Isaura Daniel, enviada especial*
Doha – O diplomata Sergio Caldas Mercador Abi-Sad abriu, neste mês, as portas da sede da embaixada brasileira em Doha, no Catar. Desde o mês de abril a embaixada funcionava provisoriamente no Hotel Intercontinental, onde o brasileiro estava hospedado. Diplomata com 40 anos de carreira, Abi-Sad terá pela frente a missão de promover as relações entre o Brasil e Catar.
Em Doha, onde deu entrevista à ANBA, Abi-Sad falou sobre as oportunidades que existem para o Brasil no Catar. A abertura da embaixada brasileira foi anunciada pelo ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, na sua última visita ao país árabe, em fevereiro deste ano. Abi-Sad se mudou para Doha já em abril para ajudar nos preparativos da cúpula de países árabes e sul-americanos, que ocorreu no último mês, em Brasília.
ANBA – A abertura da embaixada em Doha é sua primeira experiência no Golfo?
Abi-Sad – Não, é a segunda experiência no Golfo. Eu fui chefe do setor comercial do Brasil em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, por três anos. Participei, inclusive, em dezembro de 2003, da visita do presidente Lula (Luiz Inácio Lula da Silva) aos Emirados. A visita de Lula foi um marco para o desenvolvimento das relações entre o Brasil e o mundo árabe.
Em que setores há oportunidades para os brasileiros no Catar?
A cidade de Doha é um grande canteiro de obras. Eles querem comprar cimento, precisam de cimento. Nos países próximos não há quantidade suficiente para fornecer. Apenas perto da sede da embaixada há cinco ou seis construções. Há um boom muito grande no setor de construção. Os setores privado e governamental estão investindo. O governo tem um projeto de gastar US$ 26 bilhões em obras públicas de infra-estrutura nos próximos cinco anos.
Também estão sendo construídas residências populares. Há uma escassez muito grande de residências em Doha. A cidade está atraindo pessoas de outros países. Muita gente está vindo para Doha. Gente do Golfo, de outros países árabes e também de países europeus. Com a instabilidade em algumas nações vizinhas, muitas pessoas enviam a família para morar em Doha.
Como os brasileiros podem aproveitar esse tipo de oportunidade?
Quando eu trabalhei em Dubai participei de muitas feiras, inclusive organizadas pela Câmara de Comercio Árabe Brasileira (CCAB). Uma delas foi Big 5, uma feira muito importante voltada para material de construção. Muitos compradores do Catar visitaram a exposição, o estande da CCAB, e me telefonaram depois querendo os produtos brasileiros como mármore, granito, material de refrigeração, o que estava exposto no estande. Vai haver uma feira do gênero aqui, da área de construção, em outubro, no final do Ramadã. Eu espero que os expositores brasileiros venham.
Além do setor de construção, existem oportunidades em outras áreas para a indústria brasileira?
A partir de setembro o Brasil vai começar a exportar ônibus para Doha (Mercedes-Benz é uma das empresas). Aqui não há ainda um sistema de transporte público. A única maneira de se locomover em Doha é de táxi ou carro particular. Os táxis são poucos, raros e caros. De maneira que o sistema de transporte público é muito importante para eles e deve ser implantado logo.
Os ônibus que nós estamos vendendo para eles são para transporte escolar e também para transporte de funcionários de empresas. Nada impede, porém, que essa experiência com os ônibus escolares se amplie. São mais de 200 ônibus que serão vendidos por quase US$ 10 milhões. Quem sabe com essa boa experiência venha também a venda de ônibus de passageiros.
Eles estão muito entusiasmados com a compra porque os ônibus brasileiros não têm dificuldade de circular em locais de temperatura altas, como o Catar.
Como são as relações comerciais já existentes entre o Brasil e o Catar?
Já existe uma presença brasileira muito séria aqui das empresas de carne de frango. Se você for aos grandes supermercados verá que há um monopólio brasileiro, Sadia, Seara e Perdigão são as donas do mercado. A carne brasileira é muito bem recebida por aqui, assim como uma infinidade de outros produtos. Há calçados muito bons de uma fábrica chamada Democrata. Há também um sapato de criança muito bonito chamado Pimpolho.
