Alexandre Rocha, enviado especial
Rio de Janeiro – O acordo de livre comércio que o Mercosul negocia com o Conselho de Cooperação do Golfo (GCC), que deve ser finalizado até junho, vai ampliar os fluxos de comércio e investimentos, o que vai resultar em mais desenvolvimento para os dois blocos. Esta é a opinião do subsecretário-geral para Assuntos Econômicos do GCC, Mohamed Obaid Al-Mazrooei, que participou na semana passada da Cúpula do Mercosul.
"Quando houver mais investimentos e mais comércio haverá mais desenvolvimento, e isso será para o bem dos povos das duas regiões", disse ele em entrevista à ANBA no hotel Copacabana Palace, no Rio. Fazem parte do GCC a Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã. Já os membros do Mercosul são Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela.
Para Al-Mazrooei, o tratado, além de dar acesso livre a produtos em ambos os mercados, dará mais segurança aos investidores. "Ele vai criar um guarda-chuva sob o qual os empresários poderão trocar investimentos", declarou. Para ele, cada parte vai explorar as vantagens competitivas da outra, o que poderá tirar espaço até de fornecedores tradicionais, como a Europa, no caso do Golfo.
O tratado também vai auxiliar numa maior troca cultural e de conhecimento entre os dois povos e poderá ajudar inclusive o turismo. Al-Mazrooei, de 47 anos, nascido em Dubai, nos Emirados, é formado em Administração de Empresas, tem pós-graduação em Economia e já foi subsecretário do Ministério das Finanças de seu país natal. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
ANBA – Quais foram suas impressões sobre as negociações feitas aqui no Brasil?
Mohamed Obaid Al-Mazrooei – Em primeiro lugar, uma das estratégias do GCC é ampliar e reforçar as relações com outros grupos e países ao redor do mundo. Para o GCC, o Mercosul é um bloco muito importante que tem peso no mundo e as duas regiões têm muitas coisas em comum, interesses comuns e elas querem desenvolver estes laços. Eu penso que a melhor maneira de fazer isso é ter um acordo de livre comércio. A Organização Mundial do Comércio (OMC) está pedindo pela liberalização dos mercados, com a diminuição e a eliminação de tarifas entre países e blocos, para aumentar o comércio internacional, o que vai criar mais investimentos. Para o desenvolvimento você precisa de duas coisas: investimentos e comércio. Quando houver mais investimentos e mais comércio haverá mais desenvolvimento, e isso será para o bem dos povos das duas regiões.
Em segundo lugar, nós tivemos uma ótima negociação, foram cinco reuniões, uma aqui no Rio, e nós quase concluímos o acordo. Faltaram algumas coisas pequenas que nós temos que terminar do nosso lado e também do lado do Mercosul.
Poucas coisas?
Sim, poucas coisas. Nós esperamos assinar esse tratado em junho e, se isso ocorrer, será o primeiro.
O GGC não tem acordos similares com outros grupos?
Não, mas nós temos negociações com a União Européia que têm progredido bem, mas muito longas, já duram mais de 10 anos. Na comunidade árabe nós assinamos com o Líbano, sob o conceito da Grande Área de Livre Comércio Árabe. Estamos negociando também com a China, Paquistão, Índia, Japão, Coréia, Turquia e a Associação Européia de Livre Comércio (EFTA, constituída por Suíça, Liechtenstein, Noruega e Islândia).
E o acordo com o Mercosul vai realmente promover as relações com o GCC, vai ampliar os laços, vai criar um guarda-chuva sob o qual os empresários poderão trocar investimentos.
O senhor disse que existem pequenas coisas a serem discutidas, o que falta?
São nas três áreas: algo na parte de investimentos – algumas pequenas definições -, na parte de bens e na e serviços.
Quais os setores em que há alguma sensibilidade?
Na área de investimentos eu não acho que haverá qualquer problema. A parte de bens ficará OK. Talvez a parte de serviços tenha alguma, porque os compromissos do GCC com a OMC nesta área são bastante restritos, mas isto não quer dizer que não haja disposição em abrir este setor.
