Alexandre Rocha
São Paulo – O secretário-geral da Liga dos Estados Árabes, Amr Mussa, elogiou ontem (04) o trabalho da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, durante plenária do encontro anual das câmaras árabes de comércio sediadas fora do mundo árabe, que está sendo realizado em Riad, na Arábia Saudita. "Ele falou com muito orgulho da Câmara, elogiou o trabalho que ela faz em prol das comunidades empresariais brasileira e árabe", disse o secretário-geral da entidade brasileira, Michel Alaby, que participa do evento.
Mussa visitou a sede da Câmara, em São Paulo, durante sua primeira visita ao Brasil em abril do ano passado. Posteriormente, em maio, ele esteve novamente na capital paulista para participar do Encontro Empresarial Brasil-Países Árabes, conferência organizada pela entidade após a Cúpula América do Sul-Países Árabes (Aspa).
"Ele disse que gostou muito de ter tido a oportunidade de visitar a Câmara", afirmou Alaby. Mussa acaba de ser reeleito para o cargo de secretário-geral da Liga, durante a Cúpula Árabe que foi realizada em Cartum, capital do Sudão, na semana passada.
Ontem também, Alaby apresentou para uma platéia de cerca de 100 pessoas, no Hotel Radisson, uma série de propostas para ampliar o comércio e os projetos conjuntos entre países árabes e sul-americanos. Estavam presentes representantes de câmaras de comércio sediadas em vários países e de entidades da Arábia Saudita. O encontro é organizado pelo Conselho das Câmaras de Comércio e Indústria do país árabe.
Segundo o secretário-geral, entre as propostas que mais chamaram a atenção está a de buscar uma maior aproximação entre os departamentos de comunicação das câmaras das duas regiões. Como exemplo, ele citou a ANBA, que publica em português e inglês notícias de interesse do Brasil e do mundo árabe. "Eles receberam muito bem esta proposta", afirmou. "Repercutiu muito bem nosso trabalho de tentar desenvolver a imagem do Brasil no mundo árabe e do mundo árabe no Brasil", acrescentou.
Outra sugestão bem recebida foi a criação de conselhos empresarias bilaterais. "Não só entre as nações árabes e o Brasil, mas com os países da América do Sul. Esta é uma opção muito forte para ampliar os negócios, atrair investimentos e promover a transferência de tecnologias", disse Alaby. "E eu deixei isso bem claro", acrescentou.
Um dos exemplos que ele usou foi o do Conselho Empresarial Brasil-Tunísia, criado pela Câmara Árabe Brasileira e pela União Tunisiana da Indústria, Comércio e Artesanato (Utica). Por meio do trabalho do conselho, a Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal) e a Federação Nacional de Couro e Calçados do país árabe (FNCC) acabam de assinar um acordo com o objetivo de promover o fornecimento de insumos brasileiros para a indústria calçadista da Tunísia e a troca de conhecimento entre as duas partes.
"Os árabes têm interesse em absorver tecnologia dos países da América Latina, como da brasileira Embraer, da mexicana Cemex (Cimentos Mexicanos) e da Argentina na área do trigo. O secretário Amr Mussa disse que o momento é propício para as nações árabes discutirem o acesso a tecnologias em vários setores", declarou Alaby.
Na área governamental, as principais propostas foram a formação de comissões mistas bilaterais, utilizadas para avaliar periodicamente as relações entre dois países; a assinatura de tratados para evitar bitributação sobre investimentos; a facilitação da concessão de vistos para turistas e empresários; e a criação linhas diretas de transporte aéreo e marítimo. "A idéia é fazer com que as câmaras falem com os governos para implementar estas propostas", disse Alaby.
Neste sentido, Amr Mussa e o secretário-geral da União das Câmaras de Comércio, Indústria e Agricultura dos Países Árabes, Elias Ghantous, solicitaram que a entidade brasileira encaminhe cópias da apresentação feita ontem às embaixadas árabes em Brasília e ao Conselho Econômico da Liga Árabe e que as câmaras de comércio encaminhem o trabalho para seus respectivos governos.
Na reunião o novo presidente da União das Câmaras, o libanês Adnam Kassar, e Ghantous anunciaram a realização em agosto de uma reunião da instituição com a Câmara Árabe Brasileira. Ontem mesmo, entidades de outros países já manifestaram a Alaby a intenção de participar.
Alaby apresentou ainda a tradução para o árabe do livro "Novo Mundo nos Trópicos", de Gilberto Freyre, o dicionário árabe-português e a tradução do Alcorão para o português editada pelo Complexo Rei Fahd, na Arábia Saudita, todos trabalhos feitos pelo vice-presidente de relações internacionais da Câmara Árabe Brasileira, Helmi Nasr, além de um DVD com um documentário sobre a influência árabe no Brasil. O Conselho das Câmaras Sauditas solicitou a doação do material para sua biblioteca, o que foi feito.
Atenção aos acordos comerciais
Além da Mussa e Kassar, participaram da reunião de ontem o ministro da Indústria e Comércio da Arábia Saudita, Hashem Bin Abdallah Yamani, e o secretário-geral do Conselho das Câmaras Sauditas, Fahd Al-Sultan, que manifestou o interesse de visitar o Brasil.
Outros assuntos importantes discutidos ontem foram a entrada da Arábia Saudita na Organização Mundial do Comércio (OMC); a Área de Livre Comércio Árabe, que entrou em vigor no ano passado, deve chegar a 2010 como união aduaneira e a 2030 como mercado comum; e o aumento do comércio entre os países árabes, que passou de 8% para 11% do total que eles negociam com o mundo.
Vários países da região estão promovendo reformas para reduzir o tamanho do estado, levando a cabo programas de privatização e reduzindo a burocracia. Diversas nações árabes já fecharam ou estão negociando também acordos comerciais com a União Européia.
Alaby recomenda ao Mercosul abrir os olhos e concluir as negociações que já mantém com Egito, Marrocos e Conselho de Cooperação do Golfo (Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã) para não perder espaço para os europeus. "Nós não prevemos o futuro, criamos o futuro. Então vamos trabalhar", disse ele durante a plenária.

