São Paulo – Quem acompanhou a euforia do mercado de etanol há cerca de cinco anos, logo após a visita do então presidente norte-americano George W. Bush ao Brasil, provavelmente imaginou que em poucos anos o combustível seria adotado globalmente e estaria gerando emissões mais verdes em carros flex mundo afora. É 2012, o mundo está longe de utilizar o modelo brasileiro de consumo de etanol, com bombas exclusivas nos postos, mas vários países começaram a implementar projetos de produção do biocombustível e de pequenas misturas na gasolina.
Na América do Sul, nações como Peru, Colômbia, Argentina e Bolívia adicionam etanol à gasolina, abastecidos, principalmente, por produções próprias. No continente africano, o movimento é mais recente, mas há, por exemplo, planos de fabricação de álcool combustível e mistura na gasolina em Moçambique, onde a francesa Tereos, por meio de sua controlada, a brasileira Guarani, e a Petrobras Biocombustível tocam uma usina de cana. No Sudão, há produção, consumo e até mesmo exportação do produto. Na mesma linha, China e Índia produzem e consomem etanol de cana.
Estas iniciativas não são a concretização do sonho brasileiro de ver seu “gigante verde” andando a passos largos pelos continentes e sendo exportado em grandes volumes pelas usinas do País, mas indicam que o motor para transformar o álcool em commodity não está totalmente parado. "A consolidação dos programas na Europa e Estados Unidos vai induzir países competitivos em cana-de-açúcar a produzirem etanol", afirma o diretor executivo da União da Indústria de Cana de Açúcar (Unica), Eduardo Leão de Sousa, a respeito destas iniciativas.
Os Estados Unidos misturam à gasolina 15% de etanol e têm planos ambiciosos para biocombustíveis: pretendem consumir, em 2022, 136 bilhões de litro ao ano, contra os atuais 50 bilhões. Em algumas regiões do país, como o Meio Oeste, onde é produzido o milho para o etanol, o combustível é usado em carros flex. A União Europeia estipulou que os seus membros devem ter 10% da sua matriz energética baseada em combustíveis renováveis até 2020. Isso significa, de acordo com Sousa, 14 bilhões de litros ao ano.
Grande parte dos especialistas e representantes do setor não tem dado muita importância às iniciativas de consumo nos países da África e América do Sul, que geralmente são mercados pequenos, com possibilidades de produção própria, e, portanto, sem potencial para consumo do etanol brasileiro. Eles admitem, no entanto, que a fabricação do biocombustível em outras nações é boa para o Brasil, pois cria novas fontes de fornecimento.
"É muito bom para o Brasil se surgirem novos ‘players’. Estamos falando de energia, o mundo todo tem a experiência do que é ser dependente de uma fonte de energia com poucos países produtores (o petróleo). Quanto mais países produtores estiverem atuando, melhor para nós", diz o professor e doutor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), Edgar Gomes Ferreira de Beauclair.
Eles não acreditam na adoção de um modelo similar ao brasileiro, com consumo de etanol puro, e acham, inclusive, que não há grandes perspectivas de crescimento do uso do álcool adicionado à gasolina. "A euforia passou, hoje é um momento de desânimo no setor, o etanol perdeu o glamour de 2006, 2007", diz o especialista em Agronegócios e Bioenergia, sócio-diretor da PFSCosta e Associados, Paulo Costa.
Mas Sousa, da Unica, tem uma visão diferente. "O Brasil é o único país que desenvolveu um programa com essa escala, estamos sendo objeto de observação de vários países", diz.
Para Sousa, o primeiro passo, nos demais países, deve ser a adoção da mistura, já que não envolve a criação de uma logística mais complexa. Para o uso do etanol puro seria necessário o desenvolvimento de toda uma logística de distribuição, além da disposição das montadoras de produzirem carros flex. "Mas pode acontecer, dependendo de quanto a produção (de etanol) vai ser competitiva, das novas tecnologias. Temos uma fronteira grande a ser desbravada em tecnologia de biocombustível", diz. Atualmente, segundo ele, mais de cem países produzem açúcar e, portanto, teriam condições de produzir etanol.
