Da redação
São Paulo – Depois que a Líbia conseguiu levantar a maioria das sanções internacionais, impostas nas duas últimas décadas, o país nunca pareceu tão atraente para as empresas estrangeiras. A afirmação foi feita pela edição on-line da revista inglesa Economist, em uma reportagem publicada na semana passada, quando o chefe de estado líbio, Muammar Kadafi, foi recebido em Bruxelas, na Bélgica, pelo presidente da Comissão Européia, Romano Prodi. Foi a primeira viagem de Kadafi fora da África e do Oriente Médio em 15 anos.
"Empresas estrangeiras querem lucrar com o coronel Kadafi", diz a matéria, acrescentando que o líder quer que tais companhias ajudem a tornar a economia de seu país mais liberal.
De acordo com a publicação, a produção de petróleo na Líbia não chega hoje nem à metade do que foi na década de 1970 e, segundo o ministro da Energia líbio, Fathi ben Shatwan, seu país precisa de cerca de US$ 30 bilhões em investimentos no setor na próxima década.
A Economist diz que a Líbia tem reservas constatadas de 36 bilhões de barris da commodity, mas alega que o número pode chegar a 100 bilhões, e cerca de 40 trilhões de pés cúbicos de gás (1,132 trilhão de metros cúbicos).
"O custo de exploração do óleo é baixo e o país está bem localizado para exportar para a Europa", afirma a matéria.
Sanções
No final do ano passado, Kadafi anunciou o início de um programa de desarmamento em seu país e o fim da produção de armas de destruição em massa. O anúncio foi feito na mesma época em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou a Líbia e outros quatro países árabes.
Antes, Kadafi já havia anunciado que a Líbia iria indenizar os familiares das vítimas do atentado que derrubou um Boeing 747 da extinta PanAm sobre a cidade de Lockerbie, na Escócia, em 1988. O governo Líbio foi acusado de estar por trás do ato terrorista
Com estas e outras decisões, a Líbia voltou a ser vista com bons olhos pela comunidade internacional, tanto que a Organização das Nações Unidas (ONU) levantou as sanções econômicas que haviam sido impostas ao país por causa do ocorrido na Escócia.
Prova disso é que o próprio primeiro-ministro britânico, Tony Blair, visitou o país em março e disse que "está na hora de construir um novo relacionamento com a Líbia".
Turismo
Além do setor petrolífero, a Economist diz que o país africano precisa de muitos investimentos nas áreas de saúde, educação, transporte, aviação e turismo.
E os contratos de investimentos já começaram a surgir. No mês passado o governo líbio assinou um contrato de US$ 1,2 bilhão com uma empresa holandesa, a Ladorado, para construir resorts, como parte de um plano de 15 anos para desenvolver o setor de turismo.
Segundo reportagem publicada na versão on-line da revista inglesa Hotels, a companhia holandesa vai construir, no período de 7 anos, 10 complexos turísticos na cidade de Tobruk, perto da fronteira com o Egito.
O projeto prevê a construção de hotéis cinco estrelas, vilas turísticas, shopping centers e restaurantes na região que, de acordo com a reportagem da Hotels, é montanhosa, bastante verde e foi palco de uma grande batalha durante a 2ª Guerra Mundial.
A Hotels informou ainda que em outubro passado o governo líbio fechou contratos com empresas italianas para a construção de hotéis, um porto de passageiros e um balneário na região de Al-Khums, a leste da capital Trípoli, como parte do programa de desenvolvimento do turismo. De acordo com a publicação, a Líbia recebeu em 2003 cerca de 570 mil visitantes estrangeiros, entre japoneses, chineses, europeus, norte-americanos e sul-americanos.
Outros investimentos
Na avaliação de Marcus Courage, da consultoria Africa Pratice, citado pela Economist, "os antigos e fortes laços" que a Líbia tem com a Grã Bretanha – o país foi um protetorado inglês desde meados da década de 1940 até 1951 – pode ajudar as companhias britânicas.
Segundo a revista, a BAE Systems negocia a possibilidade de atuar na reconstrução do aeroporto de Trípoli e gerenciar o tráfego aéreo. Já a construtora Balfour Beatty está interessada nas obras de duas ferrovias.
Além disso, a Economist citou empresas como o grupo Oasis, Occidental e Royal Dutch/Shell, que estão interessadas no setor do petróleo e gás.
Brasil
Mas não são só os europeus que podem se beneficiar da abertura econômica da Líbia, tanto que em março uma missão de autoridades e empresários do país árabe esteve no Brasil. Durante a visita, representantes da Companhia Árabe-Líbia de Investimentos Estrangeiros (Lafico, da sigla em inglês) anunciaram a intenção de formar uma joint-venture com empreiteiras brasileiras.
Uma das idéias é investir US$ 450 milhões em projetos de irrigação na Bahia. Os líbios se interessaram também em fazer negócios nos setores agropecuários e de turismo brasileiros.
Além disso, o governo do país africano patrocinou no mês passado um fórum internacional para discutir as possibilidades de negócios e investimentos em vários setores da economia.

