Altamira, Pará – A polêmica sobre a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará, é uma daquelas discussões difíceis da gente escolher um lado. São inúmeros os argumentos apresentados pelas partes contrárias e favoráveis, muitos carregados de forte dose de emoção. O mesmo ocorreu em debates recentes sobre outros empreendimentos, como a transposição da águas do Rio São Francisco, no Nordeste do Brasil.
Só o futuro dirá quem está com a razão sobre os impactos sociais e ambientais da obra, mas uma coisa é certa: se o projeto for adiante, a Volta Grande do Xingu, entre os municípios de Altamira e Vitória do Xingu, jamais será mesma.
O afluente do Amazonas é, naquela região, de uma beleza única. A reportagem da ANBA percorreu na semana passada parte do traçado a bordo de uma voadeira, barco de alumínio impulsionado por motor, ao lado de outros jornalistas que integram a Jornada E.torQ Amazônia, viagem de carro de São Paulo ao Pará patrocinada pela FTP, fábrica de motores da Fiat.
Muito largo mesmo em época de seca, como agora, o Xingu, na Volta Grande, se divide em diversos igarapés e banha uma série de ilhas com mata virgem ou que abrigam pescadores e pequenas propriedades rurais.
Os moradores dessa comunidade distante dos centros urbanos tratam-se como vizinhos e sabem o que se passa uns na vida dos outros, como se estivessem em uma vila, mesmo que para ir de um lugar ao outro demore horas de barco. Todo mundo se conhece.
No trajeto, por exemplo, um homem com máscara de mergulho e arpão pescava em águas rasas. Joãozinho, o piloto da voadeira, logo cumprimentou o pescador, chamado Jaime, e perguntou se a pescaria estava boa. Jaime se levantou e mostrou uma série de pacus amarrados à cintura.
O rio nessa época, embora largo, tem áreas bastante rasas. Bancos de areia praticamente invisíveis e rochas pontudas estão por toda a parte, então o piloto tem que navegar com cautela para evitar acidentes. O mesmo trajeto que no verão é feito em duas horas pode ser percorrido em 20 minutos no inverno amazônico, época das chuvas. Joãozinho conduz sua embarcação, equipada com um motor Yamaha de 115 cavalos, sem sobressaltos em meio ao labirinto de ilhas e igarapés.
Parte desse emaranhado de cursos d’água e ilhas vai se perder por conta da usina, pois a formação do reservatório vai elevar o rio a um nível superior ao do inverno nas proximidades de Altamira. Ilhas repletas de vegetação vão ficar submersas, inclusive 85% da ilha de Arapujá, que fica bem em frente ao cais da cidade. É bom apreciar essa paisagem antes que ela suma.

