Isaura Daniel
São Paulo – Mais de 600 produtores rurais mato-grossenses trocaram algumas horas de trabalho nas próprias fazendas, no ano passado, para se transformar em vacinadores de animais. Por meio de um projeto do Instituto de Defesa Agropecuária do Mato Grosso (Indea), eles foram treinados para atuar como agentes sanitários e trabalhar na instrução e vacinação contra a febre aftosa e brucelose nas comunidades onde vivem.
Em novembro passado, época de vacina contra a febre aftosa no estado, esses produtores foram responsáveis por aplicar 44 mil vacinas. "A participação direta deles é a principal arma que a gente tem. É o companheiro do pecuarista dizendo o que é bom para ele", diz o presidente do Indea, Décio Coutinho.
A iniciativa do Mato Grosso, estado que mantém o maior rebanho bovino do país com 26,4 milhões de cabeças de gado, é apenas um dos exemplos do mutirão que se instalou no Brasil, desde o ano passado, para acabar de vez com os problemas de sanidade animal. O país já colocou data para o fim da febre aftosa no território nacional: 2006. Até lá, de acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, todos os estados brasileiros deverão ser livres de febre aftosa com vacinação.
Hoje 14 estados e o Distrito Federal já gozam do status. O Acre, considerado região de risco sanitário, poderá entrar para a lista do estados brasileiros livres de aftosa com vacinação ainda até o final do ano, de acordo com o coordenador geral de combate às doenças do ministério, Jamil Gomes de Souza.
Para cumprir a meta e tornar os rebanhos das 27 unidades da federação livres da enfermidade, o governo vai destinar R$ 150 milhões para a defesa sanitária neste ano, o dobro do ano passado. Também anunciou a contratação de 650 técnicos e vai levar adiante um programa nacional de educação sanitária, que começou no final do ano passado. "Estamos em guerra contra a aftosa", disse o ministro Roberto Rodrigues, quando lançou a campanha em novembro de 2004.
O número de vacinas aplicadas contra a febre aftosa deve saltar de 332 milhões de doses, em 2004, para 370 milhões neste ano, segundo Souza. "Além dos programas de controle e fiscalização estarem avançando, também o produtor está mais maduro, com o compromisso de fazer a sua parte", diz o coordenador.
O que está em jogo são US$ 2,5 bilhões gerados anualmente pelas exportações de carne bovina. Cada vez mais as barreiras sanitárias são utilizadas por alguns países para proteger seus mercados. O próprio ministro Roberto Rodrigues já fez publicamente a afirmação. "Quando um país quer proteger seu mercado, coloca barreira sanitária", reforça Souza.
No ano passado, assim que surgiu um caso isolado de febre aftosa no Pará, estado que não é exportador de carne, a Rússia embargou as importações de carne do Brasil. Também em setembro, quando apareceram outros dois casos do estado do Amazonas, os russos deixaram de comprar carne de gado do Brasil. O problema só foi resolvido no início de março. Mesmo assim, a Rússia ainda não voltou a comprar carne de um dos estados brasileiros exportadores: o Mato Grosso, que faz fronteira com o Amazonas.
Ciclo rompido
Os cinco focos de febre aftosa que surgiram no ano passado, na verdade, no Pará e Amazonas, interromperam um ciclo de dois anos sem registro da doença no país. O Rio Grande do Sul teve casos da doença também nos anos de 2000 e 2001, quando, juntamente com Santa Catarina, estava a alguns passos de se tornar zona livre de aftosa sem vacinação.
"Não há mais lugar para amadorismo quando atingimos a condição de maior exportador de carne do mundo e quanto todo esse esforço pode ser comprometido com focos isolados da doença", disse Rodrigues no final do ano passado. O Brasil é o maior exportador mundial de carne de frango e de carne bovina.
Hoje, 85% do rebanho brasileiro está em zonas livres de aftosa com vacinação, nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Rio de Janeiro, Bahia, Espírito Santo e Sergipe, além do Distrito Federal. O rebanho bovino brasileiro, que está em cerca de 195 milhões de animais, cresce a uma média de 6% a 7% ao ano.
A briga contra a doença
Se depender das iniciativas espalhadas pelo país, será cada vez mais acirrado o cerco às doenças animais. No Rio Grande do Sul, por exemplo, desde 2001 um Motor Home, uma espécie de trailer, é levado para feiras agropecuárias, com veterinários e técnicos e banners, para falar aos pecuaristas sobre as principais ameaças à saúde do rebanho. No Motor Home, mantido pelo Departamento de Produção Animal do estado, uma exposição de morcegos causadores de raiva animal chama a atenção de quem passa. O Rio Grande do Sul tem em andamento 14 programas de sanidade animal.
Em Minas Gerais existe um programa semelhante ao implantado no Mato Grosso. Já foram formados no estado mais de 700 lideranças de comunidades rurais para atuar com vacinação contra febre aftosa, brucelose e raiva. O programa, que se chama Formação de Agentes de Saúde Agropecuária (Fasa) começou no ano 2000 no Norte de Minas Gerais e agora já está em várias outras regiões do estado.

