Isaura Daniel*
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São Paulo – O trabalho artístico do embaixador brasileiro no Cairo, Elim Dutra, ganhou destaque na imprensa egípcia este ano. A edição de abril da revista Al-Beit – Al-Ahram, e a edição de fevereiro da Horus, revista de bordo da companhia aérea EgyptAir, publicaram reportagens sobre a arte do diplomata. Elim Dutra é escultor e também trabalha com atividades como o desenho, a pintura e a fotografia, paralelamente à vida diplomática. No começo do ano passado, Dutra foi um dos artistas convidados para fazer uma escultura no Simpósio Internacional de Escultura de Assuã, que ocorre no país árabe desde 1996 e reúne nomes da arte mundial.
"O meu trabalho como diplomata me deu a chance de viajar e viver no meio de culturas diferentes, enquanto que o meu trabalho como artista me ajudou a me dedicar à experiência diplomática e ampliar a sua abrangência", afirmou Dutra em entrevista à Horus. A publicação contou como Dutra concilia a vida diplomática com a artística e relatou também o processo de criação da escultura que o embaixador fez para o simpósio egípcio. Dutra esculpiu uma figura abstrata de 2,6 metros de altura por um metro de largura e com dez toneladas de peso, em um bloco de granito.
O trabalho ganhou o nome de Al-Zaím, em árabe, que pode ser traduzido para o português como "o chefe" ou "o líder". De acordo com a reportagem, a peça simboliza o poder em suas diversas faces mundiais, como o líder brasileiro da tribo indígena, o faraó egípcio, o líder das tribos vikings escandinavas ou o padrinho italiano. A obra está exposta em frente ao Museu da Núbia, de onde é possível avistar o rio Nilo. Além do brasileiro, também foram convidados para fazer seus trabalhos durante o simpósio outros 14 artistas do Egito, Mauritânia, Turquia, Síria, França, Hungria e Polônia. O objetivo da criação do simpósio foi criar uma nova geração de escultores de granito, segundo a Horus.
Dutra expõe seu trabalho desde 1981 na América do Sul, América do Norte e Europa, além do mundo árabe. "O fato de eu ter deixado a minha obra em um museu aberto, ao lado de um grande número de obras artísticas esculpidas por artistas de vários rincões do mundo é a maior prova do meu amor ao Egito e espero que ela permaneça aqui pelos cinco mil anos que estão por vir", afirmou Dutra à reportagem da Horus. O diplomata é embaixador do Brasil no Cairo há cerca de três anos. Conheceu o país árabe, porém, há trinta anos, em uma missão diplomática. "No momento em que pisei em solo egípcio, comecei a sonhar com o dia em que retornaria para ele", disse à Horus.
O embaixador, que é formado em Direito, descobriu o fascínio pela arte quando se preparava para ingressar na diplomacia. Enquanto aprendia sobre as tarefas das relações internacionais, também começava a desenvolver o seu talento para desenhar, pintar e esculpir. "Descobri a minha paixão pela escultura quando me preparava para a profissão diplomática e decidi adotar as duas profissões de forma independente", disse em entrevista publicada na Al-Beit – Al-Ahram.
Na sua rotina, Dutra faz o possível para conciliar as duas escolhas. E sabe onde os dois trabalhos coincidem e divergem. "A diplomacia, como dizem, é uma arte. No entanto, ela é também um trabalho que se baseia na negociação e no relacionamento com os outros, enquanto que a arte é um trabalho puramente pessoal pois a peça de arte que você cria está sob as suas ordens e não requer negociação com ninguém para que você a produza com um determinado formato. A arte ajuda também o indivíduo a ser mais humilde. Pois a arte é tudo que sobra de nós. Veja, por exemplo, Nagib Mahfouz (escritor egípcio Nobel de Literatura que morreu no ano passado), ele partiu, mas os seus livros permanecem conosco. A arte é uma coisa forte e contínua", afirmou o embaixador à reportagem da Al-Beit – Al-Ahram.
Segundo a revista, as peças esculpidas por Elim Dutra têm forte efeito dramático, apesar da tendência para a abstração. "Algumas delas se assemelham aos totens derivados do patrimônio cultural brasileiro e outras têm fisionomias humanas. Todavia, todas elas têm uma aerodinâmica característica, semelhante à aerodinâmica das formações naturais e semelhante também à aerodinâmica do corpo humano", diz um trecho da matéria a Al-Beit- Al-Ahram. A escultura Al-Zaím, segundo a reportagem, apesar de isenta de qualquer figura humana, parece "forte, dominadora".
*com colaboração do tradutor Abdalla Mansur