Na parte de bens, quais produtos são mais sensíveis?
Nos países do GCC temos algumas indústrias que estão surgindo e muito foi investido nelas, não tenho certeza exatamente de quantos produtos há sensibilidade, mas não são muitos, talvez dois ou três num universo de mil.
Quanto do comércio bilateral vai ser coberto pelo acordo, mais de 90%?
Sim, eu diria que mais de 90%.
É possível estimar quanto o comércio e os investimentos entre as duas regiões podem crescer?
Eu acho que o acordo vai ajudar muito, vai aumentar a troca de investimentos e comércio. Nós já importamos muito do Mercosul e o tratado vai ampliar ainda mais as exportações para o GCC, assim como as vendas do GCC ao Mercosul.
Os produtos serão mais competitivos?
Sim, porque terão livre acesso aos mercados e isto vai encorajar mais empresários a exportar e importar.
Em que setores nós poderemos ter investimentos conjuntos?
Eu acredito que o Mercosul tem vantagens competitivas em algumas áreas e isso será explorado pelos empresários do Golfo. E também existem vantagens comparativas no GCC, como por exemplo na indústria pesada, onde empresários do Mercosul podem investir.
No Mercosul, especialmente no Brasil, que áreas podem atrair investidores do Golfo?
Mineração, indústria alimentícia. Os empresários serão espertos o bastante para agarrar as oportunidades assim que colocarmos eles frente a frente para discutir oportunidades.
O acordo vai também aumentar o conhecimento mútuo?
Ele vai ajudar também cada parte a conhecer melhor a cultura do outro e isso vai encorajar, por exemplo, o turismo. Por exemplo, no Brasil existem diferentes tipos de climas: o ameno, o calor, o frio, tem as praias, a natureza e a infra-estrutura de serviços de hotéis, estradas, aeroportos, etc., o que realmente será atrativo para os turistas.
O senhor acha possível que com esse acordo o Mercosul venha a substituir fornecedores do Golfo em determinados produtos, como a Europa por exemplo?
Bem, como eu disse, há uma vantagem comparativa aqui que vai atrair empresários a fazer negócios, porque haverá qualidade e preço. Eu acho que isso vai acontecer. Por exemplo, o frango congelado da Sadia é muito conhecido no Golfo, porque vocês têm uma vantagem competitiva. Há também os outros setores, como frutas, mineração, também a indústria aeronáutica.
Em seu discurso no encontro do Mercosul o senhor falou sobre a possibilidade de uma missão comercial?
Sim, esta é uma das idéias que nós pensamos, outra é fazer uma conferência de empresários dos dois lados, que poderia ser realizada uma vez aqui e outra vez no Golfo. Isso criaria conhecimento, saber quais são os recursos do Mercosul e vantagens comparativas, negócios, produtos.
Isso vai ocorrer após a assinatura do acordo?
Eu não acho que isso deva ser vinculado à assinatura do acordo, mas o acordo vai colocar as fundações para encorajar os empresários. Mas nós podemos fazer a conferência sem assinar. Nós temos um exemplo com a Índia. Não temos um acordo, apenas começamos a negociar, e já tivemos três ou quatro conferências.
O tratado pode facilitar a entrada dos produtos em outros países das duas regiões?
Exatamente. Dubai, por exemplo, é conhecido como um centro de reexportação. Então as importações de produtos do Mercosul crescerá muito, não para consumo local, mas para reexportação para países vizinhos, como Irã, Paquistão, da África Oriental e do Oeste da Ásia. E vice-versa, produtos exportados para o Mercosul podem ser reexportados para nações vizinhas.
O que o senhor achou da Cúpula do Mercosul?
Minha impressão foi muito positiva. Ocorreram negociações construtivas, transparentes e francas. Eu realmente admiro estes presidentes e líderes, eles realmente se importam com as necessidades de seus povos e estão trabalhando por estes interesses. Eles querem realmente fazer algumas coisas, não estão apenas concentrados no comércio, na economia. Não, eles falaram de questões sociais, educação, saúde, estão realmente trabalhando duro.

