Sirte, Líbia – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta terça-feira (30) uma série de ações conjuntas entre países em desenvolvimento, especialmente entre o Brasil e a África, em diferentes temas do cenário internacional, como a retomada da Rodada Doha de liberalização do comércio mundial, reforma das instituições financeiras internacionais e mudanças climáticas.
“Devemos forjar nossa inserção soberana no mundo”, afirmou o presidente a uma platéia lotada de líderes africanos em Sirte, na Líbia. Ele ressaltou que as nações em desenvolvimento se tornaram “parte essencial” da solução para a crise financeira internacional.
Para ele, não haverá um novo ciclo de expansão econômica sem as nações em desenvolvimento. Lula voltou a defender maior participação em instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. “Contamos com a África para redefinir a governança das instituições multilaterais”, declarou.
Na mesma linha, Lula criticou novamente o protecionismo comercial e os subsídios concedidos internamente por países desenvolvidos. “O Brasil concederá, no quadro da Rodada [Doha], acesso a seu mercado, livre de tarifas e de quotas, para produtos originários dos países de menor desenvolvimento relativo”, garantiu. Ele acrescentou, no entanto, que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, já sinalizou que seu governo pretende voltar às negociações de Doha e que podem ocorrer “avanços”.
Em entrevista coletiva, o presidente disse que o G-8, grupo das sete maiores economias do mundo, mais a Rússia, “vai continuar sem sentido”, referindo-se ao que ele acredita ser falta de representatividade desses países para tomar decisões que afetam o mundo todo. Ele reforçou que o G-20, que inclui as 20 economias mais industrializadas, inclusive o Brasil, é mais representativo.
"A cooperação Sul-Sul é linha de defesa, mas ao mesmo tempo de ataque às assimetrias", declarou. Mesmo assim, Lula vai participar como convidado de uma reunião do G-8 na próxima semana, assim como o líder líbio, Muammar Kadafi, que atualmente preside a União Africana.
Lula voltou também a defender a reforma do Conselho de Segurança da ONU, com maior participação de nações emergentes, inclusive africanas. O Brasil pleiteia uma vaga de membro permanente do conselho. Na seara ambiental, Lula declarou que os países ricos devem assumir suas responsabilidades com a redução dos gases que causam o efeito estufa.
Pedidos
Ao final de seu discurso da assembléia da União Africana (UA), Lula pediu que os líderes do continente incluam na declaração final do encontro uma nota repúdio ao golpe de estado que derrubou o presidente de Honduras, Manuel Zelaya, no início da semana, e a exigência de sua recondução ao cargo.
O chanceler Celso Amorim, que também foi à Líbia, disse que a Organização dos Estados Americanos (OEA) aprovou uma resolução para que os golpistas devolvam o poder a Zelaya em 72 horas sob pena do país ser expulso da entidade.
A platéia aplaudiu a proposta de Lula, assim como quando o presidente pediu apoio para a escolha do Rio de Janeiro para sede dos Jogos Olímpicos de 2016. A África tem 16 votos no Comitê Olímpico Internacional. “Há possibilidade da grande maioria apoiar o Brasil”, disse Lula aos jornalistas, pouco antes de deixar Sirte e voltar a Brasília. “Os árabes estão propensos a votar no Brasil”, acrescentou.
Além de Kadafi e do emir do Catar, Hamad Bin Khalifa Al Tani, participaram da abertura da UA outros chefes de estado árabes, como os presidentes da Argélia, Abdelaziz Bouteflika, e do Sudão, Omar Al-Bashir. Antes da abertura, Kadafi recebeu os chefes de estado e outras lideranças, como “reis tradicionais”, ou líderes tribais africanos. Ele vestia uma túnica dourada e um chapéu da mesma cor.

