São Paulo – As eleições parlamentares realizadas no último domingo na Tunísia pavimentam o caminho da estabilidade política e abrem espaço para a retomada do desenvolvimento econômico, na avaliação do embaixador tunisiano em Brasília, Sabri Bachtobji. “Pela primeira vez na história os tunisianos vão experimentar uma alternância pacífica de poder”, disse ele em entrevista à ANBA por telefone.
Embora os resultados oficiais ainda não tivessem sido divulgados até a tarde de quarta-feira (29), quando ele concedeu a entrevista, dados preliminares apontavam vitória do partido laico Nidaa Tounes (“Chamado da Tunísia”) na disputa pelas 217 cadeiras do Parlamento tunisiano, fato reconhecido pelo próprio presidente da legenda islâmica moderada Ennahda (“Renascença”.), Rachid Ghannouchi.
O Ennahda havia vencido o primeiro pleito realizado após o levante popular que derrubou o ditador Zine El Abdine Ben Ali, em 2011, e ficou à frente do governo até janeiro deste ano, quando passou o poder para uma administração de transição até as eleições e a formação de um novo gabinete.
“O Ennahda felicitou o líder do Nidaa Tounes [Béji Caïd Essebsi] reconhecendo o resultado parcial”, observou Bachtobji. Confirmado o resultado, a legenda vencedora buscará formar um governo de coalizão para ter maioria no Parlamento. “O cenário ficará mais claro com eleição do presidente [em 23 de novembro] e com o resultado final da eleição parlamentar. Haverá uma nova configuração política”, acrescentou.
O diplomata acredita que a concertação política que permitiu a aprovação de uma nova constituição, a montagem de um governo de transição e a realização de eleições pacíficas marca o advento de uma nova mentalidade no país. “Os tunisianos estão experimentando a noção de consenso. É uma nova cultura”, destacou.
Segundo ele, há disposição dos políticos em dialogar e fazer o país passar para uma “Segunda República”, sendo a primeira a que foi proclamada em 1957, após um curto período de regime monárquico que se seguiu à independência da França no ano anterior.
Retomada
Na avaliação do embaixador, a esperada estabilidade política é “condição sine qua non” para que o país possa enfrentar seu principal desafio: a retomada do crescimento econômico. “Toda a classe política tem a responsabilidade de enfrentar o desafio econômico”, ressaltou. “As pessoas esperam decisões rápidas sobre um modelo de desenvolvimento que responda aos anseios de quem fez a revolução”, disse.
Ele lembrou que os problemas econômicos foram o estopim da revolta que pôs fim aos mais de 20 anos do regime de Ben Ali. Entre os principais problemas estão o desemprego e as disparidades regionais. “A revolução começou no interior”, afirmou ele, ressaltando a necessidade de uma estratégia de desenvolvimento regional no país. O desemprego atinge mais de 15% da população economicamente ativa, uma das maiores taxas do Oriente Médio e Norte da África, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).
A Tunísia tem também grande necessidade de financiamento externo, estimada este ano em quase US$ 12 bilhões, segundo o FMI, e tem contado com aportes de instituições financeiras internacionais como Banco Mundial e o próprio Fundo.
Nesse sentido, Bachtobji destacou a importância de “relançar” a atração de investimentos estrangeiros diretos e o turismo, uma das importantes atividades da economia local. Para ele, este é o “melhor momento” para investir na Tunísia, pois além da transição democrática, inédita no mundo árabe, o país “apresenta todas as condições” necessárias para os negócios, como proximidade de grandes mercados, pessoal qualificado e excelente localização geográfica.
“Estamos de portas abertas aos visitantes, para o turismo e para que [os empresários] vejam as possibilidades de parcerias, investimentos e comércio”, declarou o embaixador, dirigindo-se aos empresários brasileiros.
Processo
O diplomata ainda citou três fatores do processo eleitoral que ele considera essencial, além do resultado. Primeiro a habilidade do governo provisório, liderado pelo primeiro-ministro Mehdi Jomaa, ao conduzir o país na transição, criando condições para as eleições, principalmente na área de segurança. “Com a situação na região, a ocorrência de atentados, a ação de terroristas, o engajamento [do governo] do ponto de vista da segurança, o esforço das forças de segurança, foi louvável”, ressaltou.
Em segundo lugar, ele destacou a condução do processo eleitoral pela Instância Superior Independente para as Eleições (Isie), órgão criado pela nova constituição. “A instituição cumpriu sua missão mesmo com a falta de experiência. Foi a primeira eleição democrática depois da constituição, não foi fácil”, afirmou.
Por fim, Bachtobji ressaltou a reação da comunidade internacional sobre as eleições. Vários países e instituições multilaterais destacaram o “padrão internacional” do pleito tunisiano e felicitaram o país.


