São Paulo – Há cerca de seis anos, Petrobras era para a artesã Maria da Conceição da Silva apenas o nome de uma grande empresa, da qual ela ouvia falar na televisão e via propagandas. De 2004 para cá, no entanto, Maria da Conceição se tornou uma pecinha importante do motor da gigante brasileira do petróleo. As mãos da artesã são algumas das que tecem esteiras de fibra de carnaúba usadas pela companhia. A Petrobras passou a utilizar, há um pouco mais de seis anos, esteiras feitas com a fibra de carnaúba para revestir as linhas de vapor dos seus poços terrestres de petróleo.
A carnaúba é uma árvore que existe em abundância no semi-árido nordestino e da qual é extraída cera para uso industrial. A palha que resta da extração normalmente é usada para fazer peças de artesanato como chapéus, cestos, bolsas e abajures. Na Petrobras, porém, as esteiras feitas de palha são utilizadas como capas de proteção para as linhas de vapor no lugar de lâminas de alumínio. Elas servem como isolantes térmicos, já que pelas tubulações passa vapor com temperatura alta para diluir a viscosidade do petróleo antes da extração.
Apesar da distância entre o artesanato e o petróleo, foi a partir da confecção das peças de folha de carnaúba que mulheres e homens de baixa renda do Rio Grande do Norte, tais como Maria da Conceição, chegaram até a Petrobras. Um quase teólogo, chamado Dario Gaspar Nepomuceno, e sua mulher, Gracia Ramalho, além do técnico da Petrobras, João Batista Dantas, tiveram participação essencial nesse processo.
Nepomuceno e Gracia tentavam, há alguns anos, fazer o trabalho dos artesãos da cidade de Assu, do Rio Grande do Norte, e arredores, decolar. Nepomuceno, que estudou Teologia, mas não chegou a se graduar, e Gracia formaram um grupo de artesanato no Rio Grande do Norte e organizaram uma feira para a comercialização dos produtos. Enquanto isso, Dantas, conhecedor do artesanato do Rio Grande do Norte, teve a idéia de usar a esteira da carnaúba para resolver o problema dos roubos das lâminas de alumínio, e gerar renda para os artesãos. O encontro das duas iniciativas resultou num casamento perfeito.
A organização não-governamental (ONG) Carnaúba Viva foi criada em setembro de 2003 para orquestrar o trabalho dos artesãos e o grupo passou a ser fornecedor da Petrobras na metade de 2004. A vida dos participantes da ONG deu um salto. Maria da Conceição, que vendia o seu artesanato no mercado, junto com os familiares, e de lá tirava apenas mantimentos para a casa, chegou a receber R$ 400 por mês. Conceição mora na cidade de Palheiros, em um assentamento e, quando a renda diminui, não tem como enviar suas filhas para a escola. “Depende de dois carros. Um é do estado e outro tem que pagar”, afirma.
Neste ano, por exemplo, que os pedidos de esteiras diminuíram, as suas filhas, uma com 20 anos e outra com 23 anos, não tiveram como freqüentar a escola. Em 2010, Conceição espera que tudo volte ao normal. De acordo com Nepomuceno, os maiores volumes foram entregues para a Petrobras em 2007. Chegaram a ser três mil peças ao mês. Além das esteiras, a Carnaúba Viva chegou a fornecer para a empresa petrolífera grades de palha de carnaúba para a proteção de oleodutos. Em uma licitação, porém, em meados deste ano, a ONG ganhou apenas o contrato para vender as esteiras das linhas de vapor. Com isso, o grupo de artesãos, que já foi de 500 pessoas, tem hoje 150 participantes. E o volume de produção baixou bastante.
O quase teólogo afirma que a Carnaúba Viva nunca teve contatos comerciais do exterior, mas tem interesse de fabricar as esteiras também para companhias de petróleo de outros países. Seria uma maneira, de acordo com ele, de dar mais renda para os artesãos e trabalho a mais gente. Atualmente, os colaboradores, a maioria mulher, estão espalhados por nove municípios do estado do Rio Grande do Norte. A ONG, no entanto, tem sede no município de Assu. No centro da cidade fica a instalação principal e nos arredores uma estrutura para impermeabilização das esteiras, antes do envio para a Petrobras.

