São Paulo – Os financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a área de infraestrutura vão dobrar até 2010. De acordo com o presidente da instituição, Luciano Coutinho, os desembolsos para o setor somaram R$ 35 bilhões em 2008, devem chegar a R$ 50 bilhões este ano e ao dobro do ano passado em 2010. A previsão, segundo ele, tem como base projetos já sob análise do banco.
“Na área de infraestrutura não há nenhum projeto sendo cancelado”, disse Coutinho na sexta-feira (06), em São Paulo. Ele acrescentou que, apesar da crise internacional, o Brasil continua a oferecer oportunidades de qualidade, alta taxa de retorno e baixo risco. “Passamos mais de duas décadas com subinvestimentos, com uma demanda reprimida. Mesmo que o país não cresça, essa demanda por infraestrutura, energia, logística, etc, precisa ser atendida”, acrescentou.
Só do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal, o BNDES tem 280 projetos em carteira, entre hidrelétricas, programas de saneamento básico, transporte coletivo, ferrovias, rodovias, entre outros. Coutinho destacou que várias obras foram licitadas já durante o período mais agudo da crise, e, mesmo assim, houve grande interesse do setor privado, inclusive com a oferta de cobrança de tarifas mais baixas do usuário final.
“É muito robusta a fronteira de investimentos no Brasil”, afirmou. “O projeto do governo é de aceleração e o país tem empuxo suficiente para sustentar isso, vai conseguir investir e até surpreender”, ressaltou. O PAC inclui empreendimentos de todas as esferas de governo, de estatais e de companhias privadas.
Coutinho destacou que o Brasil é o país que está em melhores condições hoje para sair bem da crise, mais até do que outras grandes economias emergentes como a China, Índia e Rússia. Além da política macroeconômica austera adotada em mais de uma década, das medidas tomadas até agora para combater o arrocho do crédito e da demanda reprimida por infraestrutura, o executivo lembrou que o país ainda tem grande potencial de aumento do consumo interno, o que o deixa menos vulnerável do que nações que dependem muito das exportações. Afinal haverá retração no comércio internacional.
Ao contrário do que ocorre nos países desenvolvidos, onde os consumidores estão altamente endividados, no Brasil a relação entre o crédito e a renda das famílias é baixa e há uma aspiração de consumo que pode ser estimulada. Um exemplo citado por ele é o grande déficit de moradias que ainda existe no país.
Para Coutinho, mesmo que na média o desempenho da economia mundial seja ruim em 2009, haverá um descolamento entre países emergentes e desenvolvidos. “O diferencial entre a taxa de crescimento dos países desenvolvidos e a dos emergentes será mantido e até ampliado”, disse ele, referindo-se ao fato que nos últimos anos as nações em desenvolvimento têm crescido mais do que as ricas. “Pode haver um estreitamento em 2009, mas essa diferença vai voltar em 2010”, acrescentou.
Em sua avaliação, como o Brasil está mais preparado, vai sair melhor da crise do que outros países “e vai ajudar a economia mundial”. Mesmo com o mercado internacional de crédito restrito, ele acredita que o país, se necessário, terá condições de gerar poupança interna suficiente para atender suas necessidades de financiamento. O próprio BNDES estima que as perspectiva de investimentos no Brasil de 2009 a 2012, levando em conta somente projetos considerados firmes, é de R$ 1,3 trilhão.
Até no mercado externo Coutinho acredita que o país sofrerá menos. Isso porque o Brasil exporta uma grande variedade de commodities a preços altamente competitivos, e a retração do comércio internacional deverá atingir de maneira mais severa países que produzem a custos mais altos.
Ele disse ainda que não há como prever quando a crise vai efetivamente terminar, mas espera que em 2010 já haja alguma recuperação do mercado internacional de crédito.

