São Paulo – O Brasil deve ser um dos países líderes na transição do atual modelo econômico mundial para uma economia mais verde. A argumentação é de profissionais da área ambiental e empresarial reunidos na Conferência Ethos, que debate os novos rumos da economia, nesta segunda (08) e terça-feira (09) na sede da Fecomércio, em São Paulo. “O Brasil pode ter uma economia inclusiva, verde e responsável e tem potencial para ser uma liderança nisto”, disse Paulo Itacarambi, vice-presidente executivo do Instituto Ethos, promotor do encontro.
“O País tem um grande capital natural, é rico em biodiversidade, tem uma população com biodiversidade grande, tem organizações ativas, uma economia dinâmica com matriz energética boa e um processo de redução de disparidades sociais”, explicou Itacarambi. “O Brasil pode sair à frente, temos uma matriz energética limpa, podemos criar muito a partir da nossa biodiversidade”, disse também o vice-presidente de Desenvolvimento Organizacional e Sustentabilidade da Natura, Marcelo Cardoso, outro palestrante.
O secretário nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Mota, também presente no evento, acredita, inclusive, que o Brasil já é líder nesta área em função da sua matriz energética. “Não há outro país que tenha uma matriz energética tão limpa quanto o Brasil”, afirmou o secretário. Atualmente, 47% da energia gerada no Brasil é de fonte renovável e 53% de fontes fósseis. O número foi citado pelo presidente da CPFL, Wilson Ferreira Jr., também presente no evento.
Mota lembrou que o Brasil, diferentemente de outras nações, não tem como pensar sua economia com uma taxa baixa de crescimento. Ou seja, diminuir o crescimento não pode ser uma via para reduzir emissões ou ter uma economia mais sustentável. O caminho para um crescimento sustentável no Brasil, de acordo com o secretário, inclui inúmeras variáveis, mas um delas é a capacidade inovativa. Ele lembrou que atualmente o país é responsável por 2,7% a 2,8% da produção científica mundial.
De acordo com o secretário, no entanto, o Brasil tem dificuldades de levar este conhecimento científico gerado para o mercado de consumo. “Inovação tem a ver com gerar produtos, processo que afetam o mundo da demanda”, complementou. O Ministério ao qual Mota é ligado incorporou o nome “Inovação” nesta semana e um dos desafios na indústria brasileira, segundo ele, é justamente conjugar inovação com sustentabilidade.
Energia
A energia, ao mesmo tempo em que torna o Brasil um dos tops mundiais em modelo limpo, é um desafio para o País frente ao crescimento econômico esperado. O modelo de geração de energia por hidrelétricas, segundo Ferreira, da CPFL, é um dos de menor impacto ambiental e o Brasil tem potencial para mais 250 mil megawatts na área. Para efeito de comparação, a Itaipu gera 14 mil megawatts. Há ainda, segundo o executivo, potencial para 143 mil megawatts em energia eólica. Mais 15 mil megawatts devem vir de projetos de geração de energia pela biomassa, até 2019, e há ainda potencial para energia solar.
Ferreira ressaltou que o Brasil, apesar de ser atualmente a sétima maior economia do mundo, respondendo por 2,9% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, ocupa a 17ª posição no ranking de emissões de poluentes. “Temos uma vantagem enorme, que vem sendo construída nas últimas décadas e pode se tornar maior”, disse Ferreira. O Brasil precisará, segundo ele, aumentar a sua oferta de energia em 142% nos próximos vinte anos para suprir a demanda.
O globo
O moderador da primeira palestra da manhã, da qual participaram Ferreira, Mota, Cardoso e ainda representantes da Alcoa e Walmart, foi o economista Ricardo Abramovay, professor titular do Departamento de Economia da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Abramovay ressaltou os avanços mundiais rumo a uma economia mais sustentável. De acordo com ele, as unidades de produto são feitas cada vez com menos energia e materiais. "O avanço da sociedade brasileira e contemporânea obteve em direção a esta sociedade é extraordinário", disse o especialista.
A fome, que atingia um em cada três habitantes do mundo em 1970, segundo Abramovay, hoje atinge uma em cada sete pessoas. Com isso, oitenta milhões de pessoas entram ao ano para o mercado de consumo. E não são eles, segundo o professor, a causa do aumento de emissões, mas sim a concentração de renda. Um indiano, cita Abramovay, vai consumir quatro toneladas de materiais (alimentos, roupas, etc..) em sua vida. Já um canadense consome 25 toneladas.

