Isaura Daniel, enviada especial
Túnis – A missão brasileira que esteve em Túnis nesta semana deu o primeiro passo para o estabelecimento de uma parceria bilateral no setor de engenharia e construção. O conselheiro do presidente da nação árabe, Habib Ben Yahia, se comprometeu ontem (30), em encontro com líderes da delegação, a ajudar a aproximar empresários tunisianos e brasileiros do setor. A idéia é que eles explorem coletivamente mercados como a Líbia a e Argélia, com os quais a Tunísia tem um relacionamento estreito.
"As empresas brasileiras gostariam de ter parceiros árabes para entrar nestes mercados. Temos boas empresas da área, mas faltam parceiros locais", disse o ex-presidente da Câmara de Comercio Árabe Brasileira e atual tesoureiro, Paulo Sérgio Atallah, ao conselheiro do presidente tunisiano Zine El Abidine Ben Ali. Atallah participou da reunião com Yahia ao lado do presidente da Câmara Árabe, Antonio Sarkis Jr., e do representante do cônsul da Tunísia em Porto Alegre, Tomás Huyer.
Ficou acertado, durante o encontro, que os empresários brasileiros da área de engenharia e construção, o que inclui gestores de projetos, irão até Tunis para conversar de perto com os potenciais parceiros. Companhias do setor também serão convidadas para integrar o Conselho Empresarial Brasil-Tunísia, que foi criado em 2002 e teve o seu quarto encontro na segunda-feira (28), em Túnis. O Conselho foi criado pela União Tunisiana da Indústria, Comércio e Artesanato (Utica) e a Câmara Árabe.
A idéia de trabalhar conjuntamente no setor de engenharia foi levantada pela delegação brasileira e encontrou pronta-resposta em Yahia. "Esse tipo de parceria é importante, reduz o tempo de acesso aos mercados", afirmou o conselheiro, que já foi Ministro das Relações Exteriores do país árabe. De acordo com o presidente da Agência de Promoção de Exportações e Investimentos do Brasil (Apex), Juan Quirós, que participou da delegação brasileira, a agência tem um programa de promoção de serviços brasileiros de engenharia no exterior e vai colaborar para que a parceria seja implementada.
Yahia afirmou que as empresas tunisianas do setor já estão operando na região em nações como, por exemplo, o Chade. O país tem planos de construir uma linha ferroviária de seis mil quilômetros, segundo o conselheiro. A idéia é que as empresas brasileiras e tunisianas participem juntas de concorrências para obras deste tipo, empregando sua tecnologia e conhecimento dos mercados. "As empresas brasileiras estão preparadas para fazer qualquer obra em qualquer parte do mundo", afirmou Atallah.
Outros segmentos
Na reunião com a missão brasileira, o conselheiro tunisiano se mostrou interessado em que as parcerias entre os dois países sejam estabelecidas também em outros segmentos. "Na era da globalização é imprescindível que haja parceria entre países amigos para enfrentar a concorrência com os chineses", afirmou Yahia. A Tunísia é uma grande produtora de produtos têxteis e é nesta área, de acordo com o conselheiro, que o país encontra a maior disputa com a China.
O presidente da Câmara Árabe informou ao conselheiro que o Brasil enfrenta problema similar. "Mas percebemos que em mercados com os quais o Brasil tem acordos, como o Mercosul, a concorrência é um pouco menos acirrada", disse Sarkis. O conselheiro acredita que o Brasil e a Tunísia podem enfrentar melhor essa concorrência juntos, inclusive nos mercados próximos ao país árabe. "As empresas tunisianas são muito ativas no Norte da África. O Brasil precisa aproveitar esse fato", diz Yahia. A Tunísia exporta cerca de US$ 1 bilhão ao ano para a Argélia e entre US$ 200 milhões a US$ 300 milhões para a Líbia.
A idéia é que empresas brasileiras produzam na Tunísia para exportar. Sarkis lembrou que assim como o Brasil pode se beneficiar dos acordos que a Tunísia tem com os mercados africano, árabe e europeu, também os empresários tunisianos podem atuar na América Latina através do Brasil. Durante a viagem à Tunísia, a delegação brasileira começou a conversar sobre a possibilidade de embalar azeite de oliva do país árabe no Brasil para vender para os países da América.
Na missão também a Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal) acertou com entidades da indústria de calçados da Tunísia a assinatura, no próximo ano, de um acordo de fornecimento de matéria-prima brasileira.
Os empresários e autoridades que integraram a delegação brasileira, que esteve em Tunis de domingo a quarta-feira, saíram do país árabe contentes com os resultados. "Ficou claro em que setores nos quais podemos atuar juntos no curto prazo", afirmou o presidente da Apex. Na reunião do Conselho Empresarial Brasil-Tunísia as áreas de equipamentos hospitalares e odontológicos, azeite de oliva, calçados, eletrodomésticos, além de engenharia e materiais de construção, foram definidos como prioritários.
"Identificamos segmentos que realmente podem gerar negócios do Brasil com a Tunísia", afirmou o diretor do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Nahid Chicani, que participou da delegação brasileira. O diretor vai repassar à diretoria de comércio exterior da entidade informações sobre as decisões tomadas na viagem para que empresários interessados possam participar de parcerias que serão estabelecidas.
"Hoje há um amadurecimento maior, há um entendimento do outro lado", afirmou o diretor da Câmara Árabe, Cláudio Gosson Jorge, que também fez parte da delegação. "Há uma sinergia para negócios na área de couro e calçados. A Tunísia é um grande mercado e o acordo que ela tem com a União Européia a torna uma parceira potencial para as exportações brasileiras", afirma Tomás Huyer.
Ontem, no último dia da delegação na Tunísia, o grupo também foi recebido pelo prefeito de Tunis, Mohsen Abbas.