De onde vem a alta renda per capita do Catar?
Eles têm petróleo e têm a terceira maior reserva natural de gás do mundo. Têm reservas comprovadas para 200 anos. Eles vendem muito para a Europa, o Japão, a China. Têm grandes compradores. As linhas aéreas e as marítimas são muito intensas. A Qatar Airways é a companhia que mais cresce no Golfo. É o momento da Embraer também vir aqui porque eles precisam não só de aviões de grande porte como de aviões para vôos curtos, privados. É muito comum nesta área, onde há pessoas muito ricas, que elas tenham seus aviões particulares.
A embaixada terá uma forte atuação comercial?
A embaixada será muito ativa, muito agressiva. Esse é um princípio do Itamaraty. A embaixada brasileira está aberta aos empresários, tem salas de reunião que podem ser usadas por eles. O objetivo é estimular as relações entre os países. Nós serviremos como intermediários entre os vendedores brasileiros e os compradores locais. Em Dubai, posso dizer que funcionou muito bem. Eu tinha não só o meu escritório como uma salinha de reuniões ao lado. Vivia cheia.
Existem brasileiros morando em Doha?
Sim. Já me reuni com os brasileiros, disse a eles que a embaixada estava abrindo, que eles terão a proteção consular. São cerca de 120 brasileiros que vivem aqui, muitos jogadores de futebol. O futebol é uma paixão tão grande aqui como no Brasil.
Quando eu desembarquei no Catar pela primeira vez, em fevereiro, para preparar a visita do ministro Celso Amorim, me apresentei no aeroporto e disse que era do Brasil. A primeira coisa que falaram foi: Brasil? Ronaldinho! A paixão pelo futebol é uma coisa extraordinária. E esses jogadores estão ansiosos para que não só efetivemos a presença da embaixada como façamos acordos para ampará-los, acordos de cooperação educacional e esportiva. O esporte mais popular aqui é o futebol. Dia de torneio nacional é dia de festa.
Há possibilidade de acordos na área educacional?
O Catar está investindo muito no setor de educação. Eles criaram a Cidade Educacional. Fizeram convênios com grandes universidades norte-americanas e australianas para trazer aqui as sucursais dessas universidades. O emir é muito sensível à modernização científica e tecnológica. Ele e a mulher já estiveram no Brasil, em contato com a USP (Universidade de São Paulo), e ficaram encantados com o que viram.
Antes da embaixada ser aberta, muitos brasileiros vieram aqui para cooperação informal. Há possibilidade de cooperação nesta área porque algo que os atrai muito e saber que o Brasil tem uma tecnologia própria. Quando, por exemplo, eles vêem a tecnologia do álcool, usado como combustível acham extraordinário. Eles têm interesse não só no ensino convencional como no ensino tecnológico.
E na área cultural?
Também há o interesse cultural. Eles têm um teatro, onde apresentam óperas, convidam artistas de grande categoria como Plácido Domingos e Luciano Pavarotti. Grupos musicais brasileiros podem vir também aqui para a alegria dos brasileiros que já moram no Catar. Ficaremos contentes.
Nós temos um grande trunfo na mão que é a população de origem árabe, eu mesmo sou de origem libanesa. Dez por cento da população brasileira é de origem árabe. Isso é uma coisa que dá muito orgulho para eles. No hotel onde eu fiquei instalado eu era apresentado como o brasileiro de origem árabe. Isso acaba aproximando.
É possível atrair investimentos do Catar para o Brasil?
Precisamos mostrar a eles que o Brasil é um país bom e acolhedor para capital estrangeiro. Como eles são poucos – a população do país não chega a 900 mil habitantes -, têm muito dinheiro, renda per capita estimada em US$ 40 mil, uma das mais altas do mundo. E apesar do programa de desenvolvimento que eles têm, não dá para gastar tudo aqui.
* A jornalista viajou a convite da Qatar News Agency

