Alexandre Rocha
São Paulo – Desde que começaram a exportar trigo pela primeira vez, no final do ano passado, os produtores brasileiros já venderam mais de 1 milhão de toneladas do produto no mercado exterior. Entre os principais destinos estão o Marrocos, a África e o Norte da Europa. O Egito também figura entre os primeiros países na história que compraram trigo brasileiro, conforme informou a ANBA em janeiro.
Segundo informações divulgadas ontem (31) pelo Ministério da Agricultura, de dezembro a março foram embarcadas 1,033 milhão de toneladas do cereal. A expectativa inicial dos produtores era de atingir este número apenas em agosto.
Na avaliação do assessor técnico e econômico da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), Robson Mafioletti, um dos motivos que estimularam as exportações foi a "pouca liquidez" no mercado interno, com baixos preços sendo praticados.
Em setembro do ano passado os agricultores do Paraná, que é o maior produtor de trigo do Brasil, decidiram suspender as vendas no mercado interno por causa do que eles convencionaram chamar de "ditadura dos moinhos". O objetivo era provocar o aumento dos preços pagos pelo cereal.
Segundo técnicos do setor, no plano safra elaborado no início de 2003 pelo governo, produtores e indústria, os moinhos haviam se comprometido a comprar o produto brasileiro ao mesmo preço do importado. No entanto, após a colheita, eles passaram a pagar entre 15% e 20% a menos.
E até o final de janeiro os preços não haviam subido. "Os moinhos continuaram a importar a preços maiores e o mercado não aqueceu", declarou Mafioletti.
Com isso, os produtores do Paraná e do Rio Grande do Sul decidiram começar a exportar, fato inédito na história da cultura de trigo no Brasil. Isso porque o país produz menos do que consome. Segundo dados do Ministério da Agricultura, a produção brasileira de trigo gira em torno de 5,8 milhões de toneladas anuais, quando o consumo é de 10 milhões de toneladas.
Em janeiro, com a instituição da cobrança do PIS e da Cofins sobre os produtos importados houve nova paralisação do mercado interno, o que incentivou ainda mais as vendas externas. De acordo com o técnico da Ocepar, os moinhos decidiram "esperar para ver" como ficariam as importações após a implementação do novo sistema tributário.
O Ministério da Agricultura deu mais uma explicação sobre o desempenho das exportações. "É mais barato uma empresa do Sul exportar trigo para fora do Brasil do que vendê-lo para o Nordeste por causa dos custos da cabotagem, na qual é obrigatória a presença da bandeira brasileira. Impostos como PIS/Cofins encarecem a operação", disse o diretor de Abastecimento do ministério, José Maria dos Anjos, segundo informou a assessoria de imprensa do órgão.
Aquecimento interno
As exportações e as incertezas tributárias, aliadas à queda na oferta, segundo Mafioletti, fizeram com que os preços internos voltassem a subir. Hoje, de acordo com ele, o produtor paranaense recebe algo entre R$ 470 e R$ 480 por tonelada do cereal, quando no ano passado o valor girava entre R$ 440 e R$ 450.
"Agora o mercado está mais aquecido e fala-se até no aumento da área de plantio", disse o técnico. Hoje, segundo ele, a área utilizada para o plantio de trigo no Paraná é de 1.170 hectares. Estima-se um aumento de 5% a 10% nesse total.
Com o aquecimento do mercado interno e a ampliação da área plantada, a previsão do Ministério da Agricultura é de que a safra de trigo deve chegar a 6,5 milhões de toneladas este ano.
Apesar desta estimativa, Mafioletti acredita que as exportações não devem acompanhar tal crescimento. Isso porque, no momento, não há muito mais trigo da safra passada disponível para exportação e, com a reação do mercado interno, os produtores e atacadistas devem voltar seus olhos novamente para dentro do país.
Segundo do técnico da Ocepar, além disso, o produtor paranaense não terá muita saída este ano a não ser produzir trigo. Isto porque, de acordo com ele, inicialmente vários agricultores pretendiam plantar milho, mas, com a falta de chuvas no estado em fevereiro e até 20 de março, tal pretensão terminou frustrada, uma vez que já passou a época para o plantio de milho. "O produtor ficou sem opção a não ser plantar trigo", acrescentou.
Caminho das pedras
Apesar de não existirem mais grandes previsões de exportações para este ano, Mafioletti disse que agora os produtores já conhecem o caminho das pedras do mercado externo e estão preparados para vender para fora caso surjam boas ofertas, ou se os moinhos voltarem a praticar preços mais baixos do que os pagos pelo produto importado.
Além disso, ele afirmou que o Brasil agora se tornou conhecido como produtor de trigo, embora seja um grande importador. "O produtor não faz objeções em vender aqui dentro ou lá fora. Quem diz é o mercado. Se existir uma boa proposta vinda de fora e condições de logística ele vai vender", afirmou.
Milho e fiscais
O Ministério da Agricultura divulgou também os números das exportações de milho. Do início do ano até o dia 25 de março foram embarcadas 1,942 toneladas do produto, ante 374,8 mil toneladas no mesmo período de 2003.
Ainda ontem o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, anunciou a liberação de R$ 4 milhões para a contratação temporária de 450 agentes de inspeção sanitária. "Os agentes vão atuar principalmente nos frigoríficos que exportam carnes. Afinal, temos que cuidar da qualidade de nossos produtos tanto os destinados às exportações quanto os voltados para o mercado interno", disse Rodrigues, segundo informou a assessoria de imprensa do ministério.
Ele divulgou também que outros R$ 3,4 milhões serão destinados à fiscalização do cultivo e comercialização de produtos transgênicos.

