
Maria Carolina Freire
O que ela fez de diferente de toda a família foi se concentrar no produto para o consumidor final. “Café especial todo mundo tem, mas eu tenho a história. Entendi que sou boa nisso, em agregar valor. Minha família está nesse negócio desde que a fazenda foi comprada, em 1832, mas ninguém tinha feito isso até então”, diz Maria Carolina, contando que enfrentou resistência de parentes, incluindo do próprio pai. “Como diz o ditado: coisas não fazem a gente, é a gente que faz as coisas.” E, falando em história, a condessa do nome era a sua tataravó Genoveva, esposa do Conde do Vale do Sapucaí.
Durante a década de 2010, o Café da Condessa cresceu e Maria Carolina apareceu como um exemplo de empreendedorismo feminino, chegou até a ter uma coluna sobre o tema em uma revista focada em mulheres. “Era o momento certo para uma mulher montar um negócio, se falava muito em empreendedoras, eu peguei essa onda e surfei.” Tudo ia bem até chegar a pandemia.
Condessa no mundo pós-pandêmico
A pandemia do coronavírus quase quebrou o negócio erguido com tanta paixão e entusiasmo. Contratos foram encerrados, as exportações caíram e ela viu alguns de seus bons concorrentes fecharem as portas. Maria Carolina pensou em encerrar as operações em muitos momentos – afinal, para quem produzia duas toneladas mês, ver a operação se reduzir a 300kg foi duro. “Hoje eu vendo 20% do que já vendi”, lamenta.
Ainda assim, suas embalagens coloridas e “ousadas” – como ouviu lá no começo de um torrefador – seguem presentes em prateleiras de pontos valorizados de São Paulo, Minas Gerais e em alguns outros estados. Exportações se tornaram pontuais. “Além de ainda ter clientes fiéis, o Café da Condessa me transformou, me mostrou do que eu sou capaz e gosto muito de poder compartilhar isso com outras mulheres”, diz, sabendo-se inspiração para quem quer empreender ou seguir seu sonho.
E nem tudo foi ruim na pandemia. Ao final daquele longo período, Maria Carolina estava promovendo seu café na Casa Santa Luzia, em São Paulo, quando conheceu seu futuro marido. Logo começaram a namorar e pouco tempo depois já estavam casados. Como ele também é empresário, hoje o casal pensa junto sobre os próximos passos da Condessa.
Saiba mais:
www.instagram.com/cafe_da_condessa
www.cafedacondessa.com.br
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*Reportagem de Débora Rubin, em colaboração com a ANBA


