Alexandre Rocha
São Paulo – O setor sucroalcooleiro do Brasil está entusiasmado com a eventual de abertura de novos mercados no exterior. E não é só por causa da decisão preliminar da Organização Mundial do Comércio (OMC) de condenar os subsídios europeus ao açúcar, mas também com a possibilidade de aumentar as exportações de álcool combustível para países como o Japão e a China.
Na quinta-feira passada, um grupo da federação das cooperativas japonesas, a Zen-Noh, se reuniu em Brasília com o diretor do Departamento do Açúcar e do Álcool do Ministério da Agricultura, Ângelo Bressan, para discutir a possibilidade do Brasil fornecer álcool anidro para ser misturado na gasolina no Japão. Hoje (09) Bressan vai se reunir com uma comitiva chinesa para tratar do mesmo assunto.
Como preparação para atender aos objetivos do Protocolo de Kyoto, acordo internacional que estabelece metas de controle sobre a emissão de gases poluentes, o governo japonês autorizou no ano passado a adição de até 3% de álcool anidro na gasolina, em substituição ao MTBE (metil-tércio-butil-éter), um derivado do petróleo.
O protocolo de Kyoto ainda não entrou em vigor, isso só deverá ocorrer em 2008 e se o documento for ratificado por um número mínimo de países até esta data.
Segundo Bressan, o Japão consome hoje 60 bilhões de litros de gasolina por ano e a adição de 3% de álcool pode representar a abertura de um mercado de 1,8 bilhão de litros para o setor. A princípio, os japoneses pretendem chegar no futuro à meta de 10% de álcool misturado à gasolina, "que é o limite técnico recomendável", o que poderá fazer com que esse mercado cresça para 6 bilhões de litros por ano.
"O Japão não tem como produzir essa quantidade de álcool, então o Brasil é um grande candidato. Mas o comércio de combustíveis não é um comércio comum, é um setor estratégico. Por isso eles querem saber se o Brasil tem condições de abastecer o Japão de acordo com as suas necessidades", disse Bressan.
Para ele, o Brasil tem plenas condições, pois detém todo o know-how da produção e do uso do álcool. "O Brasil não precisa comprar nenhum equipamento. No país, o álcool representa 40% do combustível utilizado em veículos leves", afirmou. Isso considerando a frota de carros movidos a álcool, os novos veículos "flex fuel", que funcionam tanto com o derivado de cana-de-açúcar como com gasolina, e o álcool que é utilizado como "oxigenante" da gasolina.
"O Brasil não pode deixar de produzir álcool", disse Bressan, ressaltando que a própria dependência do país no combustível é a garantia de que ele não vai faltar. Ele acrescentou que o Brasil tem uma vantagem em relação a outros países produtores, pois produz o combustível a partir do caldo da cana e não do bagaço.
Investimentos
Para atender a demanda externa seria necessário, no entanto, aumentar a área plantada da cana-de-açúcar. Para Bressan, um acréscimo de 1 milhão de hectares de lavoura de cana é o suficiente para atender toda a demanda japonesa e, para um país das dimensões do Brasil, isso pode ser feito "numa boa". "Cana é com a gente mesmo", disse.
Seriam necessários também alguns investimentos na criação de destilarias e em infra-estrutura, como a construção de um duto ligando Paulínia, no interior de São Paulo, ao porto de São Sebastião, no literal do estado, que já está nos planos da Petrobras; ou a construção de um novo terminal no porto de Paranaguá, no Paraná, ou no Nordeste do país. "É só decidir e fazer. Depende de nós e eles decidirmos, e fazer o negócio", afirmou.
Ele considera o interesse da Zen-Noh importante para fazer com o que o Japão adote efetivamente o álcool brasileiro como "oxigenante" da gasolina, um vez que o grupo tem um faturamento anual de 6 trilhões de ienes, o que equivale a US$ 53,6 bilhões, sendo que 11% vem do comércio de combustíveis.
De acordo com Bressan, o Japan Bank for International Cooperation (JBIC), banco de fomento japonês, já se prontificou a angariar recursos da ordem de US$ 300 milhões para investimentos na produção de álcool no Brasil, que teriam uma contrapartida do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). "O namoro está indo bem", afirmou.
Ele calcula o total dos investimentos necessários em US$ 1 bilhão para um comércio que pode chegar a cerca de US$ 1,3 bilhão por ano. "E com certeza não seriam necessários todos os empréstimos do JBIC e do BNDES, porque os usineiros têm capital para investir", declarou.
Com relação à China, Bressan disse que o país já começou a misturar álcool na gasolina e produz o combustível, mas a base de milho, utilizando uma técnica norte-americana "que custa o dobro". "Além disso, o milho é comida e, no caso de problemas com desabastecimento, eles podem ter que parar de produzir álcool. Então uma alternativa pode ser o Brasil", declarou. Segundo ele, a China consome anualmente 45 bilhões de litros de gasolina.
Mas a coisa não pára por aí. De acordo com Bressan, o Brasil tem condições de fornecer para outros países interessados em utilizar o álcool como "oxigenante" na gasolina, como os Estados Unidos, nações européias e até os países árabes, se houver interesse. A Índia já começou a usar o derivado da cana na mistura, mas tem sua própria produção. "Como oxigenante, o álcool é mais eficaz, melhora a combustão da gasolina, além de ser um combustível renovável", ressaltou.
Protocolo de Kyoto
A utilização do álcool em alguns países não garante que o Protocolo de Kyoto, assinado em dezembro de 1997 na cidade japonesa, vá efetivamente entrar em vigor. Pelo texto, os países desenvolvidos se comprometem a reduzir em pelo menos 5,2% a emissão de gases que causam o chamado "efeito estufa" entre 2008 e 2012, com base nos índices apurados em 1990.
Para que o documento tenha efeito, ele precisa ser ratificado por 55 países responsáveis por 55% da emissão desses poluentes. Ocorre que os dois maiores responsáveis por essas emissões, que são os Estados Unidos e a Rússia, ainda não deram seu aval. Em 2001, o presidente norte-americano, George W. Bush, retirou o apoio ao tratado sob a alegação de que ele poderia prejudicar a economia de seu país.
A Rússia, por sua vez, tem idas e vindas, uma hora diz que apóia, outra hora diz que não. Em maio, porém, o presidente russo, Vladimir Putin, disse que seu país vai ratificar rapidamente o acordo. A ver.
Na semana passada, cientistas e ambientalistas da Austrália condenaram a decisão do primeiro-ministro australiano, John Howard, de rejeitar o protocolo.
Enquanto isso, o Brasil produz álcool. Na última safra foram fabricados 14 bilhões de litros e 757 milhões de litros foram exportados em 2003. A previsão do setor para este ano é de exportações de 1,5 bilhão de litros, mesmo sem o Protocolo de Kyoto em vigor. "De qualquer forma os países estão se preparando para isso", concluiu Bressan.

