Isaura Daniel
e Alexandre Rocha
São Paulo – O ministério das Relações Exteriores da Argentina trabalha para que o acordo de livre comércio que está sendo negociado entre o Mercosul e o Egito, seja assinado já no mês de julho, durante a reunião de Cúpula do Mercosul, em Buenos Aires, segundo informaram à ANBA fontes diplomáticas do país vizinho. O ministro do Comércio Exterior do Egito, Youssef Boutros Ghaly, foi convidado para participar do encontro, mas ainda não confirmou a presença.
Neste momento, o ministério argentino está justamente recolhendo a posição dos demais países integrantes do Mercosul sobre o acordo com o país do norte da África. Brasil e Argentina já manifestaram oficialmente seu interesse pelo tratado. O acordo deve estabelecer tarifas diferenciadas de exportação para produtos que os países do bloco tenham interesse em vender para o Egito e vice-versa.
O convênio poderá também fortalecer as posições das duas regiões em negociações internacionais, como é o caso das discussões sobre subsídios agrícolas, já que passariam a ter uma maior proximidade. Tanto Brasil, quanto Argentina e Egito integram o G-20, grupo de países em desenvolvimento que lutam contra os subsídios concedidos pelos países ricos no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).
De acordo com informações da chancelaria argentina, o país tem muito interesse em ampliar as suas relações comerciais com o Egito, para onde exporta produtos como azeite, maquinário e automóveis. Foi a Argentina quem elaborou uma contra-proposta de acordo aos egípcios, após eles manifestarem, no ano passado, sua vontade de estreitar as relações com o bloco sul-americano.
Apesar do trabalho da diplomacia argentina para que o acordo saia já em julho, as autoridades brasileiras envolvidas com o assunto não acreditam que ele seja assinado antes de dezembro. O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, que foi ao Cairo na semana passada convidar o presidente egípcio, Hosni Mubarak, para vir à Cúpula do Mercosul no Brasil em dezembro, disse que o acordo pode estar fechado, ou "muito bem estruturado", no final do ano.
Oportunidades
Independentemente da data da assinatura do acordo, os dois lados acreditam que ele vai abrir boas oportunidades de negócios. "Esse acordo vai abrir uma porta que está fechada", disse o cônsul comercial do Egito em São Paulo, Mohamad Bakry Agami.
De acordo com ele, o convênio poderá prever privilégios tarifários para vários produtos. No momento, o governo do país árabe está formulando uma lista de mercadorias que podem fazer parte do acordo para submetê-la às autoridades do Mercosul, a mesma coisa está sendo feita do outro lado.
Ele lembrou que seu país já importa carne bovina, frango, óleo de soja, café, autopeças, entre outros produtos do Brasil, mas com as preferências tarifárias esse comércio poderá aumentar muito mais. "Nós já importamos essas mercadorias com as taxas de importação existentes, imagine sem as taxas, poderíamos importar mais e mais", disse. O Egito tornou-se no início deste ano o maior comprador de carne bovina in natura do Brasil.
Na outra ponta, o Egito exporta para o Brasil produtos como nafta para a indústria petroquímica, fertilizantes, algodão e lâminas de barbear, entre outras mercadorias. No entanto, a corrente comercial entre os dois países é muito favorável ao Brasil. Nos primeiros quatro meses do ano, as receitas das exportações brasileiras para o Egito somaram US$ 205,3 milhões, enquanto as importações chegaram apenas a US$ 17,2 milhões.
"Com o acordo poderíamos exportar muito mais", disse Agami. Para ele, o rol poderia aumentar para incluir produtos têxteis, tapetes, arroz, silício, entre outros. Segundo o diplomata, há uma centena de mercadorias, produzidas pelos dois lados, que podem ser incluídas no convênio.
"Nos últimos 20 anos o Egito ficou muito concentrado nas exportações para a Europa, Estados Unidos e para os países ao redor. Agora estamos procurando por novos mercados", afirmou.
Essa nova investida em direção à América do Sul, especialmente ao Brasil, começou, de acordo com ele, no final do ano passado, com a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país árabe. "A partir deste momento nós fomos instruídos a dar maior atenção para essas relações", declarou o diplomata.
Investimentos
Além disso, de acordo com Agami, o tratado pode prever também o fomento à cooperação econômica para além do comércio, ao incentivar investimentos dos países do Mercosul no Egito e vice-versa, com privilégios para empresas dos dois lados.
Segundo o diplomata, o Egito já tem uma "Lei de Investimentos" que confere benefícios para companhias estrangeiras interessadas em se instalar por lá. Tal diploma prevê, entre outras coisas, isenção fiscal por períodos de cinco a dez anos, isenção de taxas para a importação de matéria prima e livre trânsito de capitais. Além disso, segundo ele, o país tem ampla oferta de mão de obra qualificada.
Como exemplo de cooperação possível ele citou a indústria automobilística. O Egito já importa veículos do Brasil, principalmente chassis e motores para ônibus. Empresas brasileiras e egípcias poderiam formar joint-ventures para montar veículos em plantas instaladas em algum dos dois países, cada uma fornecendo uma parte do produto.
Ele ressaltou o potencial econômico egípcio. Além da população de quase 72 milhões de pessoas, o país fica estrategicamente localizado no nordeste da África, próximo à Europa e ao Oriente Médio, o que permite a exploração desses mercados (incluindo o da África). "O Egito é um centro de conexão para todos esses mercados", declarou.
Além disso, ele afirmou que, no futuro próximo, vai entrar em vigor um "acordo de associação", assinado em 2001, entre seu país e a União Européia. Tal tratado vai permitir a entrada na Europa, livre de taxas, de produtos industrializados fabricados no Egito.

