Cláudia Abreu
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São Paulo – Sexta-feira (19), dia modorrento, sem sol, nublado. Caótico por causa do trânsito e chato para boa parte dos paulistanos. Iluminado para um grupo de 22 palestinos que desembarcou às 6h da manhã no aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, grande São Paulo. Os olhares curiosos à nova cultura disfarçam o cansaço das mais de trinta horas de viagem. Primeiro eles foram para Amã, na Jordânia, depois Paris, na França, e só então chegaram à capital paulista. De São Paulo, a maior parte ainda viajaria mais uma hora e meia para Porto Alegre. Apenas três ficaram na terra da garoa.
O Brasil receberá cerca de 100 refugiados palestinos até o final do ano. Eles estavam num campo na Jordânia. A decisão de receber o grupo foi tomada em maio deste ano pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), presidido pelo Ministério da Justiça. O Conare é formado por outros órgãos federais e entidades não governamentais, como o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), que está à frente da recepção dos palestinos.
Os refugiados estão sendo reassentados em São Paulo e no Rio Grande do Sul, onde o ACNUR trabalha em parceria com as ONGs Cáritas Brasileira e Associação Antônio Vieira (ASAV). Eles receberão auxílio para aluguel de moradia, compra de móveis e assistência material, além de aulas de português. As crianças devem começar a freqüentar as escolas em 2008.
O terceiro grupo, que chegou hoje ao Brasil, é formado por 11 solteiros, todos homens, e três núcleos familiares – cinco crianças. Enquanto esperavam o vôo para Porto Alegre, os palestinos foram para um hotel nas proximidades do aeroporto de Cumbica, entraram para os seus quartos e lá ficaram. Foram instruídos, em inglês, para descer na hora do almoço, mas batia meio dia e pouco e ninguém aparecia para almoçar. Só atenderam mesmo quando o Ahmad Ali, da Sociedade Árabe Palestina da Grande Porto Alegre, que veio da capital gaúcha para recepcioná-los, pegou o interfone, ligou para os quartos e, em árabe, convidou-os para descer ao salão de almoço. Aos poucos foram chegando, crachá da ACNUR no peito, sorriso no rosto quando ouviam alguém do Brasil falar árabe com eles. Um alento para quem chega num destino desconhecido.
Desconhecido, mas muito esperado, como conta o professor universitário Isam Hamed, que antes de viver no campo de refugiados da Jordânia, lecionava Genética na Universidade de Bagdá. Ele desembarcou no Brasil com a mulher e dois filhos cheio de esperanças. “O Brasil é um país de paz, com histórias de paz. Eu espero construir uma vida mais normal aqui”, conta ele. Um dos únicos do grupo a falar inglês, Isam acredita que não será assim tão difícil aprender a língua portuguesa, pelo menos para ele, que gosta da musicalidade das línguas latinas. Para os filhos, Isam acredita que o esporte, principalmente, o futebol poderá ajudar na integração. “Eles vêem o Brasil como um país que pratica esportes, os meninos de lá gostam de imitar os jogadores”, diz.
Talvez por isso boa parte dos solteiros trajasse roupas esportivas, camisetas, agasalhos de times. Se o esporte aproxima, a comida ainda causa estranheza. Ismail Al-Said era açougueiro no Iraque. Nasceu em Gaza, quando a situação ficou complicada para sua família, migrou para o Egito, de lá foi para o Líbano e depois para o Iraque. Em São Paulo, encheu o prato de carne, todos os tipos e cortes possíveis. Enquanto conversava, mexia e remexia na comida. Por fim, não conseguiu comer. Os sabores ainda são diferentes, o paladar ainda não está pronto para a integração.
Mas a bebida, essa é fácil. Passa o garçom e o coro se levanta: coca-cola. Entre um copo e outro da bebida globalizada, uma reclamação lá no canto da mesa: é Yasser Arafat Nefrej, de 28 anos. Sua mala ainda não chegou. Mas a reclamação não é de todo lamuriosa perante outras tantas perdas do rapaz. O pai de Arafat morreu em 2002, na batalha do campo de refugiados de Jenin, no Norte da Cisjordânia, onde os palestinos enfrentaram o exército israelense. O resto da família está na Jordânia.
Famílias separadas parecem ser uma constante na vida dos refugiados. Isam Mohamad reencontrou sua família horas antes de embarcar para o Brasil. Há cinco anos estava separado da mulher, Hannah, e de seus três filhos – Haisan, Mahrussa e Diana. “Eles viviam no Egito, e eu, no campo de refugiados”, conta. Mohamad também vivia no Egito, mas decidiu tentar a vida no Iraque, ficou apenas seis meses, veio a guerra de 2003 e ele teve de fugir por causa das perseguições. “Agora queremos uma vida nova, porque a que conhecemos é muito dura”, diz ele.
Enquanto o pai conta das tristezas, o filho Haisan chega sorridente com notas da moeda jordaniana na mão, seguido pelo gerente do hotel, Caio Figueiredo. O gerente é colecionador de moedas de vários países, nunca tinha a visto o dinheiro jordaniano e quer negociar com Haisan. Depois de algumas conversas sobre câmbio, traduzidas por Emir Mourad, da Federação das Entidades Árabes Palestinas Brasileiras (FEPAL), e de ouvir as colocações do menino de apenas 12 anos, chegou-se a um valor: Haisan dá sete notas do dinheiro árabe e, feliz, embolsa 10 reais. Sua primeira negociação no Brasil.
Na van do hotel para o aeroporto, o clima é de descoberta. Janelas abertas para o céu nublado, rostinhos vibrantes e algumas noções de português. Mourad tenta explicar que há similaridades entre as duas línguas, são distantes, mas existem. Exemplifica com palavras como arroz, batata, salada. Isam Ali Hassam, um estudante de 25 anos, tenta repetir. No Brasil, ele quer fazer uma faculdade. Em 2003, estava se preparando para cursar Computação na universidade, em Bagdá, mas teve de abandonar tudo e ir para o campo de refugiados palestinos. A família continua lá, as conversas, como aconteceram até agora, serão esporádicas, por telefone, internet. E, quando bater a saudade, Hassam espera encontrar conforto nas referências que tem do Brasil: “um povo generoso”.

