São Paulo – Contrariando a tendência mundial, a entrada de investimentos estrangeiros diretos (IED) no Brasil cresceu 20,6% e chegou ao valor recorde de US$ 41,7 bilhões no ano passado, de acordo com dados preliminares divulgados ontem (19) pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad). O fluxo global, segundo estimativa da organização, caiu 21% e ficou em US$ 1,4 trilhão em 2008.
A crise internacional originada nos países desenvolvidos foi o principal motivo dessa diminuição e, embora ela tenha atingido também os emergentes, foram as nações ricas que mais sofreram impactos na seara da atração de investimentos. A Unctad estima em 33% a redução do fluxo nos países desenvolvidos em 2008.
No mundo em desenvolvimento, a entrada de recursos externos cresceu 4% no ano passado, segundo estimativa da entidade. Para a organização, as nações emergentes têm se mostrado mais resistentes aos efeitos da crise. Nesse ponto, os principais destaques foram a África e a América Latina, para onde o fluxo de investimentos cresceu 16,8% e 20,6% em 2008, respectivamente.
“Esse é um fenômeno que começou há alguns anos, uma maior concentração de investimentos nos países em desenvolvimento”, disse à ANBA o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Luís Afonso Lima.
Embora em termos absolutos as nações desenvolvidas recebam mais recursos externos, a participação delas como destino vem diminuindo nos últimos anos. De acordo com o último Boletim da Sobeet, publicado em dezembro, a fatia dos países ricos como receptores de investimentos diretos saiu de 81,1% do total mundial em 2000 para 68,1% em 2007. Já a parcela das economias em desenvolvimento subiu de 18,4% para 27,3% no mesmo período.
O aumento dos investimentos na América Latina, segundo a Unctad, foi influenciado especialmente pela América do Sul. O Brasil foi o país que mais recebeu recursos externos na região, mas outras nações latino-americanas tiveram até um crescimento maior na atração de investimentos. Foi o caso do Chile, com aumento de 23,2% para US$ 17,8 bilhões; do Peru, com acréscimo de 38,9% para US$ 7,4 bilhões; e da Argentina, com crescimento de 27,9% para US$ 7,3 bilhões.
Dos 37 países listados ontem pela Unctad, o Brasil ficou na oitava posição entre os maiores receptores de IED, atrás apenas dos Estados Unidos, França, Reino Unido, China, Rússia, Hong Kong e Espanha, e na frente de economias importantes como Japão, Alemanha, Itália e Índia.
Segundo Lima, dois fatores preponderantes para a atração de IED são o tamanho do mercado e o crescimento da economia. Vários países emergentes, entre eles o Brasil, têm grandes mercados potenciais, em parte ainda não explorados, e vêm crescendo num ritmo acelerado nos últimos anos.
De acordo com ele, no Brasil a indústria tem sido um foco importante dos investidores, ao contrário de outros países onde o setor de serviços predomina. Duas áreas que têm recebido investimentos relevantes são a indústria extrativa mineral e o ramo do petróleo.
Impacto maior em 2009
Em 2009, a Unctad avalia que os efeitos da crise serão mais amplos, sendo que a entrada de recursos nas economias emergentes deve diminuir também. No caso do Brasil, Lima diz que haverá uma redução, mas não grande. Ele acredita que o volume de investimentos diretos deve ficar nos mesmos patamares de 2007, de US$ 34,6 bilhões, considerado ainda um valor bastante representativo.
Para o presidente da Sobeet, o fluxo de recursos para o Brasil deverá ser influenciado por dois fatores: em primeiro lugar a retração da economia mundial, que reduz a demanda internacional por produtos e, conseqüentemente, o ímpeto das empresas em investir; e, em segundo lugar, o grau de investimento atingido pelo país no ano passado, o que historicamente faz aumentar o interesse dos investidores. O número de 2009 será resultado da soma desses vetores, um que puxa o fluxo para baixo e outro que empurra para cima.
A crise, segundo a Unctad, interrompeu uma tendência de aumento do movimento mundial de IED que vinha desde 2003. É difícil prever quando haverá uma retomada do crescimento, mas a entidade diz que cedo ou tarde isso deverá ocorrer, principalmente porque a recessão internacional deverá baixar o preço dos ativos de forma geral e criar oportunidades de investimentos. Além disso, a organização destaca que, apesar do crédito restrito, ainda há uma quantidade razoável de recursos para investir nos cofres de nações emergentes e dos grandes exportadores de petróleo.
A Unctad acrescenta que grandes economias emergentes como Brasil, China, Índia e Rússia se mantiveram atrativas aos investidores mesmo após o recrudescimento da crise e os investidores devem continuar a favorecer nações como estas em busca de opções mais lucrativas.

