São Paulo – A produção nacional não acompanhou o aumento do consumo e o Brasil se viu obrigado a ampliar fortemente a importação de derivados de petróleo, o que teve impacto significativo na balança comercial do País com o mundo árabe. As importações brasileiras da região somaram quase US$ 7,4 bilhões de janeiro a julho, um aumento de 34% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).
A conta de hidrocarbonetos somou US$ 6,4 bilhões, ou 87% do total, e teve um crescimento de 43% sobre os sete primeiros meses de 2011. Especialistas consultados pela ANBA dizem que isso ocorre principalmente porque a frota brasileira de veículos cresceu desacompanhada de uma política de aumento da produção e de preços dos combustíveis.
Embora a estatal Petrobras não detenha o monopólio legal da importação de petróleo e derivados, na prática ela é quase a única importadora e é dona de todas as refinarias nacionais. Além disso, a empresa tende a seguir as ordens de seu acionista majoritário, o governo, e tem vendido no mercado interno produtos abaixo do preço pago na importação, o que explica em parte o prejuízo bilionário que a companhia teve no segundo trimestre deste ano.
“A importação cobriu praticamente todo o aumento da demanda”, afirmou o economista Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e ex-assessor da Agência Nacional do Petróleo (ANP). “A capacidade [brasileira] de refino está no limite”, acrescentou.
Na mesma linha, o diretor geral do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP), Ildo Sauer, disse que por um lado o governo incentivou a produção e a venda de veículos, por meio da redução de impostos, a partir da crise internacional de 2008, mas não implementou uma política para que o setor de combustíveis acompanhasse tal avanço.
Exemplo disso é a indústria do etanol, que pouco cresceu e agora o Brasil tem que importar o produto, utilizado em larga escala como combustível há mais de 30 anos. Sauer lembra que para ser competitivo, o álcool tem que custar para o consumidor abaixo de 70% do preço da gasolina, pois o carro abastecido com o biocombustível gasta mais, apesar de ter uma performance melhor. Vale lembrar que a maior parte dos automóveis produzidos no País é “flex fuel”, ou seja, podem ser abastecidos tanto com etanol como com gasolina, ou qualquer mistura dos dois.
“O desequilíbrio [do mercado] pode ser mostrado na conversão da frota para ‘flex fuel’ [ocorrida nos últimos anos]”, declarou Sauer, que foi diretor da Petrobras. Ele destacou que quando o preço do etanol estava mais competitivo, boa parte dos motoristas abastecia seus carros com o produto e o País até exportava o excedente de gasolina que produzia, quadro agora invertido.
“É um incentivo desordenado, são mais carros engarrafando as cidades, sem coordenação com outras áreas. O governo não fez nada [no ramo de combustíveis] e descarregou na Petrobras a responsabilidade de resolver o problema. É um sistema caótico”, criticou Sauer.
Pires acrescenta que a produção agrícola brasileira aumentou fortemente nos últimos anos e que muito diesel é utilizado nas máquinas para plantar, colher e transportar a safra. Essa demanda foi coberta também com importados.
Para o diretor do CBIE, as importações de derivados vão continuar em alta nos próximos anos, porque a produção nacional não vai aumentar rapidamente. A próxima refinaria brasileira, a Abreu e Lima, em Pernambuco, só deverá entrar em operação em 2014. “Nos próximos quatro a cinco anos nós vamos importar muito”, declarou ele.
Árabes
Entre os principais itens importados pelo Brasil do mundo árabe, além do petróleo bruto, estão nafta, querosene de aviação, gás natural liquefeito (GNL) e diesel. As compras de todos estes produtos tiveram forte elevação no período de janeiro a julho, tanto em valor quanto em volume, com exceção da nafta, utilizada como matéria-prima na indústria petroquímica.
Sauer observa que o governo e a Petrobras têm boas relações com os países do Oriente Médio e Norte da África há muito tempo. “No segundo choque do petróleo [em 1979], países como Argélia, Iraque, Irã, Líbia e Arábia Saudita não deixaram o Brasil desabastecido”, declarou. Destas, a única nação não árabe é o Irã. “Há uma posição de fraternidade, uma simpatia mútua”, concluiu.

