Riad – Empresários sauditas que se reuniram nesta segunda-feira (02) com representantes dos setores público e privado do Brasil, na Câmara de Comércio e Indústria de Riad, na Arábia Saudita, demonstraram forte interesse nas oportunidades de investimentos no agronegócio brasileiro. O país árabe, que tem clima muito seco, adotou como política produzir alimentos no exterior para abastecer seu mercado interno.
Os empresários e integrantes do governo brasileiro estão na capital saudita para participar da Saudi Agro-Food, feira do ramo de alimentos, e de uma missão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) ao Oriente Médio.
Após uma série de apresentações feitas pela delegação brasileira, o empresário Mohammed Al-Khorayef, que representa duas empresas que atuam no ramo agrícola (Al-Khorayef Group e Jannat), perguntou como fazer para realizar investimentos diretos no Brasil, qual a política sobre compra de terras por estrangeiros e se existem restrições ao uso da água para irrigação. “Isso nos interessa”, declarou.
De acordo com ele, as empresas querem investir na produção de batata, milho e outros grãos no exterior. Elas já trabalham, segundo o executivo, em parceria com o grupo brasileiro Odebrecht em projetos de agronegócio na Venezuela e Equador e estudam iniciar negócios em Angola. As companhias sauditas estão começando também a atuar no Egito.
Já o presidente do Comitê de Política Agrícola da Câmara de Riad, Samir Kabbani, quis saber qual a política brasileira sobre propriedade de terras e sobre exportações.
O secretário de Política Agrícola do Mapa, Edilson Guimarães, disse que o tratamento para as empresas estrangeiras estabelecidas no Brasil é o mesmo dado às companhias 100% brasileiras. Ele acrescentou que não há restrição sobre o uso de água, nem sobre as exportações de itens agropecuários. Ele lembrou que é o agronegócio que sustenta o superávit da balança comercial brasileira.
O chefe do Departamento de Promoção Internacional do Mapa, Eduardo Sampaio Marques, alertou, porém, que as regras sobre aquisição de terras por estrangeiros estão em discussão atualmente no Brasil e a legislação pode ser modificado no futuro. O secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Michel Alaby, disse que a entidade vai enviar aos empresários sauditas um levantamento detalhado sobre o tema, em inglês e árabe.
Alternativas
Os brasileiros apresentaram, no entanto, alternativas de investimentos que não incluem a compra de terras. A Itambé, maior laticínio brasileiro, por exemplo, quer encontrar parceiros interessados na realização de contratos de fornecimento de longo prazo e até na formação de joint-ventures. De acordo com o diretor de Relações Institucionais da empresa, Ricardo Cotta, uma possibilidade é a abertura de uma nova unidade industrial exclusiva para atender o mercado do parceiro estrangeiro. “Estamos em busca disso [parcerias] nesta missão”, declarou o executivo.
Propostas semelhantes foram apresentadas pela Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso (Aprosoja) e pela indústria de carne de frango Globoaves.
Já o vice-presidente de Agronegócio do Banco do Brasil, Luís Carlos Guedes Pinto, informou que a instituição dispõe de uma série de instrumentos para viabilizar investimentos estrangeiros na agropecuária brasileira, entre eles a formação de um fundo de participações voltado exclusivamente ao setor.
Segundo ele, o banco criou uma estrutura do gênero para investidores brasileiros e, se houver interesse dos sauditas, pode formar um novo fundo nos mesmos moldes. Ao responder uma pergunta do empresário Mohsin Shaikh Al Hassan, Guedes Pinto acrescentou que o BB “está pronto” para financiar investimentos de empresas sauditas no Brasil e lembrou que grandes multinacionais são clientes da instituição.
Presidente de uma companhia que atua no ramo agropecuário, o engenheiro Mohamed Abdullah Al-Rasheed perguntou sobre a possibilidade de parcerias entre Brasil e Arábia Saudita para produção em países africanos.
Sampaio Marques, do Mapa, disse que “o governo brasileiro vê isso com boa vontade”. “Podemos levar esse projeto adiante”, destacou. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem apontado essa cooperação “triangular” como uma forma de ajuda internacional ao desenvolvimento da África. Ele já defendeu esse modelo inclusive em visitas a países árabes.
Marques afirmou que o Brasil já tenta um projeto do gênero com países europeus, “mas ainda há algumas dificuldades para juntar todas as pontas”.
O embaixador do Brasil em Riad, Sérgio Luiz Canaes, lembrou da visita que o presidente Lula fez à Arábia Saudita este ano e disse que o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, deverá liderar uma missão comercial ao país no próximo ano.
Michel Alaby, da Câmara Árabe, propôs ainda a formação de um Conselho Empresarial Brasil-Arábia Saudita.

