Marina Sarruf
São Paulo – O Brasil e o Egito podem ampliar seus negócios na área têxtil, inclusive com a troca dos diferentes tipos de algodão produzidos em cada país. Esta foi uma das principais conclusões do "Seminário Bilateral Brasil-Egito: do Algodão às Confecções", realizado ontem (22) na sede da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), em São Paulo. "Há uma grande possibilidade de nós desenvolvermos uma relação de troca entre o algodão de fibra longa e extra longa, que o Egito tem tradição e reconhecimento mundial, com o algodão de fibra média do Brasil", afirmou o diretor superintendente da Abit, Fernando Pimentel.
Para dar os primeiros passos das negociações, o vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Haroldo Rodrigues Cunha, e o cônsul comercial do Egito em São Paulo, Mohamed Bakry, pretendem organizar a vinda de empresários egípcios ao Brasil. "Eles poderão ver a safra, conhecer a sistemática de exportação brasileira e aí poderemos estabelecer os primeiros contatos", disse Cunha.
A matéria-prima egípcia já é importada pelo Brasil. O algodão brasileiro, no entanto, ainda não é exportado ao país árabe. "O Egito não produz algodão de fibra média e curta e tem interesse em importar do Brasil", afirmou Bakry. Segundo ele, o país compra estas variedades de outros fornecedores. Para dar início às importações, representantes do governo egípcio precisam analisar e conhecer a área plantada do país produtor.
No primeiro semestre deste ano, as importações brasileiras de algodão egípcio somaram US$ 2,43 milhões, um aumento de 132% em relação ao mesmo período do ano passado. As compras de fios de algodão egípcio somaram US$ 1,5 milhão, um crescimento de 37,8%. "Talvez ainda não existam muitos negócios por falta de conhecimento do produto de cada país, de como funciona o comércio e quais são as necessidades da indústria egípcia", disse Cunha.
Segundo ele, a indústria egípcia pode utilizar o algodão brasileiro para fazer misturas. "O nosso algodão é comercializado por grandes traders internacionais e isso é uma questão de tempo e conhecimento. Acho que tem futuro com certeza", acrescentou Cunha.
De acordo com Pimentel, as relações comerciais entre os dois países vão sendo construídas em encontros como o seminário de ontem, que fazem com que os empresários corram atrás de oportunidades. "São dois países em desenvolvimento. O Brasil tem um forte mercado interno com grande potencial de crescimento. O Egito, por sua vez, tem uma série de acordos preferências de comércio, o que gera um acesso a importantes blocos consumidores", disse.
O seminário também contou com a participação do secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Michel Alaby, que falou sobre o acordo que está sendo negociado entre o Mercosul e o Egito e que vai facilitar as relações comerciais. Ele disse ainda que o país árabe tem uma indústria desenvolvida e é um grande fornecedor de serviços para os países do Golfo Arábico.
Além do Egito, Alaby falou do potencial dos países árabes em geral, que têm um Produto Interno Bruto (PIB) somado de US$ 1,3 trilhão e são os primeiros no ranking de compradores de açúcar do Brasil e os segundos compradores de aeronaves, alimentos e bebidas.
Potencial brasileiro
A safra de algodão brasileiro de 2005/2006 deverá ser de 1 milhão de toneladas, sendo que a previsão das exportações é de 392 mil toneladas. Os principais países importadores do Brasil são China, Paquistão e Indonésia. O Brasil é o 5° maior produtor e o 6° maior exportador de algodão.
De acordo com Cunha, o país pode se tornar o maior fornecedor de algodão do mundo. "Dos grandes países produtores poucos têm a possibilidade de expansão de área. Somos os únicos a ter capacidade para dobrar a nossa produção", afirmou. Ele disse que é possível avançar em áreas de plantio de soja e milho sem ocupar ou devastar novas terras.
Ouro branco
Durante o encontro, Abdel Mansour, presidente da trading Lotas, que trabalha com importação da matéria-prima egípcia desde 1993, afirmou que o algodão egípcio é de tamanha importância para o país que é conhecido como "ouro branco", por ser uma raridade e apresentar características diferenciadas dos demais, como textura, leveza e durabilidade.
De acordo com Bakry, o país árabe é o único lugar do mundo que tem clima e solo adequados para a plantação deste tipo de material. Devido ao grande reconhecimento do algodão egípcio no mercado internacional, o governo local e a associação de exportadores da matéria-prima adotaram um logotipo para evitar falsificações e dar maior segurança ao produto.
Mansour disse ainda que os segredos para manter a qualidade do algodão egípcio estão na política rígida praticada pelo governo, que proíbe a comercialização de sementes e, além disso, o plantio e a colheita são manuais, permitindo a colheita de apenas flores maduras. "O Brasil é um mercado novo ainda para o algodão egípcio", afirmou.
Segundo ele, a produção da matéria-prima egípcia da safra de 2005 foi de 273 mil toneladas, numa área plantada de 294 mil hectares. O Egito exporta 50% de sua produção de algodão, principalmente para Europa, Estados Unidos e Japão.

