São Paulo – Atualmente com pelo menos dois bancos árabes operando em seu território, o ABC Brasil, do Bahrein, e o National Bank of Abu Dhabi, dos Emirados Árabes Unidos, o Brasil tem ainda bastante espaço em seu mercado para a entrada de instituições financeiras do Oriente Médio, especialmente se elas focarem em nichos específicos, fora do varejo, onde a competição não é tão acirrada. A avaliação é de Deborah Vieitas, nova presidente da Associação Brasileira dos Bancos Internacionais (ABBI), que concedeu uma entrevista exclusiva à ANBA.
“Eu acho que no Brasil a chave do sucesso é ter bastante clareza quanto a quais são os seus diferenciais competitivos, ou seja, quais são os nichos nos quais você teria pouca competição, porque são sua especialidade, e vir aqui para explorar esses nichos de mercado”, afirmou a executiva, lembrando que os grandes bancos internacionais de varejo no Brasil, como Santander e HSBC, atuam com uma rede de mais de mil agências.
Vieitas, que também é presidente do Banco Caixa Geral Brasil, controlado pela Caixa Geral de Depósitos, de Portugal, foi eleita em 17 de junho para comandar a ABBI. A associação, fundada em 1989, conta com 92 associados, entre bancos, escritórios de representação e outras entidades. Anis Chacur Neto, do Banco ABC Brasil, foi eleito vice-presidente executivo da instituição na mesma chapa que Vieitas. O mandato desta administração é válido para o biênio 2013-2015.
Para a executiva, um dos principais papeis exercido pelos bancos estrangeiros no país é o de financiar grandes projetos. “Os bancos estrangeiros sempre trouxeram para o Brasil um volume de capital importante para financiar a economia e o trazem a prazos que são médio e longo. Isso é uma coisa que o Brasil ainda precisa muito: recursos de médio e longo prazo para financiar todos seus investimentos, e os bancos estrangeiros sempre contribuíram muito com isso”, apontou.
Segundo ela, os investimentos árabes foram mais intensos no Brasil na década de 70 devido aos altos preços do petróleo no período. Este capital, ela explica, era usado principalmente para financiar as exportações e as importações entre as duas regiões. “Essa relação da comunidade financeira-bancária árabe com o Brasil é de longa data. Obviamente que ela conhece momentos de maior desenvolvimento e se altera ao longo do tempo, mas é uma relação bastante antiga e sempre presente” afirmou Vieitas.
“A (recente) vinda do National Bank of Abu Dhabi é um bom exemplo de como os bancos do Oriente Médio entendem que o Brasil é um país que oferece oportunidades de negócios importantes e que o fluxo Brasil-Oriente Médio não está só retratado na parte de comércio exterior. Nós temos também a presença de capitais do Oriente Médio que vêm ao Brasil como investidores. Há vários fundos soberanos que olham investimentos no Brasil em diversos setores”, ressaltou.
De acordo com Vieitas, o baixo crescimento econômico apresentado pela Europa faz com que os países do Oriente Médio passem a olhar para outras regiões em busca de oportunidades de investimentos, e o Brasil, como país emergente, é um dos focos destas instituições.
“O grande facilitador é que o Brasil tem uma grande integração com diferentes comunidades do Oriente Médio. Na população brasileira, temos uma faixa grande da comunidade sírio-libanesa, que marca nossa cultura de forma muito relevante. Esses laços são facilitadores importantes. Os bancos do Oriente Médio sabem quando chegam ao Brasil que têm o apoio da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, sabem que têm o apoio de outros participantes do sistema financeiro. Entendo que, apesar das diferenças culturais, há laços antigos e fortes o suficiente para que vir para cá seja algo que se faz com algum conforto e com bastante interesse porque as oportunidades de investimentos no Brasil são muito grandes. Eu acho que as razões para vir são numerosas”, avaliou.
Para Vieitas, o Brasil também pode se desenvolver em áreas de interesse aos bancos do Oriente Médio, se tornando mais atrativo a estas instituições. “O Brasil, por exemplo, é um dos países que ainda não faz muito financiamento islâmico. Portanto, se o país conseguir se adaptar às condições necessárias para a realização de financiamento islâmico, provavelmente, ele conseguirá atrair um volume importante de capitais do Oriente Médio que hoje ainda não está aqui”, destacou.
A presidente da ABBI acredita que os bancos do Oriente Médio que já atuam aqui podem atrair mais capital da região para o país. “Eu entendo que o papel dos bancos do Oriente Médio é também facilitar essa atração de financiamentos para o Brasil e fazer a ponte entre o Oriente Médio e o Brasil, entre as necessidades de investimento que aqui estão disponíveis e os capitais que lá estão disponíveis para serem aplicados”, completou.
Hoje, os bancos internacionais atuantes no Brasil representam cerca de 20% do total de ativos do sistema financeiro brasileiro. Segundo dados do Banco Central divulgados em maio, eles somam R$ 6,1 bilhões. A maior parte dos bancos estrangeiros que opera no Brasil são instituições da Europa e dos Estados Unidos.


