São Paulo – O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, disse nesta segunda-feira (26), em São Paulo, que a promoção das relações com o mundo árabe é prioritária para o governo da presidente Dilma Rousseff. "Nossa orientação é privilegiar sempre o relacionamento com os países árabes", afirmou ele, em entrevista na Câmara de Comércio Árabe Brasileira, após almoço com palestra organizado pela entidade.
No evento, o presidente da Câmara Árabe, Salim Taufic Schahin, pediu ao ministro para "não perder o momento" e aproveitar o trabalho de aproximação feito durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010). Ele lembrou que este ano, mesmo com a onda de protestos na região, que já resultou na queda dos regimes do Egito, Tunísia e Líbia, as exportações do Brasil para lá cresceram 31,6% de janeiro a agosto, em comparação com o mesmo período de 2010.
Em entrevista, Pimentel ressaltou que Dilma deixou clara a prioridade dada aos árabes ao defender na Assembleia Geral da ONU, na semana passada, o reconhecimento do Estado Palestino e ao lamentar que a organização ainda não tenha feito isso.
Na seara comercial, o ministro destacou que a balança com os árabes é positiva para o Brasil e está sempre em expansão. Ele acrescentou que o governo pretende manter as ações de promoção dos negócios com a região e citou como exemplos a Big 5, feira do ramo da construção que ocorre em novembro, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, que terá mais uma vez um estande brasileiro organizado pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), ligada ao ministério, e pela Câmara Árabe; e a realização de uma missão comercial ao Oriente Médio, também com a pasta à frente, em março de 2012. "Há um espaço grande para expansão [do comércio]", declarou.
Na palestra para empresários, Pimentel falou sobre o quadro atual da economia internacional. Ele destacou que a crise que se abate sobre o mundo deriva da que estourou em 2008, agora com foco mais na União Europeia, mas é também a "manifestação externa de fenômenos mais profundos" que vêm ocorrendo faz tempo.
O ministro citou quatro "processos de transformação que são a estrutura profunda da crise". Em primeiro lugar, a "mudança do paradigma industrial" do século 20 para o 21, com a ascensão das indústrias asiáticas, em especial a da China, capazes de produzir produtos de forma mais barata do que em qualquer outro lugar do mundo. Para ele, a Ásia domina boa parte do comércio internacional de bens manufaturados, estando fora de seu controle apenas a área de commodities agrícolas e minerais. "Todas as economias se deparam com esse fenômeno, e o Brasil não é exceção", disse.
Câmbio
Em segundo lugar, ele falou sobre a "mudança do padrão monetário", com o dólar norte-americano enfraquecido como moeda de troca no comércio internacional. "A economia globalizada não consegue se acomodar com aquele que foi o padrão do século 20", afirmou. Pimentel acrescentou que a política do governo dos EUA, de buscar a desvalorização da própria moeda para tornar sua economia mais competitiva, "causa um abalo terrível nas taxas de câmbio no mundo inteiro".
Para Pimentel, é questão de tempo até haver uma mudança do padrão dólar para outro, que pode vir a ser uma cesta de moedas, ou "algum caminho novo". Ele acredita que o século 21 não terminará tendo ainda o dólar como padrão monetário, mas ressaltou que o processo de mudança "será complicado", pois os países continuam a ter suas reservas internacionais em moeda norte-americana.
Ainda nessa seara, o ministro comentou o expressivo aumento recente do dólar frente ao real, efeito do agravamento da crise na Europa. Ele acha que a moeda dos EUA vai chegar ao final do ano cotada a cerca de R$ 1,70, não tão alta a ponto de pressionar a inflação e, ao mesmo tempo, alta o suficiente "para dar um conforto aos exportadores". Hoje o dólar oscila em torno de R$ 1,85, mas estava em R$ 1,60 no início do mês.
Em terceiro lugar, Pimentel assinalou uma "mudança do padrão do mercado de consumo", com os Estados Unidos e a Europa já saturados e as nações emergentes apresentando maior crescimento. "O dinamismo partiu do Norte para o Sul", declarou. Ele destacou que os mercados de consumo dos países em desenvolvimento estão apenas começando a ser explorados e ainda há muito espaço para avançar. "Temos um potencial que nos EUA e na Europa já se esgotou", ressaltou.
No longo prazo, ele acredita que essas mudanças na área geoeconômica vão ocorrer também na seara geopolítica.
Modelo
Nesse sentido, o ministro afirmou que o modelo de nação líder do século 21 será aquela que reunir grande extensão territorial com disponibilidade de recursos naturais; grande população "entendida como mercado", ou seja, "cidadãos"; existência de indústria e de produção tecnológica; e um regime democrático estável com segurança jurídica. "Poucos países têm todas essas características, e nós (o Brasil) temos", destacou.
Ele ressaltou, porém, que "não está escrito no livro do destino que o Brasil vai dar certo". "Isso nós temos que escrever, mas temos as condições", disse. E acrescentou: "O País tem condições de dar exemplos". Ele lembrou o discurso de Dilma na ONU, onde ela destacou a convivência pacífica entre brasileiros de origem árabe e judaica.

