Geovana Pagel
São Paulo – A empresária Antônia Joyce Venâncio vem tendo sucesso desde que apostou num nicho de mercado até então esquecido no Brasil: a produção de bonecas negras, muçulmanas, orientais, indígenas e portadoras de deficiência física. "Trabalhamos sempre dentro da ótica da inclusão social de segmentos da população pouco representados nos brinquedos", conta Joyce.
Em seis anos de existência, o empreendimento que alia negócios e inclusão social já conquistou clientes em vários estados do país e se prepara para dar o primeiro passo rumo ao exterior. Em 2005 a Preta Pretinha virou tese de doutorado de um grupo de alunos de Comércio Exterior da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
De acordo com a empresária, a proposta de trabalho do grupo inclui pesquisa de mercado, divulgação e internacionalização da marca. "Ainda neste ano será feita uma pesquisa de mercado na França. Os alunos também farão um trabalho corpo a corpo em lojas e empresas francesas", conta Joyce orgulhosa.
A loja Preta Pretinha é resultado de um sonho de criança, que se tornou realidade. A proprietária conta que ela e as irmãs não se reconheciam no brinquedo desejado pela maioria das meninas: a boneca. As bonecas encontradas nas lojas normalmente eram brancas. Desde essa época já pensavam em um dia montar um negócio que pudesse atender essa vontade, que não era só delas, mas também de outras amigas negras.
"Eu questionava em casa porque não existiam bonecas negras. Quando eu tinha lá os meus sete ou oito anos, isso mexia muito comigo, me incomodava", conta. Foi a avó de Joyce, Maria Francisca, que, segundo ela, sempre trabalhou muito bem a questão da auto-estima com ela e as duas irmãs, que começou a fazer bonecas de pano, confeccionadas com meias da cor preta.
"Passei a levar as bonecas que minha avó fazia para as atividades com bonecas na escola", lembra. "No começo os colegas estranhavam porque era diferente. Mas depois, o diferente passava a ser normal e encarado com naturalidade", explica.
A menina cresceu, estudou psicologia, trabalhou como secretária, como produtora de vídeo, sem nunca esquecer de suas bonecas de pano e do sonho de apresentá-las para as outras crianças. Em 1998, com a ajuda das duas irmãs, Lúcia e Cristina, e mais seis pessoas da família, ela iniciou o negócio. A produção inicial de bonecas de pano e de vinil era apresentada ao público em feiras e reuniões nas casas das pessoas. Em 2002, a Preta Pretinha ganhou uma loja na Vila Madalena, bairro onde Joyce nasceu e cresceu.
Sempre atenta e sensível aos desejos das pessoas que a cercam, Joyce percebeu que ainda havia muito a fazer. "Trabalho muito com o que eu escuto das pessoas. Crio a partir do que elas pedem, com detalhes que elas querem ver no brinquedo", explica. Começou então a produção de bonecas muçulmanas, orientais, indígenas e portadoras de deficiência física e de síndrome de down. "As diferenças não podem servir de instrumentos de exclusão e o meu trabalho é uma forma de transpor essas barreiras", avalia a empresária.
A partir desse momento, a Preta Pretinha passou a ter uma visibilidade maior do que Joyce um dia imaginara. "Começaram a vir educadores, professores, psicólogos, psiquiatras para conhecer nosso trabalho", conta. Depois que grandes empresas como Nike, ABN Amro Bank, ESPN e Abbott Laboratórios, passaram a ser clientes da Preta Pretinha, a produção mensal inicial de 800 bonecas chega atingir 30 mil unidades ao mês, em períodos de encomendas de brindes para empresas.
"A boneca muçulmana, por exemplo, foi um pedido de uma das coordenadoras do Projeto Escola do Banco Real (ABN Amro Bank). Ela queria desenvolver um trabalho com os funcionários muçulmanos e achou que as bonecas poderiam ajudar", conta. Joyce criou um protótipo, com varias opções de cores dos lenços que cobrem a cabeça da boneca. "Fez o maior sucesso, inclusive aqui na loja", comemora.
Joyce cria todos os modelos e mantém 11 costureiras fixas trabalhando na confecção das bonecas de pano, que é 100% artesanal, e terceiriza a fabricação das bonecas de vinil. "Já tenho um grupo de costureiras preparadas para atender períodos de maior demanda, inclusive as futuras encomendas do exterior. Não teremos nenhum problema em atender o aumento de pedidos", garante.
Graças ao sucesso do negócio, até o final de maio a pequena loja de apenas 15 metros quadrados será trocada por um novo e bem maior endereço. A nova loja vai funcionar na mesma rua da atual – Aspicuelta, número 474, numa casa de 120 metros quadrados.
Além das bonecas e bonecos de pano e vinil, na loja são comercializados chaveiros, ímãs de geladeira, estojos escolares, brincos e fantoches. Os preços variam de R$ 3 o chaveiro boneca, até R$ 150 a boneca de 1,20 m de altura. "Todos os produtos são criados a partir da idéia de inclusão social do diferente, do especial".
Contato
E-mail: preta.pretinha@uol.com.br
Telefone: +55 (11) 3031 8346
Site: www.pretapretinha.com.br

