São Paulo – Após um giro de cinco dias pelo Norte da África, o chanceler Celso Amorim voltará a Brasília, após uma passagem por Cabo Verde, confiante de que as relações econômicas e comerciais do Brasil com Argélia, Marrocos e Tunísia têm tudo para avançar. “Existe um potencial grande para estreitar as relações nas áreas de comércio e investimentos, possibilidades reais nos três países”, disse ontem (26) o ministro em entrevista exclusiva à ANBA por telefone de Túnis.
Ele citou como exemplo a exploração das complementaridades entre as economias. A Tunísia, disse, é grande exportadora de fertilizantes necessários ao Brasil e, ao mesmo tempo, importadora de produtos agrícolas abundantes nas fazendas brasileiras. O chanceler disse, no entanto, que é preciso vontade por parte dos empresários para impulsionar os negócios. “Eles estão muito perto da Europa, se nós não fizemos um esforço vão buscar o mercado europeu”, declarou.
Amorim disse ainda que há um novo ímpeto para as negociações de um tratado comercial entre o Mercosul e o Marrocos e uma iniciativa no mesmo sentido pode começar a ser feita com relação à Argélia. “[As negociações] vinham caminhando em ritmo lento, mas a vantagem dessas viagens de membros do governo é fazer as coisas se acelerarem”, afirmou. Seguem os principais trechos da entrevista:
ANBA – Quais foram os resultados desse giro pelo Norte da África?
Celso Amorim – Eu acho que existe um potencial grande para estreitar as relações nas áreas de comércio e investimentos, possibilidades reais com os três países. Em alguns lugares isso já está mais avançado, como no Marrocos e na Argélia. Com a Tunísia o comércio ainda é pequeno, mas vejo possibilidades, pois eles têm recursos dos quais precisamos, como o fosfato, e ao mesmo tempo desejam coisas que nós temos, como cooperação na área de construção civil. Existem possibilidades de investimentos [para brasileiros] aqui com o objetivo de alcançar o mercado europeu. Já no ramo agrícola há interesse no nosso know-how sobre agricultura no semi-árido, conseguir produzir em condições difíceis.
O que precisa ser feito para intensificar as relações empresariais?
Cada país tem uma realidade, mas existem boas possibilidades. É preciso, no entanto, que nossos homens de negócios visitem os países. O ministro [do Desenvolvimento] Miguel Jorge virá para a região acompanhado de empresários, para Argélia e Líbia, o que permitirá novas oportunidades. Acho que a perspectiva é de que as relações cresçam muito, mas eles estão muito perto da Europa, se nós não fizermos um esforço eles vão buscar a Europa.
O que atrapalha?
Há um empecilho que é a falta de uma linha aérea direta, mas para isso é preciso criar um círculo virtuoso de demanda e fomento. Já houve um vôo do Marrocos e obviamente existe o desejo de ter novamente, mas há até uma falta de aviões. O ideal seria que todos os países tivessem uma ligação. Uma opção seria um vôo até o Norte da África e destino final no Líbano, para aproveitar as relações fortes que temos com Beirute [por conta da grande colônia de origem libanesa que vive no Brasil].
E do ponto de vista institucional, o acordo comercial com o Marrocos, por exemplo, quais são as perspectivas?
Institucionalmente existem as negociações do Mercosul com o Marrocos. Elas vinham caminhando num ritmo lento, mas a vantagem dessas viagens de membros do governo é fazer as coisas se acelerarem. Estava marcada uma rodada para novembro, mas vamos tentar antecipá-la para setembro e ver se é possível chegar até o fim do ano com um acordo para ser rubricado.
E com a Argélia?
Há a intenção de se negociar um acordo-quadro de comércio com a Argélia e vamos trabalhar nesse sentido.

