São Paulo – Sementes de arroz desenvolvidas no Brasil poderão ser usadas por produtores da África. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) testou suas sementes de arroz para clima tropical no Senegal e obteve rendimentos acima dos que apresentam cultivares já plantadas no país africano. Em breve, deve ser encaminhado, pelo Instituto Senegalês de Pesquisas Agrícolas, parceiro da Embrapa na região, um pedido de homologação das sementes brasileiras junto ao Conselho Nacional de Sementes e Plantas. Se a resposta for positiva, elas serão, depois de reproduzidas no país, plantadas por produtores locais.
A iniciativa abre portas para que o arroz da Embrapa seja usado por boa parte da África, que tem características similares ao Senegal, como na Mauritânia, que é um país árabe, Guiné-Bissau e Mali. Em função das similaridades dos países, elas devem ter bom desempenho por lá. O coordenador do Projeto de Apoio ao Desenvolvimento da Rizicultura no Senegal, João Batista Beltrão Marques, explica que as sementes foram testadas no Vale do Senegal, ao Norte, no departamento de Podor, que faz divisa com a Mauritânia. “Todos os países por ali têm vales, as sementes poderiam ser usadas pelos vizinhos”, diz Marques.
No total, foram plantadas no Senegal, em quatro safras, quatro tipos de sementes de arroz irrigado: BRS Tropical, BRS Biguá, BRS Jaçaná e BRS Alvorada. Todas se mostraram adaptadas, mas a que teve melhor rendimento, conta Marques, foi a BRS Tropical. Ela chegou a gerar 11 toneladas por hectare em um dos plantios. A semente local, plantada para comparação, rendeu 10 toneladas. Esta foi a safra na qual foi usado o sistema de plantio em linha, em que as sementes são postas na terra em linha reta, com distância de 17 centímetros. “Mostramos também que esse sistema pode ser mais eficiente para eles”, afirma Marques.
Em outras três safras foi usado o sistema tradicional do Senegal, que é intraplantio, com mudas. Uma das safras rendeu 6,5 toneladas com a semente do tipo Tropical, contra 5,9 toneladas com a cultivar local, e outra 7,3 toneladas contra 6,3 toneladas. No último plantio a comparação da BRS Tropical foi feita com uma semente local nova e neste caso o rendimento foi igual, de 5,5 toneladas por hectare. Marques explica, no entanto, que houve ganho de qualidade, já que se cultiva por lá o arroz mais quebradiço, enquanto o brasileiro é longo e fino, o agulhinha.
Os testes com as sementes fazem parte do projeto de cooperação que o Brasil desenvolve no Senegal na área de arroz, executado pela Embrapa, com apoio do Instituto Senegalês de Pesquisas Agrícolas e o Ministério da Agricultura do Senegal, em nome do governo local, e financiado pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC), ligada ao Ministério de Relações Exteriores. Marques está morando no Senegal para levar adiante o projeto, que começou a ser executado em abril de 2010 e segue até abril do ano que vem.
Os experimentos também foram feitos com oito variedades de arroz sequeiro, mas as safras se perderam em função de problemas de seca enfrentados na região Sul do Senegal, que é mais própria para elas. Com o arroz irrigado ainda será feito um último ensaio, em julho, para solidificar ainda mais a pesquisa. Se as sementes forem homologadas, Marques acredita que a Embrapa abrirá mão dos royalties. “É uma contribuição grande para as pesquisas brasileiras e para o desenvolvimento destes países”, afirma Marques.

