Cartum – Embora a segurança alimentar seja uma das questões que mais preocupam o mundo árabe atualmente, os recursos destinados à produção agropecuária na região são baixos. De acordo com o presidente da União Geral das Câmaras de Comércio, Indústria e Agricultura dos Países Árabes, Adnan Kassar, o setor representa menos de 1% dos investimentos feitos nos países do Oriente Médio e Norte da África.
“É preciso redesenhar a agricultura no mundo árabe”, disse Kassar, ao abrir nesta segunda-feira (20) conferência sobre o tema em Cartum, no Sudão. Ele ressaltou que o aumento dos preços dos alimentos e o risco de desabastecimento ajudaram a precipitar a Primavera Árabe, série de levantes populares que chacoalhou a região a partir de 2011, e tiveram impactos negativos no desenvolvimento social, nos índices de desemprego e no combate à pobreza.
Segundo o executivo, o número de pessoas consideradas mal nutridas na região passou de 13 milhões para 25 milhões em vinte anos. “Uma das questões mais sensíveis na região é a dos preços dos alimentos por causa das condições climáticas e ambientais e da falta de políticas para o setor”, destacou. Ele acrescentou que dos 22 países árabes, 13 tiveram desenvolvimento agrícola negativo nos últimos anos.
“[Segurança alimentar] é uma expressão que eu ouço ser repetida há mais de 40 anos sem ver progresso, com a produção caindo e com o aumento das importações”, afirmou. “Há solução para esta questão?”, questionou.
Muitas das nações árabes têm clima árido, pouca água e, ao mesmo tempo, populações em rápido crescimento, o que cria uma grande dependência dos produtos estrangeiros e vulnerabilidade às oscilações do mercado internacional. Para garantir a segurança alimentar, o mundo árabe precisaria investir US$ 114 bilhões em 30 anos, segundo Ibrahim Khalifa Al-Khalifa, do Centro Árabe para Treinamento em Empreendedorismo e Investimentos, órgão ligado à União das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido) e ao governo do Bahrein.
O Sudão, ao contrário de outros países da região, tem grandes áreas férteis, água fornecida pelo Rio Nilo e seus dois afluentes, o Nilo Branco e o Nilo Azul, e gente para trabalhar no campo. “São todos os elementos necessários para desenvolver a agricultura”, disse Kassar. Embora a atividade seja importantíssima para o país, está muito aquém do seu potencial e há grande quantidade de terras disponíveis.
De acordo com Ahmed Abdel Latif, do grupo sudanês de fertilizantes CTC, o Sudão está no topo da lista de países com área disponível para plantio, são 46 milhões de hectares que podem ser explorados, mas a produtividade é baixa. Como exemplo de desenvolvimento na área, ele citou o Brasil. “O Brasil aumentou sua produtividade em quatro vezes [nas últimas décadas]”, declarou. “Se o Sudão conseguisse atingir de 20% a 40% disso, seria suficiente para garantir segurança alimentar ao mundo árabe”, acrescentou.
Celeiro?
Apresentar o Sudão como local propício para receber investimentos e mobilizar o setor privado árabe nesta direção é o objetivo da conferência, que termina nesta terça-feira (21). O país, no entanto, tem dificuldades para conseguir crédito por causa de sanções internacionais. “Como podemos investir nestes projetos sem capacidade financeira?”, questionou o empresário sudanês Ali Abarsi.
Assistente do presidente sudanês, Omar Al-Bashir, idealizador da conferência, Nafie Ali Nafie, afirmou que as “as instituições financeiras internacionais não cooperam conosco”, pois, segundo ele, estão sobre controle de grandes potencias internacionais.
Mas não são só as sanções que atrapalham, o país tem problemas como a volatilidade do câmbio, inflação e desvalorização da moeda. Os sudaneses, no entanto, lançaram recentemente uma nova lei de investimentos e apostam nela como atrativo. “Precisamos remover os obstáculos para atrair capitais árabes”, observou o presidente da Federação de Empresários Sudaneses, Saud Elbireir.
Mesmo com as dificuldades, várias empresas árabes já atuam em território sudanês. Algumas delas apresentaram seus empreendimentos na conferência. É o caso da GLB, de investimentos em agricultura, que mostrou seu projeto de produção de alfafa para alimentação de animais na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos. A primeira fase do negócio prevê produção de 40 mil toneladas em 2014, até chegar a 750 mil em 2018. Além dos recursos naturais, a companhia destaca a proximidade do Sudão com o mercado saudita, do outro lado do Mar Vermelho.
Na mesma linha, Abdulaziz Al-Babtain, diretor gerente da Nadec, empresa agrícola e indústria alimentícia saudita de grande porte, disse que a companhia escolheu o Sudão para ampliar sua produção. “O problema da segurança alimentar é uma oportunidade para nós, é um mercado de US$ 50 bilhões”, destacou.
Também falaram sobre experiências bem sucedidas representantes do laticínio Al-Safi e da avícola Ommat, ambas sauditas. Hussein Bahri, presidente da segunda, deu uma série de dicas a quem quer investir no país, como dar incentivos financeiros e morais aos funcionários, treinamento e respeitar à cultura local.


