Alexandre Rocha
São Paulo – Com o aumento da demanda mundial por combustíveis alternativos, o Brasil espera, até 2010, agregar 3 bilhões de litros às suas exportações anuais de álcool. A estimativa é da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica), estado que é o maior produtor do país. No ano passado, pela primeira vez o setor registrou um aumento significativo nos embarques de álcool carburante. "Em 2004 houve uma alteração significativa no mercado internacional", disse Antônio de Pádua, diretor técnico da Unica.
Na última safra de cana-de-açúcar foram produzidos 14,7 bilhões de litros de álcool, sendo que 2,4 bilhões de litros foram exportados, contra 1,1 bilhão de litros em 2003, o que rendeu US$ 500 milhões em receitas, o dobro do que no ano anterior.
Segundo Pádua, o fiel da balança nesses resultados foi o aumento da demanda do produto para ser utilizado como carburante misturado à gasolina, que passou a representar 60% do total das exportações. Antes, de acordo com ele, o produto era comprado principalmente para uso nas indústrias de bebidas e de perfumaria.
Entre os fatores que influenciaram esse desempenho estão o aumento dos preços do petróleo e a proximidade da entrada em vigor do protocolo de Kyoto – acordo internacional que estabelece metas de controle sobre a emissão de gases poluentes -, que vai ocorrer em 2008. Outros produtos são utilizados como carburantes misturados à gasolina, como o MTBE (metil-tércio-butil-éter). Mas este, além de ser um derivado do petróleo, portanto sujeito às oscilações na cotação da commodity, é mais poluente do que o álcool.
Mercados
Hoje os principais importadores do Brasil são os Estados Unidos e a Índia, países que já adotam a mistura de álcool na gasolina, mas que também são grandes produtores. A compra de álcool brasileiro pelos EUA em maior ou menor volume, por exemplo, depende muito do comportamento dos preços no mercado interno norte-americano. A grande expectativa do setor gira em torno da abertura de outros mercados de grande potencial, como a China e o Japão.
O Japão, por exemplo, já autorizou a mistura de 3% de álcool anidro na gasolina utilizada nos veículos. O governo brasileiro negocia com as autoridades japonesas para que o Brasil se torne o grande fornecedor quando este mercado efetivamente se abrir.
A produção mundial de álcool, de acordo com Pádua, gira em torno de 35 bilhões de litros, mas o comércio internacional representa cerca de 10% disso, ou 3,5 bilhões de litros anuais. Isso coloca o Brasil, que já é o maior produtor, como o principal exportador.
Segundo Pádua, se todos os países adotassem a mistura de álcool na gasolina o volume comercializado internacionalmente poderia corresponder a sete vezes a produção brasileira, que está prevista em 15,2 bilhões de litros para a safra atual. Os EUA são o segundo maior fabricante mundial com uma produção de 12 bilhões de litros.
Mas esse aumento, de acordo com ele, dificilmente vai ocorrer, justamente porque existem outros produtos que podem ser misturados à gasolina. "Essa demanda pode aumentar para 10, 15, 20, 30 ou até 40 bilhões de litros. São números factíveis, mas só o tempo vai dizer, vai depender do preço do petróleo, de questões ambientais, etc. O Mercado internacional ainda vai se formar", disse.
Produção
Por enquanto, o setor trabalha mesmo com o horizonte de exportações adicionais de 3 bilhões de litros até 2010. Para isso, segundo Pádua, a área plantada de cana-de-açúcar no Brasil deverá de aumentar dos atuais 5,5 milhões de hectares, para cerca de 7,5 milhões de hectares e a produção em 10 bilhões de litros, sendo 7 bilhões destinados ao mercado interno.
Vale lembrar que o mercado brasileiro consome a maior parte da produção e o quadro não deve mudar, já que, além de usar o álcool como carburante na gasolina, o Brasil conta com uma frota grande de veículos movidos exclusivamente a álcool e de automóveis "flex fuel", que funcionam tanto com álcool, como com gasolina.
No entanto, seja qual for o aumento da demanda, Pádua acredita que o Brasil tem plenas condições de continuar como o principal fornecedor do mundo. "Só para se ter uma idéia, se toda a produção brasileira de açúcar fosse convertida em álcool, teríamos 28 bilhões de litros adicionais por ano. A vantagem competitiva do Brasil é muito grande", disse. "Somos os mais competitivos em açúcar, não há porque não sermos no álcool também", acrescentou. O setor de álcool movimenta cerca de R$ 12 bilhões por ano no país.

