Randa Achmawi
Cairo – O Egito vai começar a implementar, de forma piloto, um projeto de transferência de renda que será em parte inspirado no Fome Zero, programa social do governo brasileiro. Entre o final da última semana e o começo desta, o diretor de Gestão de Informação e Recursos Tecnológicos do Ministério do Desenvolvimento Social do Brasil, Roberto Rodrigues, participou de um seminário, no Cairo, onde repassou aos egípcios a experiência brasileira na área social, principalmente com o Bolsa Família, programa brasileiro que integra o Fome Zero e dá auxílio financeiro a famílias pobres que mantém filhos na escola.
O Centro de Pesquisas Sociais da Universidade Americana do Cairo, que organizou o workshop, está elaborando, juntamente com o Ministério da Solidariedade Social do Egito, um programa piloto que deve ser implementado no bairro de Ain El Sira, no Cairo, um dos mais pobres da cidade. A informação é da organizadora do evento e professora associada da universidade, Hania Shalkania. De acordo com informações do governo brasileiro, o projeto deve começar a ser colocado em prática no mês de abril. Segundo Hania, o plano está sendo estudado há um ano e será testado inicialmente com 600 famílias.
"Mas quisemos, antes de avançar e concluir nosso projeto, conversar com os especialistas destes três países e aproveitar algumas de suas experiências bem sucedidas", diz a egípcia. O workshop apresentou, no Egito, além da experiência brasileira, também programas sociais do México e do Chile. Especialistas egípcios da área social participaram do encontro. Foram analisados os três modelos, de acordo com a professora, para ser retirado de cada um aspectos para compor o programa egípcio.
Segundo ela, o que mais interessou do Brasil foram os mecanismos de seguimento e avaliação da aplicação do Bolsa Família. Também como o programa social do governo brasileiro insere as famílias pobres no sistema bancário. Hania acredita que é mais seguro para uma mulher que recebe a ajuda e vive em um local com pouca segurança, manter seu dinheiro num banco e o ir retirando aos poucos. O que faz o programa Bolsa Família é fornecer aos beneficiários uma espécie de cartão bancário com o qual cada um deles pode retirar o dinheiro quando necessita.
O programa egípcio, porém, deve ter algumas novidades em relação ao brasileiro. "O que gostaríamos de acrescentar ao plano brasileiro, nas condições impostas ao pagamento do valor da assistência, é que seja obrigatório, além da escolarização das crianças, como ocorre no Bolsa Família, a busca de trabalho após a conclusão da escola secundária. Em nosso programa esta será uma das condições ao recebimento da ajuda", diz Hania.
Roberto Rodrigues lembra que o Bolsa Família foi concebido para atender à realidade brasileira, mas que isso não impede que inspire programas em outras realidades. "Antes do Egito, estivemos em países como a África do Sul e Quênia que se interessaram em conhecer nosso projeto e também o acabaram implementando de acordo com a realidade do país. E isso tampouco impede que aproveitemos algumas idéias que nascem nestes lugares. Este é um intercâmbio dedicado a ajudar o maior número de pessoas e só ficaremos satisfeitos se isto ocorrer", afirma Roberto Rodrigues. No Brasil o Bolsa Família beneficia 11,1 milhões de famílias, o que atinge 50 milhões de pessoas.
O intercâmbio do Brasil com o Egito, na área social, começou quando o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, participou de reunião árabe-sul-americana sobre combate à pobreza e à fome, em 2005, no Egito. No segundo semestre do ano passado, o ministro da Solidariedade Social do Egito, Ali El-Sayed Al-Moselhi, esteve no Brasil, com uma comitiva egípcia, conhecendo de perto os programas sociais brasileiros.

