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Texas (EUA) – "Vai-se o dinheiro, ficam as habilidades das duas mãos", diz um famoso ditado na região do Mar Mediterrâneo. Isso explica porque mulheres do local aprenderam a tecer e a usar agulhas. O resultado é que alguns dos bordados mais bonitos foram produzidos para embelezar suas casas, mostrar suas habilidades, dar-lhes horas de lazer e o prazer da expressão pessoal. Entre estas expressões estão os bordados do Império Otomano, denominados işlemeler (pronunciado eesh-lem-eh-lair), também chamados toalhas turcas.
Os bordados otomanos mais antigos – é mais correto dizer "otomano" do que "turco", pois vêm de outra parte do império – foram feitos por profissionais ou nas oficinas do Palácio de Topkapi, em Istambul. Eles repetem um desenho forte e estilizado: treliças, medalhões, romãs, cravos e, claro, tulipas. Produzidos no século 16, ocupavam um espaço especial nos jardins, poesia e arte otomana, tanto que o período é conhecido como Lâle Devri, "era da tulipa", e esta paixão se espalhou pela Europa.
No passado, o bordado era uma forma relativamente barata de decorar tecido e os desenhos do bordado freqüentemente imitavam os brocados e outros tecidos mais caros. As peças otomanas mais antigas com desenhos de romã foram copiadas de luxuosos tecidos italianos e espanhóis. Da mesma forma, modelos de seda chinesa foram adaptados no Irã e transferidos de lá para o Ocidente.
Além de grandes bordados formais, que têm muito a ver com os bordados suzani, ainda produzidos na Ásia Central, também eram produzidos artigos menores, muitas vezes mais variados e pessoais, feitos em casa. Eles certamente já existiam antes do século 16, mas nenhuma amostra sobreviveu. Marco Polo, um dos primeiros viajantes ocidentais a percorrer a Rota da Seda, menciona mulheres bordando na cidade de Kerman, atualmente no Irã, na época sob domínio tártaro.
"As mulheres e suas filhas têm habilidades com agulhas, bordando em seda de todas as cores animais e pássaros e muitas outras figuras. Elas bordam tão bem e ricamente as cortinas dos nobres e homens poderosos que os trabalhos são um deleite para os olhos. E esta habilidade também é demonstrada em colchas, almofadas e travesseiros".
Por volta de 1550, um viajante de Gênova, cujo nome se perdeu com o passar do tempo, descreveu um encontro que teve com a esposa de um sultão. Sua história inclui um costume otomano de oferecer ao visitante uma bela bandeja de tecidos quando ele está partindo. A esposa deve ter sido Hürrem, também conhecida como Roxelana, esposa de Solimão, o Magnífico, famosa em toda a Europa por sua beleza e humor. Ela foi uma ex-escrava, provavelmente de origem russa, e foi em seu túmulo e no de seu filho, Sehzade Mehmet, falecido em 1543, que foram encontradas as amostras mais antigas destes bordados pessoais: cinco lenços.
Um século mais tarde, o grande viajante italiano Pietro della Valle escreveu: "Achamos difícil de acreditar em nosso país que trabalhos executados em tecido branco tenham tanto valor na Turquia e que eles produzam tanto. A razão é que as mulheres geralmente são trancadas dentro de casa e não precisam fazer o trabalho de casa, a não ser que sejam contratadas para fazê-lo, então passam seu tempo bordando em tecido branco."
Nos séculos seguintes, os europeus comentavam a quantidade e qualidade dos bordados otomanos. Da casa de Hapsburgo de 1598, a arquiduquesa Marie-Christine enviou à sua mãe um laço, explicando na carta que "é apenas um laço simples, mas estou enviando porque sei bem que Sua Alteza gosta muito de artigos turcos. Meus turcos costuraram". As bordadeiras turcas (bulya) eram muito admiradas na casa de Hapsburgo e em toda a Hungria: o empréstimo de um laço para ajudar a preparar um enxoval ou outro trabalho especial era comum entre amigos. Em 1660, um jovem nobre tinha não menos do que nove lençóis bordados em estilo turco. Mais tarde, faixas e lenços bordados também ficaram populares.
