São Paulo – Uma idéia brasileira deve ser aplicada em programas de saúde bucal de Ajman, um dos sete emirados dos Emirados Árabes Unidos. O dentista e empresário Fabiano Vilhena, de São José dos Campos, interior paulista, está desenvolvendo um projeto na área juntamente com uma acadêmica – professora universitária e doutora – do emirado. O projeto é uma adaptação do modelo que Vilhena aplica no Brasil.
O empresário produz um kit de saúde bucal coletiva infantil, que leva junto um conceito de prevenção de cáries. O trabalho é feito por meio da empresa que ele abriu há cerca de dois anos e meio, a Oralls Saúde Bucal Coletiva. O produto fabricado é um suporte no qual podem ser acondicionadas individualmente escovas dentais. Cada uma delas é protegida por uma embalagem, com orifícios nas extremidades, que as permite respirar.
O dentista desenvolveu a idéia pensando em evitar a contaminação de uma escova para outra, o que segundo ele, é a causa de transmissão de doenças, além das próprias cáries. No Brasil, meio milhão de crianças já utiliza o produto. De acordo com Vilhena, 90% é vendido para prefeituras, que as usam principalmente em escolas públicas, e 10% para entidades com algum tipo de ação nesta área e escolas particulares.
O kit, chamado de Kit Escovinha, leva, além do suporte coletivo e individual para as escovas, as próprias escovas dentais, uma caneta para identificar o nome de cada criança no porta-escovas – para evitar a troca delas – e um gel dentifrício. O material vem ainda com um DVD educativo que, ao explicar o modo de uso do kit, dá orientações de saúde bucal. “O kit já é um promotor de saúde bucal”, explica Vilhena.
O trabalho que o brasileiro está fazendo em conjunto com a acadêmica de Ajman é uma adaptação do uso do kit para Ajman. Eles pretendem apresentar o projeto, após concluído, para aplicação na saúde pública bucal do emirado. Os dois se conheceram durante um congresso internacional de odontologia realizado em 2007, em Dubai. “No congresso, conheci mais sobre a saúde bucal de Omã, Bahrein, Emirados, Arábia Saudita, Kuwait, Iraque”, afirma Vilhena.
No encontro, Vilhena ficou sabendo, por exemplo, que o CPO-D, índice que mede a quantidade de dentes cariados, perdidos e obturados, é, em grande parte dos países árabes com os quais o empresário teve contato, o dobro do brasileiro. Enquanto no Brasil, o índice é cerca de três dentes para crianças de cinco a 12 anos, na região, é entre cinco e seis dentes. “É preocupante”, diz o dentista. Vilhena chegou a deixar, na oportunidade, amostras do seu kit com uma liderança pública da área de saúde bucal do Bahrein.
História de um Kit
O Kit Escovinha e o seu conceito foram desenvolvidos por Vilhena durante o seu mestrado, concluído em 2005, na Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP), em Bauru. O dentista também desenvolveu um dentifrício líquido, cuja embalagem permite expelir uma gota por vez, e que faz parte do kit. O consumo excesso do flúor – por meio do creme dental -, segundo ele, causa a fluorose dentária, uma anomalia na formação do esmalte do dente. E as crianças ingerem, de acordo com Vilhena, 30% a 70% do creme dental que é posto em suas escovas dentais. O uso de apenas uma gota ajuda a evitar a fluorose.
Os produtos da Oralls Saúde Bucal Coletiva já são usados em escolas particulares de Portugal, atingindo entre mil e duas mil crianças e também foram enviadas para Moçambique, dentro de um projeto de saúde bucal. Em breve devem chegar a Angola. Desde a faculdade de odontologia até chegar ao atual estágio, porém, Vilhena teve um caminho longo. “Pensava em trabalhar com odontologia voltada para um número maior de pessoas e não ficar dentro de um consultório”, explica.
Foi assim que Vilhena desenvolveu trabalhos sobre saúde bucal em escolas particulares e depois foi coordenador de Saúde Bucal do município de General Carneiro, no Mato Grosso, após a formatura em odontologia. Para aprimorar a sua idéia do Kit Escovinha, o dentista fez parte de uma incubadora da Prefeitura Municipal de São José dos Campos, que tem apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).
No doutorado, também feito na USP de Bauru, Vilhena desenvolveu uma pesquisa provando que o uso menor do flúor – em função do uso do dentifrício em gotas – não chega a prejudicar a prevenção de cáries. A pesquisa, que levou cerca de dois anos e cuja tese será defendida no final deste ano, teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), com recursos de R$ 300 mil. Foram acompanhadas 1.400 famílias para o estudo.

