Alexandre Rocha
São Paulo – O Brasil ainda importa muito mais vinhos finos do que exporta. Mas, se depender dos produtores nacionais, essa situação poderá mudar no futuro, ou pelo menos tornar-se mais equilibrada. Com a união dos fabricantes em consórcios e novas ações de promoção comercial, o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) prevê crescimento de 20% para as exportações de vinho em 2005 e de 30% em 2006.
"Como ainda exportamos um volume pequeno, podemos projetar um crescimento significativo sem medo de errar. Estas expectativas podem ser até superadas", disse o presidente-executivo do Ibravin, Carlos Paviani.
De fato, o instituto previa um crescimento de 20% nas exportações este ano, mas já foram embarcados 1,9 milhão de litros de vinho até setembro, o que representa um aumento de 42% em comparação com o volume do ano passado inteiro. Os números mostram também uma recuperação do setor, já que houve queda nos embarques em 2003.
Mas cerca de 80% do total exportado ainda é representado por vinhos comuns, ou de mesa, feitos com uvas de origem norte-americana, ou híbridas, e a intenção do setor é investir cada vez mais na venda de vinhos finos, produzidos com castas viníferas de origem européia.
Uma das ações tomadas neste sentido foi a assinatura, há cerca de duas semanas, de um convênio entre o Ibravin e a Agência de Promoção de Exportações do Brasil (Apex). O projeto setorial integrado (PSI), resultante do acordo, foi orçado em R$ 2,78 milhões e vai, inicialmente, promover no exterior as bebidas fabricadas pelas vinícolas Casa de Lantier, Casa Valduga, Cooperativa Vinícola Aurora, Lovara, Miolo e Salton, todas sediadas no Rio Grande do Sul, estado que responde por cerca de 90% da produção nacional.
No entanto, até 2006, a Apex e o Ibravin esperam que o projeto passe a contemplar 12 empresas. O convênio envolve, principalmente, a participação em feiras e missões internacionais. As bebidas serão comercializadas sob a bandeira "Wines from Brazil". Inicialmente os principais focos serão os mercados dos Estados Unidos, da Rússia e da Europa do norte.
"Está mudando o perfil do consumidor nos países que tradicionalmente têm um consumo muito alto. Ele compra hoje quantidades menores, mas de bebidas de melhor qualidade. Por isso, este é o momento de exportar vinhos de qualidade", disse o gerente comercial do projeto, Eduardo Stefani.
"Durante anos os produtores investiram em tecnologia e novas áreas de cultivo de uvas, agora estão buscando as exportações. Os volumes ainda são pequenos, mas têm maior valor agregado", acrescentou Paviani.
Se o volume exportado este ano já cresceu 42% em relação a 2003, as receitas com as vendas externas aumentaram muito mais. Em todo o ano passado, os embarques renderam US$ 672 mil, mas já somaram mais de US$ 1 milhão no período de janeiro a setembro de 2004, ou 52% a mais.
Para a França
Algumas empresas saíram na frente no esforço exportador e já começam a colher os frutos. É o caso da Miolo, que em 2003 teve 1% de seu faturamento de R$ 50 milhões proveniente das exportações. Este ano, a vinícola espera que a participação das exportações suba para 5% de suas receitas, que devem ficar em R$ 51 milhões.
Mas a companhia não vai parar por aí. De acordo com o seu gerente de exportações, Carlos Eduardo Nogueira, a meta é chegar ao patamar de R$ 50 milhões em exportações no prazo de 10 anos, quando, espera-se, o faturamento vai atingir R$ 150 milhões. Já no próximo ano, a empresa espera dobrar suas receitas com as vendas externas.
Segundo Nogueira, hoje a Miolo produz, isoladamente ou em associação com outras empresas, em cinco localidades diferentes, quatro delas no Rio Grande do Sul e também no Vale do Rio São Francisco, na região nordeste do país. "Isso mostra que o Brasil é um país sério no setor. Com cinco regiões produtoras, realmente pode ser considerado um país vinícola", disse.
Além da diversificação de áreas de produção, vinícolas como a Miolo investem na elaboração de produtos cada vez mais sofisticados. "Nossa meta não é vender a preços baixos, mas atingir um público exigente. Trabalhamos aliados à alta gastronomia", afirmou Nogueira. Nesse sentido, a empresa contratou Michel Rolland, famoso enólogo francês, como consultor. "A associação ao nome dele ajuda a abrir portas, faz com que os clientes provem o nosso vinho", acrescentou.
