Isaura Daniel
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São Paulo – O egiptólogo Antonio Brancaglion Junior quer levar estudantes do Brasil para fazer pesquisas arqueológicas no Egito. Brancaglion, curador do acervo egípcio do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), está buscando patrocínio para criar uma missão franco-brasileira para fazer escavações na cidade de Tânis, antiga capital egípcia, onde foram enterrados faraós.
A idéia é que estudantes brasileiros como os de Arqueologia e Restauração trabalhem na região com arqueólogos franceses que já exploram o local. O custo para manter o trabalho de uma equipe de 20 pessoas, entre franceses e brasileiros, por dois anos, é de cerca de R$ 600 mil. Metade teria de vir do Brasil.
De acordo com Brancaglion, arqueólogos do mundo inteiro trabalham no Egito. "Meus colegas egípcios me perguntam porque não estamos lá", afirma o egiptólogo. Equipes brasileiras já trabalham em outras partes do mundo, como Israel e Grécia. Começarão a ser feitos, ainda neste ano, também pesquisas arqueológicas por brasileiros no Peru.
Uma aluna do mestrado da UFRJ em Arqueologia Egípcia, Cintia Alfieri Gama, já trabalhou com os franceses em pesquisas arqueológicas no Egito. Foram seis meses: parte do tempo em Paris e parte no país árabe. Os franceses integram a Missão Francesa de Escavações de Tânis e são financiados pelo Ministério de Relações Exteriores da França e fundos privados recolhidos pela Sociedade Terra do Egito e Sociedade Francesa de Escavações de Tânis. Eles trabalham na cidade desde 1929.
Na verdade, existem vários escavadores e arqueólogos brasileiros trabalhando de forma individual mundo à fora. O diferencial da proposta de Brancaglion é desenvolver o trabalho de uma equipe brasileira. Ele acredita que a experiência poderia servir de estratégia para a formação de profissionais do país, além, é claro, de dar reconhecimento ao trabalho do Brasil na área.
O egiptólogo lembra que Uruguai e Argentina, por exemplo, fazem escavações no Egito. Na cidade de Tânis, segundo ele, há muito a ser explorado. Há no local, por exemplo, o templo da deusa Mut, esposa do deus Amon, e um lago sagrado soterrado. "É possível encontrar as tumbas fechadas de rainhas egípcias. Elas podem estar no templo da deusa Mut", afirma Brancaglion.
A pesquisa arqueológica, na verdade, não se resume às escavações, mas também ao trabalho de análise do material, catalogação, confecção de desenhos, entre outras etapas. O patrocinador do projeto franco-brasileiro, segundo Brancaglion, teria retorno de mídia, as publicações sobre as pesquisas sairiam com seu nome, teria também o seu nome associado a um trabalho científico de peso internacional.
O egiptólogo lembra que o trabalho do Brasil no Egito teria muitos pontos a favor, em função dos laços que existem entre as duas regiões, da grande colônia árabe que há no país, da simpatia que os egípcios têm pelo Brasil e das similaridades que há entre as duas regiões.
O egiptólogo
Formado em Ciências Políticas e Sociais na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Brancaglion é uma das maiores autoridades brasileiras em arqueologia egípcia. Ele fez mestrado e doutorado na área no Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP). Quando o Museu do Cairo completou cem anos, Brancaglion foi o único brasileiro convidado a escrever um artigo para o livro comemorativo da data.
Além de curador do acervo egípcio do Museu Nacional, Brancaglion é professor na UFRJ e também professor convidado do Departamento de Letras Orientais da USP. Na arqueologia, Brancaglion trabalha com coleções, que é a reconstrução da história de objetos arqueológicos. Para o Egito, Brancaglion já foi várias vezes, principalmente para buscar evidências de peças egípcias que estão no Brasil.
O projeto da missão franco-brasileira é encabeçado por Brancaglion, no Brasil, e pelo chefe da equipe francesa no Egito, Philippe Brissaud, engenheiro de pesquisa da Escola Prática de Altos Estudos (EPHE), da França.

