Isaura Daniel
São Paulo – No final do século 19 chegou no Brasil uma leva de imigrantes árabes que tinha como meta buscar melhores condições de vida e fugir da dominação do Império Turco Otomano. A informação está na maioria das publicações que tratam da imigração árabe no Brasil. O que nem todos sabem, porém, é que uma outra onda imigratória da região ocorreu no país na segunda metade do último século.
"O fluxo de imigração árabe no Brasil nunca se interrompeu, mas houve um aumento na segunda metade do século 20 em função da guerra civil no Líbano", diz o professor de Literatura Árabe da Universidade de São Paulo (USP), Mamede Mustafa Jarouche. A guerra do Líbano eclodiu em 1975 e terminou em 1990.
Diferente dos imigrantes que vieram no século 19, porém, que chegaram no país sem dinheiro e para trabalhar como mascates, os árabes que aportaram no Brasil mais recentemente já vieram com alguma estrutura. "A maioria veio com algum amparo, chamado por parentes bem colocados", diz o historiador e jornalista José Asmar.
Jarouche afirma que isso não é regra, mas que alguns chegaram, inclusive, com dinheiro para abrir um negócio. Assim como antigamente, porém, a maioria dos árabes ainda chega no Brasil para trabalhar com comércio. De acordo com o professor da USP, os imigrantes normalmente vêm de regiões com conflitos. "O novo foco de imigração vem do Líbano, Síria, Palestina e alguns do Iraque", diz Jarouche. "Os conflitos sempre são motivos de expulsão", lembra o historiador Asmar.
Busca por oportunidades
A guerra civil do Líbano foi um dos motivos pelos quais a família do advogado Faiçal Mohamad Awada, de 37 anos, se mudou para o Brasil, na década de 70. "Em função da guerra as oportunidades de emprego no Líbano eram pequenas", conta Awada, que chegou no país em 1975, aos sete anos. O pai do advogado chegou antes, em 1970, e trouxe a família mais tarde, depois que abriu a sua loja de móveis e conseguiu visto definitivo.
No Líbano, o pai de Awada plantava para subsistência na região do Vale do Bekaa. Os parentes que já viviam no Brasil o ajudaram no começo. Awada é parte da geração de árabes que já encontrou no país uma estrutura montada. "Meus pais tinham uma casa e a loja", diz Awada. Além de ter freqüentado cursinho pré-vestibular, o advogado fez a sua graduação em uma universidade particular, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC).
Hoje, ele mantém os laços com os parentes que ficaram no Líbano por meio de fitas K-7 que a família grava em árabe e envia ao país. Awada visitou o seu país de origem uma vez, quando tinha 18 anos.

