São Paulo – A pesquisadora brasileira Júnia Quiroga, coordenadora geral de Avaliação e Monitoramento da Secretaria de Avaliação e Gestão da Informação do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), apresentou ontem (28), em Marrakech, no Marrocos, um trabalho que fez sobre as dificuldades de identificação e contagem de populações de rua.
Júnia, que coordenou a Pesquisa Nacional sobre População em Situação de Rua, realizada em 2007 e 2008, fez a apresentação durante um painel sobre contagem de populações de difícil mensuração na 26ª Conferência Internacional de População. Pela primeira vez o evento, organizado a cada quatro anos pela International Union for the Scientific Study of Population (Iussp), ocorre num país árabe e muçulmano.
A pesquisadora disse à ANBA, por telefone, que ressaltou aspectos metodológicos e políticos do trabalho de contagem de populações de rua. Por se tratarem de pessoas que estão em constante movimento e espalhadas pelas cidades, é difícil levantar estatísticas sobre elas.
Para fazer a pesquisa, Júnia e sua equipe se basearam em experiências anteriores e criaram novos métodos para conseguir resultados mais confiáveis. Antes das entrevistas propriamente ditas, foram feitos levantamentos nas cidades envolvidas (71 ao todo), onde os pesquisadores atravessaram os municípios à noite para verificar onde os moradores de rua se concentram e ter uma idéia do número de pessoas nessa situação. Esse trabalho, de acordo com ela, foi essencial para definir a quantidade necessária de entrevistadores.
Houve também, segundo Júnia, um amplo treinamento dos profissionais envolvidos. “Não basta ter competência, tem que ser respeitoso também”, afirmou. Além disso, as entrevistas foram feitas à noite para eliminar da contagem pessoas que passam o dia na rua, mas na verdade não são moradores de rua.
A pesquisa demandou também velocidade, já que se tratam de populações móveis, para que a mesma pessoa não fosse entrevistada mais de uma vez. Depois do trabalho de campo, houve ainda uma triagem para eliminar entrevistas em duplicidade.
Na seara política, de acordo com Júnia, a pesquisa inovou ao utilizar, na equipe, pessoas que já foram moradoras de rua e entidades que atuam no atendimento a essas populações. Isso ajudou, por exemplo, no mapeamento dos locais onde os moradores de rua se abrigam, que muitas vezes ficam escondidos de olhos mais desatentos. Esses integrantes não atuaram como entrevistadores, mas como apoiadores, e representaram 20% das 1.479 pessoas que realizaram o estudo.
Segundo a pesquisadora, o trabalho foi considerado um sucesso também pela baixa taxa de pessoas abordadas que se recusaram a responder as perguntas, 13% no total. Nos 71 municípios pesquisados, foram identificados 31.922 moradores de rua. O levantamento envolveu todas as capitais do país, com exceção de São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre, que já tinham feito estudos do gênero recentemente, e outros 48 municípios com mais de 300 mil habitantes.
A pesquisa, divulgada em abril do ano passado, serviu como subsídio ao Plano Nacional de Inclusão Social de Pessoas em Situação de Rua, que deve ser lançado em breve pelo governo. O plano, de acordo com Júnia, envolve sete ministérios, a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República e a Defensoria Pública da União, além de organizações da sociedade civil dedicadas à defesa dos direitos dos moradores de rua.
Ela acrescentou que o sistema utilizado na pesquisa pode ser replicado, e aperfeiçoado, por outros países e que houve interesse de participantes do painel. Além do trabalho de Júnia, foram feitas apresentações de duas pesquisadoras francesas e uma pesquisadora argentina radicada no México, uma sobre profissionais do sexo e HIV, outra sobre casos raros de doenças e a última sobre como países de língua francesa, especialmente França e Suíça, lidam com casos de mutilação feminina.
Hoje Júnia vai participar de mais um painel da conferência, desta vez não como palestrante, mas como debatedora. Um dos trabalhos que serão mostrados é sobre insegurança alimentar e nutricional no Brasil, a ser apresentado por Paulo Mitchell, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

