Alexandre Rocha
São Paulo – A Tunísia criou no ano passado um banco destinado exclusivamente a financiar negócios de pequeno porte, inclusive com a participação de sócios estrangeiros. "O governo tem uma meta de apoiar 70 mil empreendimentos, entre pequenos e grandes, no prazo de cinco anos. E nossa instituição foi criada para auxiliar neste objetivo", disse à ANBA o presidente do Banco de Financiamento de Pequenos e Médios Empreendimentos (BFPME), Abdessalem Mansour, que visitou a Câmara de Comércio Árabe Brasileira na sexta-feira passada.
Mansour esteve no Brasil para participar da conferência da Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico (OCDE), realizada na última semana em Brasília, e que teve como tema justamente o financiamento ao empreendedorismo e às pequenas empresas. "Nós recebemos um convite da OCDE para apresentar a experiência da Tunísia nesta área", disse o executivo.
O banco foi fundado em março do ano passado e até agora já financiou 83 projetos em diversos setores, desde o agronegócio, passando por indústrias como as de material de construção e farmacêutica, até a área de tecnologias da informação e comunicação. O custo total destes projetos chegou a US$ 60 milhões e o banco financiou cerca de US$ 18 milhões. "Mais de 95% das empresas na Tunísia são de pequeno e médio porte", afirmou Mansour.
De acordo com ele, a instituição tem condições financiar joint-ventures entre empresas da Tunísia e de outros países, inclusive brasileiras, desde que a parte tunisiana tenha mais de 50% do negócio. O banco apóia projetos orçados entre US$ 60 mil e US$ 3 milhões com 25% a 50% do total a ser investido. Os juros sãos os mesmo do mercado tunisiano, entre 8% e 8,5% ao ano.
"Nós não entramos para atrapalhar as regras do mercado, mas para acrescentar, até porque os outros bancos atuam como co-financiadores dos projetos", disse Mansour. "Nosso papel é catalisar, ou seja, colocar todas as partes interessadas na mesa. Antes, na Tunísia, o investidor tinha que bater de porta em porta, perdia tempo e muitas vezes não conseguia o que queria", acrescentou.
A instituição trabalha na captação de recursos para financiar o empreendimento e garantir capital de giro ao negócio e atua junto ao governo, que concede vantagens fiscais e financeiras, como a cobrança de impostos mais baixos e a concessão de subsídios. O banco só não cobre os setores de turismo e imóveis. "Estes são segmentos que já dispõem de muitos recursos no mercado e geralmente os projetos têm custos superiores a US$ 3 milhões", afirmou o executivo.
O apoio do banco pode se dar de três formas: por meio de participação como sócio do negócio; por empréstimos de médio prazo, de dois a sete anos com um ano de carência; e por empréstimos de longo prazo, de sete a 10 anos com dois anos de carência. "Temos apenas uma exceção para empréstimos de curto prazo, que é para empresas que vão participar de concorrências públicas", declarou Mansour.
Oportunidades para os jovens
Um dos principais alvos do banco são os jovens profissionais. De acordo com o executivo, cerca de 50 mil tunisianos se formaram nas universidades no ano passado. "E serão 100 mil graduandos em 2010 e dificilmente haverá emprego para todo mundo. Então a idéia é incentivar o empreendedorismo, para que eles se tornem criadores de empregos e não demandantes de empregos", afirmou Mansour.
Neste sentido, um dos setores mais visados pelo banco é o de tecnologias da informação e comunicação, que, de acordo com o executivo, cresce 18% ao ano no país. Durante seu primeiro ano de existência, a instituição realizou um verdadeiro "roadshow" pelas 24 províncias da Tunísia para divulgar seus programas. "E também para encontrar empreendedores em nível regional e nacional. O banco se tornou bastante conhecido muito rapidamente", garantiu Mansour.
A instituição tem hoje um capital de US$ 40 milhões, totalmente governamental. No entanto, Mansour disse que os planos são dobrar este total no próximo ano e abrir o capital para investidores estrangeiros. Já existem negociações, por exemplo, com o Banco de Investimentos Europeu.
O banco tunisiano está interessado também em cooperação com outras instituições do gênero, como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). "Certamente há espaço para esse tipo de cooperação, com troca de experiência e visitas de profissionais", disse ele, ressaltando que recentemente assinou um memorando de entendimentos com o Eximbank da Índia e pretende fazer o mesmo com entidades similares da França e da Suécia. "Nestes casos nós não queremos recursos, mas cooperação e troca de informações", concluiu.

