São Paulo – O presidente do Banco Central do Brasil (BC), Henrique Meirelles, garantiu ontem (22) que o país está preparado e tem condições de enfrentar a crise financeira dos Estados Unidos. “Hoje estamos mais fortes e mais saudáveis para enfrentar uma crise”, afirmou Meirelles durante uma palestra no Fórum da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB), em São Paulo.
De acordo com Meirelles, um dos fatores mais importantes para o fortalecimento da economia brasileira foi a eliminação da dívida cambial doméstica. “Isso gerava aumento da dívida pública brasileira, reforçando a crise de confiança”, disse. Segundo ele, hoje a crise de confiança gera pressão sobre a taxa de câmbio causando uma redução da dívida pública. “Hoje o Brasil é credor”, lembrou Meirelles.
Outro fator mencionado pelo presidente do BC é que o Brasil soube aproveitar o bom momento da economia mundial e acumulou reservas acima de US$ 200 bilhões, o que trouxe mais estabilidade à economia. “Hoje as reservas brasileiras são superiores à dívida do país”, disse. Além disso, Meirelles afirmou que com previsibilidade maior, o nível de investimentos externos também tem aumentando.
“O Brasil hoje tem condições diferentes de enfrentar as crises econômicas internacionais”, disse Meirelles. Um exemplo disso é o desenvolvimento da economia, que teve um crescimento de 6% no primeiro semestre do ano em relação ao mesmo período de 2007, o maior nessa comparação desde 2004.
Outros exemplos positivos citados por Meirelles foram o aumento dos empregos formais de mais de 2 milhões nos últimos 12 meses; o crescimento da renda e massa salarial; aumento da produção industrial, investimentos e melhor distribuição de renda. Em 2005, por exemplo, as classes D e E representavam 51% da população brasileira. Em 2007 o percentual caiu para 39% e a classe C passou de 34% para 46% da população.
“Isso mostra que o país tem condições de criar mais empregos, aumentar a capacidade de produção e atrair mais investimentos externos”, disse o presidente do BC. Apesar de afirmar que o país está mais resistente a crises internacionais e com uma economia mais forte, Meirelles afirmou que o Brasil não deixa de fazer parte da economia mundial e que tem que estar atento. “O fato de o país estar bem não quer dizer que subestimamos a crise”, acrescentou.
Com relação à situação norte-americana, o presidente do BC elogiou a atuação do Federal Reserve (Fed), que anunciou a injeção de recursos no sistema bancário por meio de operações de refinanciamento e disse que todos estão aprendendo com a crise. “Estamos serenos porque estamos fazendo nosso dever de casa para não voltarmos ao passado”, disse.
De acordo com o diretor-presidente do banco Bradesco, Márcio Cypriano, o Brasil vem fazendo há muito tempo sua lição de casa. “Hoje a nossa economia permite que o Brasil tenha uma rápida recuperação” disse ele, que também estava no evento da ADVB.
Repercussão
Entre os convidados presentes estavam o secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Michel Alaby, o vice-presidente de Comércio Exterior da entidade, Salim Schahin, e o vice-presidente de Marketing, Rubens Hannun.
“Concordo com tudo o que o Meirelles disse, mas não sabemos ainda até que ponto essa crise vai afetar o Brasil”, disse Schahin. Ele e Alaby acreditam que há riscos do Brasil sofrer um impacto econômico maior caso os preços das commodities continuarem caindo, já que o país é grande exportador de diversos produtos como soja, café, açúcar e minério de ferro. “Se os preços das commodities não caírem, vamos ser afetados, mas não de maneira intensa”, disse Schahin.
De acordo com Alaby, uma solução para essa queda de preço pode estar no mercado interno. “O Brasil tem um mercado interno muito importante e quem sabe esse mercado pode garantir a economia nacional”, afirmou. Outro fato apontado por ele é que também pode haver uma redução do crédito internacional. “A redução fará com que as empresas tenham dificuldade em investir em máquinas e equipamentos”, completou.
Segundo Hannun, Meirelles fez uma palestra ponderada. “Concordo que o Brasil está mais forte agora, mas é claro que ele vai ser afetado de alguma maneira, pois faz parte do mercado global. Mas, atualmente, o país pode se dar melhor numa situação desse tipo”, afirmou.