O volume de bordados produzidos não surpreende. Em uma sociedade na qual escravos e serventes faziam as tarefas domésticas mais duras, mulheres ficavam fechadas em casa e raramente saíam, freqüentemente eram analfabetas, e música, desenhos e pintura não eram tarefas convencionais; havia tempo de sobra. O bordado era uma atividade social aprovada e permitia uma certa criatividade. Era uma das poucas áreas em que meninas podiam se expressar – e até mesmo atrair atenção. Bordados eram admirados quando as mulheres iam às casas de banho, mostrando habilidades manuais e dedicação. Os bordados eram apresentados como parte do dote da mulher, e quando ela se casasse, iriam se juntar aos tesouros da família para decorar a casa. Em tempos difíceis, bordados podiam ser vendidos e uma mulher podia exercer esta tarefa para ajudar a sustentar a casa.
No livro Retrato de uma Família Turca, que retrata a Istambul do início do século 20, Irfan Orga descreve sua elegante mãe, sempre em casa, sempre trabalhando em seus lindos bordados. Ele sugere que estes eram seus grandes confortos e que eram uma válvula de escape para sua criatividade e emoções, que ela não podia expressar em outros lugares. Após o sumiço de seu pai e tios na Primeira Guerra Mundial, a família ficou sem dinheiro e ela usava suas habilidades no bordado para evitar com que morressem de fome. Versões desta história foram repetidas milhares de vezes através dos séculos.
Cerca de 300 anos antes, em 1638, a pedido do sultão do Império Otomano, Murad IV, Evliya Çelebi escreveu o Seyahatname (Livro de Viagens), em que descreve as artes de Istanbul. Todo tipo de artesanato é descrito individualmente: "Os produtores de lenços (yaghlikjián) são cem homens de sessenta lojas. A primeira mulher a trabalhar na produção de lenços foi Balquis, a Rainha de Sabá, esposa do Rei Salomão. Nos tempos do Profeta, Selman, o Persa, costurava lenços e os vendia. Eles (os artesãos) apresentam uma grande variedade de lenços."
Muitas vezes Yağlık é traduzido para "guardanapo", e estas lojas provavelmente teciam e vendiam o artigo básico, e talvez até mesmo os belos lenços coloridos usados por homens do Império Otomano para cheirar rapé — especialmente após Murad IV ter proibido o fumo e decretado a pena de morte a fumantes.
Em outra parte de seu texto, Evliya descreve as pessoas que bordavam: "Os bordadores de lenços [nakkáshan] são vinte e cinco homens em vinte lojas. O patrono é Serraj-ud-din. Sua tumba é próxima a Damasco. Eles bordam em sedas para almofadas, lenços, toalhas, camisas e lençóis. Minha mãe era famosa por estes lenços. Eles passam o tempo bordando."
Este é um dos poucos trechos em sua crônica no qual Evliya Çelebi menciona um membro feminino de sua família: certamente este detalhe era importante. Seu catálogo das atividades da cidade enumera os homens trabalhando nelas todas e um número surpreendente baixo produzia lenços. Diferente das mulheres, os 800 homens trabalhavam na produção de cintos. Isso porque lenços geralmente eram feitos em casa, enquanto cintos, principalmente os dos uniformes ou aqueles bordados em ouro, eram fabricados por profissionais. O mesmo pode ser dito sobre o bordado dival, feito com fios de metal e aplicados nos elegantes roupões de veludo usados por homens e mulheres, além de em aparelhos para montaria, sandálias, bolsas, capas e outros itens que ainda são fabricados, principalmente no Norte da África, usando modelos otomanos clássicos.
O Império Otomano tinha duras leis suntuárias, criando forte padronização das vestimentas em diferentes regiões. Os uniformes eram fabricados em Istambul e Bursa e em oficinas em Janina (atualmente na Albânia). Em virtude dos efeitos destas regulamentações e da forte influência da corte, os padrões se espalhavam pelo império. Assim, desenhos similares são encontrados no Oriente e no Ocidente, embora especialistas consigam reconhecer certas diferenças entre desenhos balcânicos (rumélia) e anatólios (turcos).
Uma grande diferença é que as peças fabricadas por cristãos sob domínio otomano têm maior chance de mostrar animais ou mesmo figuras — por exemplo os belos navios das ilhas gregas, ou as caprichadas mantas e cortinas nupciais com figuras estilizadas representando o noivo e a noiva. Muitas vezes as toalhas da região balcã são tecidas em belos desenhos geométricos nos quais são bordados touros ou aves, motivo também encontrado na Grécia.
Lenços, guardanapos e outros bordados em linho (ou mais tarde musseline) eram feitos em casa por mulheres para uso doméstico ou, como descrito por viajantes, para venda para mulheres judias ou cristãs que tinham mais liberdade de movimento e que podiam vendê-los aos ricos ou no bazar.
*Tradução de Mark Ament e Gabriel Pomerancblum

