Dubai – Mesmo com o conflito interno que ocorre Síria desde 2011, o setor alimentício do país busca expandir suas vendas externas. Na Gulfood, feira de alimentos que ocorre esta semana em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, o pavilhão sírio conta com 16 empresas expositoras.
A variedade de produtos ofertados é grande e inclui chocolates, biscoitos, óleos, azeites, castanhas, frutas secas, picles e geleias, entre outros. Seria normal pensar que em um país em guerra os negócios param, mas empresas sírias continuam a produzir e exportar, mesmo nesse cenário.
Produzindo chocolates, drágeas, waffer e biscoitos, a Kemeh Al Sham for Food Industrial Company está no mercado desde 1945. “Somos umas das primeiras empresas a produzir chocolates e doces na Síria”, afirma Yaser Aridah, subgerente geral. A empresa tem também uma fábrica na Jordânia e exporta para 15 países. “Na América Latina, temos nossos produtos na Venezuela e República Dominicana”, conta. A indústria vende ainda para outros países árabes e nações da Europa.
Aridah diz que a situação em Damasco é melhor que no restante do país, o que permite que seus produtos continuem sendo enviados a outras cidades da Síria. “A indústria continua, a vida continua. Há algumas dificuldades longe de Damasco, mas os produtos chegam a Alepo, Homs, Lataquia, Tartus e Hama”, revelou.
A empresa Al Reem Can Maker existe desde 2006 e tem a carne bovina e de frango pré-cozida como seu principal produto, mas ela também produz outros itens como extrato de tomate, feijões e favas enlatadas. “Exportamos para Iraque, Líbano e Jordânia. Algumas vezes [vendemos] para outros países, mas [exportamos] principalmente para esses”, contou Khaled Abou-Kharroub, gerente-geral.
Somente de carne pré-cozida, a indústria produz 500 toneladas por mês. O gerente conta que nunca exportou para o Brasil, mas começou a importar matéria-prima do País no mês passado. “Desde janeiro importamos frango do Brasil. São 100 toneladas por mês”. De acordo com Abou-Kharroub, seu fornecedor é a paranaense Copacol. Ele disse ainda que planeja ir ao Brasil para conhecer melhor as empresas de frango e soja.
Iyad Betinjaneh é vice-presidente do Habib Betinjaneh Est., grupo que atua com produção, distribuição, importação e exportação de alimentos. Na área de produção, a empresa fabrica itens azeite de dendê, óleo de flores e, principalmente, azeite de oliva, sob a marca Syrian Olive Oil Co.
“Temos unidades na Síria, Iraque e Líbano e representamos muitas empresas nacionais e internacionais”, diz o executivo sobre os negócios da empresa. “Tínhamos nove fábricas na Síria antes da guerra. Durante a guerra, tivemos problemas com algumas delas”, disse Betinjaneh, explicando que, atualmente, quatro fábricas continuam em operação e duas estão sendo reconstruídas.
“O mercado local da Síria este ano está sofrendo em quase todos os lugares e os volumes caíram porque é difícil conseguir fornecedores, mas produzimos de quatro a cinco toneladas de azeite de oliva anualmente”, destacou.
Entre os mercados para os quais exporta estão países árabes e da Europa, Austrália e Malásia. A empresa não vende para o Brasil, mas já chegou a importar café e tem negociado para começar a comprar frango do País.
De acordo com o executivo, é difícil manter os negócios em um país em guerra, mas para ele “é preciso se adaptar”. “Temos nosso povo lá. Temos mais de 800 pessoas trabalhando para nossa empresa e precisamos manter os negócios ativos. Como fazer isso? Lidamos com isso no dia-a-dia, não temos uma estratégia de longo prazo, você tem que se adaptar ao que está acontecendo. Há áreas em que perdemos tudo, perdemos fábricas, armazéns. Em outras áreas é possível reconstruir, onde é seguro”, apontou.
A fabricante de doces Wouters existe há dez anos e foi criada pela holandesa Nicole Wouters, que se casou com um sírio e foi morar no país árabe. A empresa produz diversos tipos de chocolates e deve passar a produzir biscoitos também.
Segundo Nicole, o mercado de chocolates na Síria é muito bom e, antes da guerra, estava em forte crescimento. “A Síria é conhecida por seus chocolates artesanais e o uso de boa manteiga de cacau e bons ingredientes”, destacou.
Com a participação na Gulfood, ela espera expandir seus contatos com clientes da Jordânia, Iraque e Iêmen, países para os quais exporta atualmente. “Espero que, participando da feira, minha fábrica vá funcionar 24 horas, sete dias por semana e cheguemos a produzir três toneladas por dia”, disse. Ela não revelou a produção atual da indústria.
A empresária acredita que, quando os conflitos acabarem, é preciso que as empresas estejam prontas para a retomada das vendas. “O mais importante é que você esteja preparado, porque isso vai acabar e eu tenho muita esperança de que vá acabar logo. E uma vez que haja paz novamente, a Síria é um país forte, todos irão voltar e o país tem um grande potencial para negócios”, afirmou.


