São Paulo – Em meio à crise, os países árabes e sul-americanos vão defender a construção de uma nova arquitetura financeira internacional na segunda cúpula de chefes de estado e de governo das duas regiões, que vai ocorrer nos dias 31 de março e 01 de abril em Doha, no Catar. A informação consta da minuta da declaração que deverá ser aprovada no encontro, obtida com exclusividade pela ANBA. O documento já passou pelo crivo de chanceleres dos dois blocos.
A reunião no Catar vai terminar um dia antes da cúpula do G-20, em Londres, marcada justamente para discutir soluções para a crise e para a retomada do crescimento econômico mundial. O grupo é formado pelas 20 maiores economias do mundo, inclusive membros da iniciativa América do Sul-Países Árabes (Aspa), como Brasil, Arábia Saudita e Argentina.
De acordo com a minuta da declaração de Doha – que ainda pode sofrer alterações até sua aprovação final no encontro, os países árabes e sul-americanos “enfatizam a necessidade de se estabelecer um sistema financeiro internacional que previna a especulação financeira e leve em consideração regras adequadas. Nesse contexto, a construção dessa nova arquitetura financeira internacional tem que ser congruente como o desenvolvimento socioeconômico”.
O texto prega a implementação de mecanismos de cooperação na área financeira. A crise nascida nos países desenvolvidos afeta ambas as regiões, que juntas concentram mais de 8% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, ou algo em torno de US$ 5 trilhões, além de 10,7% da população do planeta. São 22 países árabes e 12 sul-americanos.
Segundo a minuta, as nações mais desenvolvidas e organizações financeiras multilaterais devem apoiar os países em desenvolvimento, especialmente os mais pobres, no enfrentamento da crise. Nesse sentido, a carta pede a realização, o mais breve possível, de uma conferência internacional no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU) para debater a crise e suas soluções.
As duas regiões se comprometem a fortalecer as instituições da ONU ligadas às áreas econômica e social “para promover uma agenda econômica, social e de desenvolvimento internacional mais ampla e ambiciosa”.
Além disso, o texto defende a continuidade dos fluxos de recursos financeiros internacionais para a promoção do desenvolvimento econômico e social, especialmente nas áreas de infraestrutura, redução da pobreza e erradicação da fome.
Uma reforma do sistema financeiro internacional, com regulação e supervisão mais rigorosas e maior representação dos países emergentes nas organizações multilaterais, já vem sendo discutida no âmbito do G-20, assim como a continuidade da Rodada Doha de liberalização do comércio internacional.
Nessa seara, o documento dos países árabes e sul-americanos diz que a não conclusão das negociações na Organização Mundial do Comércio (OMC) coloca em risco as exportações das economias em desenvolvimento e em transição, além de retardar o crescimento econômico global. O comércio internacional vem sofrendo forte abalo por conta da crise.
Mais comércio
Do ponto de vista birregional, a carta defende a ampliação do comércio de bens agrícolas e industriais, além de uma maior cooperação técnica entre os países dos dois blocos. Ela reconhece o crescimento do comércio desde a primeira cúpula, que ocorreu em 2005, mas destaca que existem oportunidades ainda não exploradas. No caso do Brasil, por exemplo, a corrente comercial (soma das exportações e importações) com os países árabes saiu de US$ 10,5 bilhões em 2005 para US$ 20,3 bilhões no ano passado.
A minuta fala também dos acordos que estão sendo negociados pelo Mercosul com o Egito, Jordânia, Marrocos e com o Conselho de Cooperação do Golfo (GCC), bloco formado por Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã. Nela, os países apóiam o desenvolvimento do comércio e de parcerias por meio da concessão de preferências comerciais entre nações emergentes.
Ainda na seara econômica, o documento destaca a importância do apoio ao desenvolvimento sustentável, especialmente pelo financiamento de instituições de microcrédito, e ressalta a importância de envolver a sociedade civil e o setor privado na promoção dos esforços birregionais.
Leia mais sobre os temas da cúpula amanhã (18) na ANBA.

