Alexandre Rocha
São Paulo – Os números do comércio do Brasil com os 22 países árabes já superaram, no período de janeiro a setembro de 2004, os valores registrados em todo ao ano passado. Até setembro, as exportações brasileiras renderam o equivalente a US$ 3,014 bilhões, contra US$ 2,759 bilhões em 2003 inteiro; já as importações somaram US$ 2,829 bilhões, ante US$ 2,705 bilhões no ano passado.
A corrente de comércio (exportações mais importações) até agora foi de US$ 5,843 bilhões. Tanto o valor da corrente comercial, quanto das exportações, são recordes na história do comércio entre brasileiros e árabes.
Em comparação com os primeiros nove meses de 2003, as exportações brasileiras até setembro deste ano cresceram 62%. As importações, por sua vez, aumentaram 37%. Só em setembro, os embarques somaram US$ 414 milhões e as compras brasileiras US$ 367 milhões.
Na avaliação do presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB), Paulo Sérgio Atallah, até o final do ano as exportações para os árabes devem ficar entre US$ 3,6 bilhões e US$ 3,7 bilhões.
A previsão foi feita em abril pelo presidente da CCAB e mantida ontem (04) pelo secretário-geral da entidade, Michel Alaby. Em sua avaliação, os produtos alimentícios como frango, carne bovina, açúcar, café e soja puxaram o aumento das vendas, principalmente em setembro, por causa da proximidade com o Ramadã, mês sagrado para o islamismo.
Durante o Ramadã, que começa em 14 de outubro e vai até 12 de novembro, os muçulmanos ficam em jejum do nascer até o por do sol, mas comem bastante à noite, o que leva o consumidor árabe a estocar alimentos nos dias que antecedem o período religioso.
Além disso, segundo Alaby, após o Ramadã segue-se uma época de festas, quando as pessoas promovem almoços e jantares e trocam presentes. “Seriam como as festas de final de ano no Brasil”, disse.
Fatores
Embora os gêneros alimentícios figurem entre os principais itens da pauta, Alaby ressaltou que estão crescendo também as vendas de outros produtos, como alumínio, papel, veículos, autopeças, minério de ferro, aços especiais, móveis e calçados.
De acordo com ele, entre os fatores que impulsionaram o aumento das vendas estão a viagem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez a cinco países árabes em dezembro de 2003; a perda de espaço de outros fornecedores, como a França e a Tailândia no caso do frango; a participação de brasileiros em feiras na região, e aí entra o trabalho da própria CCAB; e a liderança recente do Brasil em fóruns internacionais, como o G-20, bloco que reúne países agrícolas que lutam contra os subsídios norte-americanos e europeus no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).
“É possível que a liderança do Brasil no G-20 tenha influenciado o comércio, pois, para um país em desenvolvimento, como alguns países árabes, isso representa muito”, disse Alaby. O Egito, por exemplo, é um país árabe que faz parte do G-20 e as exportações brasileiras para lá aumentaram 45% nos nove primeiros meses do ano, passando de US$ 323 milhões para US$ 468 milhões.
Os embarques brasileiros aumentaram para quase todos os países árabes, com exceção de Omã, Dijibuti e Ilhas Comores. Para vários cresceu mais de 50%, como é o caso dos Emirados Árabes Unidos (55,3%), Argélia (124%), Iraque (174,4%), Jordânia (85,6%), Kuwait (97,7%), Líbano (60%), Líbia (77%), Marrocos (61,7%), Mauritânia (112%), Catar (55%), Síria (377%), Somália (522,4%), Sudão (538,6%) e Tunísia (150,4%).
Em termos absolutos, porém, os principais compradores do Brasil entre janeiro e setembro foram a Arábia Saudita (US$ 585,2 milhões), Emirados (US$ 565,6 milhões), Egito (US$ 468,6 milhões), Marrocos (US$ 259 milhões), Argélia (US$ 244,2 milhões), Síria (US$ 133,8 milhões) e Kuwait (US$ 101,8 milhões).
Segundo Alaby, este desempenho indica que o Brasil está conseguindo construir uma boa imagem junto ao mercado árabe. “Há uma certa pré-disposição entre os árabes de negociar em um nível mais constante com o Brasil”, disse. “As visitas que recebemos todas as semanas de importadores árabes são um indicador disso”, acrescentou.
No entanto, ele alertou que o trabalho de promoção comercial, tanto no que diz respeito ao governo, quanto aos empresários, tem que continuar, sob pena de uma queda nesse comércio. “É preciso dar continuidade a esse trabalho”, afirmou. “Temos que aproveitar as oportunidades criadas por estes resultados e tentar ampliar nossa pauta de exportações”, ressaltou.
Importações
No caso das importações, Alaby disse que os valores foram influenciados pelo aumento do preço do petróleo no mercado internacional. O barril chegou a ser cotado a mais de US$ 50 no final da semana passada, mas recuou um pouco ontem nos mercados de Londres e Nova York.
Só para se ter uma idéia, as importações da Argélia, que é o maior fornecedor de petróleo para o Brasil entre os países árabes, somaram US$ 1,4 bilhão entre janeiro e setembro e também já superaram o total do ano passado. O petróleo também influenciou o valor das compras brasileiras de países como a Arábia Saudita (US$ 670 milhões) e Iraque (US$ 397,2 milhões).
“Isso não pode ser considerado um fato negativo, pois com o aumento das receitas com as vendas para nós, crescem também as reservas destes países, que podem ser aplicadas em novas aquisições do Brasil”, concluiu Alaby.