Com isto, a empresa já conseguiu atingir mercados bastante competitivos, como Estados Unidos, Alemanha, República Tcheca, Itália, França e Canadá. O último contrato externo fechado pela empresa foi justamente com a importadora francesa, Vins Du Monde, e envolve o embarque de 1.260 garrafas de dois rótulos lançados este ano, o Quinta do Seival, feito com castas portuguesas, e o Cuvée Guiseppe. O maior mercado, porém, são os EUA, que respondem por cerca de 60% das exportações da companhia.
Os vinhos vendidos pela Miolo no exterior são os mesmos comercializados no Brasil, mas apenas os considerados "top de linha". Além do Quinta do Seival e do Cuvée Giuseppe, a empresa exporta também o Lote 43 e o Miolo Reserva.
Nos mercados dos países ricos, os vinhos brasileiros têm que competir com outras bebidas do "novo mundo", como são chamados os produtos elaborados na América do Sul, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia e nos EUA.
"Mas o vinho brasileiro é bem aceito porque o mercado hoje está em busca de novidades, desde que tenham qualidade e uma boa relação custo benefício", disse Stefani. "Só o fato de ser um vinho do Brasil, que não é um produtor tradicional, já é um diferencial", acrescentou. Como o país ainda exporta quantidades pequenas, os especialistas do setor dizem que ainda não é possível definir se o produto brasileiro está roubando o espaço de algum outro produtor.
Oriente Médio
A Aurora é outra companhia que resolveu investir no mercado externo e criou recentemente uma marca exclusiva para exportação, a linha "Brazilian Soul". A vinícola, na realidade, foi pioneira nas exportações e chegou a embarcar cerca de um milhão de caixas de vinho por ano para os Estados Unidos entre meados da década de 1980 e 1996.
A Aurora já começou, inclusive, a prospectar o mercado do Oriente Médio. E não é só ela que vê possibilidades na região. Eduardo Stefani acredita que Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, por se tratar de um grande centro de distribuição de mercadorias para países vizinhos, na Ásia e África, é um destino em potencial para ser explorado no futuro.
É preciso lembrar que em alguns países árabes, como o Líbano, a Argélia e a Tunísia, não só se consome vinho, mas também se produz. O libanês Chatêau Musar, por exemplo, pode até ser encontrado no Brasil.
Além disso, há mercado para o suco de uva, também produzido pelas vinícolas. Aliás, o suco representa 70% das exportações totais do setor em volume e 86,5% em receitas.
Vale do São Francisco
Outro caso de marca exclusiva para exportação é o do vinho "Rio Sol", lançado pela tradicional importadora Expand, em associação com outras duas empresas. A bebida é produzida no Vale do Rio São Francisco, que é considerada uma área nova de produção de vinhos finos.
Embora produza bem menos do que o Rio Grande do Sul, o Vale do São Francisco tem um grande diferencial. Trata-se da região de vinícola localizada em menor latitude no mundo, a exatamente oito graus de latitude sul. Ao todo, oito vinícolas estão instaladas nos municípios de Santa Maria da Boa Vista, Lagoa Grande e Petrolina, em Pernambuco.
A região tem clima quente e seco, porém irrigação abundante por causa do rio, o que, segundo José Gualberto de Freitas Almeida, presidente da Valexport, associação que reúne produtores rurais da região, permite que os vinhedos produzam o ano inteiro.
"É errado achar que a uva precisa de frio, pelo contrário, quando está frio a videira não produz. Quem precisa de frio é o vinho e para isso nós temos sistemas de refrigeração", disse ele, que também é proprietário da Vinícola Botticelli, e já vendeu para a Alemanha e Dinamarca e agora está em "negociações avançadas" com clientes ingleses.
"A Inglaterra é o mercado mais importante do mundo. O país importa o equivalente a US$ 30 bilhões, dos US$ 150 bilhões que o setor movimenta no mundo", acrescentou.
A região já era tradicional produtora de uvas de mesa, mas a produção de castas viníferas começou somente há alguns anos. Hoje no Vale do São Francisco existem 10 mil hectares de vinhedos, sendo que 600 hectares são de uvas viníferas. Lá, no ano passado, foram fabricados 6 milhões de litros de vinho, produção que deverá crescer entre 10% e 15% até o final de 2004. Na região, o setor emprega cerca de 2 mil pessoas, de forma direta a indireta, e movimentou R$ 25 milhões em 2003.
No Brasil, segundo informações do Ibravin, a produção da última safra chegou a 360 milhões de litros, entre vinhos finos, vinhos de mesa, espumantes e suco de uva. A produção de vinhos finos atingiu 50 milhões de litros. Ao todo, existem 700 vinícolas no país e 16 mil propriedades onde são plantadas as uvas. A movimentação anual do setor é de R$ 1,2 bilhão.