O uso do biocombustível é motivado, de acordo com o diretor executivo, por três fatores. Um deles é o aquecimento global, pois o biocombustível ajuda os países a reduzirem suas emissões de poluentes e cumprirem suas metas internacionais. Outro motivo é a segurança energética, com redução da dependência do petróleo. A terceira razão é o desenvolvimento rural, com geração de renda no campo. "Mas a demanda [pelo etanol] não ocorre espontaneamente, é preciso políticas públicas que induzam o consumo", afirma o diretor executivo da Unica.
Com ou sem o Brasil
Mesmo que a passos um tanto quanto lentos, o mundo caminha em direção ao etanol. No Brasil, país precursor no segmento, no entanto, são muitas as dúvidas do papel que terá neste processo aquele que era para o ser o grande protagonista mundial do combustível verde. Os Estados Unidos derrubaram as tarifas de importação para o álcool de cana neste ano, mas o Brasil enfrenta dificuldades de atender a sua própria demanda. Entre estudiosos e consultores, não faltam críticas sobre como o País vem se saindo na área.
"Nós não temos políticas públicas para a energia e os biocombustíveis", diz o professor Beauclair. Ele lembra que a abertura do mercado dos EUA estava prevista há muito tempo. "E não temos etanol nem para nosso próprio consumo", afirma o professor. Ele diz que o setor foi sucateado, com as melhores unidades vendidas para estrangeiros e investimentos em pesquisas direcionados para o pré-sal. Com a missão, então, de se autofinanciar, as usinas acabaram correndo para o açúcar, em função dos preços.
"Só agora surgiu financiamento para o setor, para reforma dos canaviais, porque se esgotaram as desculpas do governo, faltou álcool durante a safra do ano passado e a capacidade das usinas estava em 30%. Faltou cana", afirma o doutor da USP, a respeito de linha de R$ 4 bilhões lançada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para ampliação de canaviais, que deve contribuir para duplicar a produção do etanol até 2014.
O consultor Paulo Costa acredita que em 2012 a produção será um pouco melhor do que no ano passado. "Mas a incapacidade para atender nossa demanda vai perdurar por algum tempo", diz Costa. O especialista não vê, inclusive, um mercado muito grande de etanol para o Brasil lá fora. "Os Estados Unidos têm estoques recordes de etanol, exportaram para o Brasil; na Europa, França, Alemanha, Holanda fazem a mistura, mas é em pequena quantidade", diz Costa. "O consumo global é insignificante", afirma.
Os Estados Unidos, porém, estipularam que o etanol de milho – o tipo produzido no país – poderá representar apenas 57 bilhões dos 136 bilhões que eles estarão consumindo em 2020. "A partir daí (57 bilhões) eles querem o abastecimento com um combustível que reduza em 50% as emissões sobre a gasolina, o que pode ser o etanol da cana ou o celulósico, que ainda não é viável comercialmente. Com isso terão demanda obrigatória de importação de etanol de cana, do Brasil ou de outros países", afirma Sousa, da Unica. A produção mundial de etanol alcançou 110 bilhões de litros em 2011, contra 40 bilhões de litros em 2003.
Tecnologia nossa
Mas se o Brasil não está exportando etanol a rodo mundo afora, ele vem atuando como transmissor de tecnologia. Há diversas iniciativas, das empresas e governo, de ajuda na implementação de lavouras de cana de açúcar e construção de usinas de etanol. A própria Dedini, empresa que produz equipamentos para o setor, vende seus produtos e usinas lá fora e transmite conhecimentos para fabricação de etanol. O Arranjo Produtivo Local do Álcool (Apla) e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) mantém um programa de incentivo para exportação de usinas.
Mesmo nesta área, porém, o Brasil precisa ficar atento para não perder seu espaço. A China vem se especializando na fabricação de equipamentos para produção de etanol e, apesar de apresentar produtos de menor qualidade que os brasileiros, mostrou que está disposta, com sua tecnologia, a conquistar mercados mundo afora.

